O Dalai Lama dos tibetanos é um
líder bastante admirado no Ocidente. É difícil, entretanto, precisar as razões
de uma tal veneração. De todo modo, quando perguntados, seus admiradores dirão
que se trata de sua luta em defesa de um Tibete livre (Free Tibet). Ocorre que a posição em favor de um Tibete livre é
necessariamente uma posição contrária – uma oposição – à política de opressão
religiosa da China, que persegue sobretudo os cristãos.
Onde estão os admiradores do
Dalai Lama quando os direitos dos cristãos (católicos e protestantes) são
violados na China? Ou a causa só é válida em se tratando do Tibete e dos monges
budistas?
Não se trata de quaquer paradoxo,
mas de hipocrisia e de ódio ao cristinanismo. Por isso quando vejo um destes
atores holywoodianos saírem em defesa do Dalai Lama, fico à espera de uma
investida contra o Santo Padre, à Igreja Católica ou ao cristianismo em geral.
Bem, o Dalai Lama aparece aqui
pelas recentes declarações que deu sobre a renúncia de Bento XVI. Numa clara
demonstração de apreço, em que não é seguido pelos seus admiradores, disse
sentir uma certa tristeza, que Bento XVI é um homem inteligente e que sua
decisão “realística” teria sido tomada em benefício dos cristãos. Disse ainda
que reza “a fim de que a parte restante de sua vida seja muito útil e rica de
benefício para todos”.
Obrigado, Dalai Lama, de coração.
Sobretudo quando na Igreja há quem não tenha os mesmos sentimentos, suas
palavras dão alegria aos católicos que amam seu papa emérito.
Mas não posso calar uma
pergunta: a quem reza o Dalai Lama?
Aprendi que o budismo é uma
religião não-teísta ou materialista, embora alguns estudiosos considerem esta
concepção um tanto simplista. O fato é que o budismo não admite a existência de
um deus pessoal ou de vários deuses, como o hinduísmo.
6 comentários:
Reverendíssimo Padre,
Sua bênção!
Octavio Paz, o diplomata mexicano, tem um livro chamado Vislumbres da Índia, que diz que, no budismo, não se precisa crer em Deus.
Também nesta reportagem há a mesma informação: http://www.religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=19324
Deus seja louvado!
Em meio a tantas declarações infelizes em relação à renuncia do Papa, as palavras do Dalai Lama refletem, ao menos senti dessa forma, um sincero sentimento de estima e bons votos a Bento XVI.
Vejo-o como um bom homem.
Quanto ao budismo, de acordo com o que consegui aprender, há muitas controvérsias.Há quem identifique nele elementos comuns com o cristianismo e há os que veem os dois como totalmente irreconciliáveis.
Penso que o "rezar" do Dalai Lama, segundo o sentir budista, significa votos de que tudo transcorra em harmonia com uma espécie de ordem universal, a qual se entregam, mas não ousam nomear.
Pe. Clécio, eu também penso da mesma forma do anônimo acima.
Alguns anos atrás eu li algumas considerações do Jacques Maritain sobre o budismo. Vou ver se acho para mostrar ao senhor. Eu achei bastante interessante o que ele disse sobre o budismo.
Elementos comuns todas as religiões têm.
Há fragmentos da Verdade em todas elas.
Porém, como disse o Santo Papa emérito, a Verdade somente pode ser encontrada em plenitude na Santa Igreja.
Isso é coisa que qualquer católico sabe ou deveria saber.
Também penso que o Dalai Lama seja um bom e honesto homem e que, se crente, realmente fez suas preces; se não crente, desejou "tudo de bom" ao Pontífice.
A bênção, Pe. Clécio!
Pe. Clécio, indo direto ao cerne de sua pergunta e, respondendo-a com as palavras de Maritain:
“É para este nirvana [literalmente nudez, metaforicamente “imortalidade”, “refrigério”, “margem do além”...] que o budismo dirige todos os exercícios ascéticos que conserva do bramanismo (moderando-os consideravelmente) e todos os preceitos da sua moral ordenada, assim NÃO PARA UM DEUS MAS PARA UMA ESPÉCIE DE NADA MÍSTICO, COMO FIM ÚLTIMO.” JACQUES MARITAIN, Introdução Geral à Filosofia, p. 29, Agir Editora, 14ª Edição, 1985.
Há muitas outras informações interessantes sobre as religiões orientais nessa obra do Maritain. Vou tentar digitar essas parte para partilhá-las aqui com o senhor e seus leitores.
Não quero com isso fazer condenações ao Dalai Lama nem aos budistas.
Padre, eis um trecho maior da obra que citei acima.
Só um comentário antes: onde eu digitei "um Deus", não existe o artigo indefinido um. Foi um erro de digitação meu.
O budismo segundo Jacques Maritain
“A partir do VI século nascem novas escolas na Índia, umas ortodoxas, outras heterodoxas. De todas, a principal é a da Çakya-Muni, cognominado o Buda (o iluminado, o sábio).
[Nota do autor: Na realidade chamava-se Gautama. O nome Çakya-Muni significa o asceta ou o solitário (muni) da raça ou do clã dos Çakyas. Buda viveu na segunda metade do VI século antes de J.C. Morreu mais ou menos no ano 477.]
O budismo, doutrina essencialmente negativa e dissolvente – orientada aliás mais para a prática do que para a metafísica e a especulação – pode ser considerado como a corrupção e a delinqüência da filosofia bramânica.
Substituído o que é pelo que passa, abstendo-se de dizer se uma coisa é ou não é, procurando conhecer somente uma sucessão de formações instáveis sem nenhum fundamento fixo e nenhum princípio absoluto, em outras palavras, colocando antes o que se chama vir-a-ser ou o fiere, ele se apresenta, no momento mesmo em que Heráclito formula na Grécia a filosofia do vir-a-ser, como um perfeito sistema evolucionista; além disso, se declara que a existência de Deus, como a de um eu substancial ou de uma alma imortal, é incognoscível (agnosticismo), sua verdadeira tendência é negar a existência de Deus (ateísmo) e substituir toda substância por uma corrente ou fluxo – concebido aliás como real em si mesmo – de formações ou fenômenos (fenomenismo): assim a metempsicose para ele consiste na continuidade de uma cadeia de pensamentos e sentimentos (“corrente de consciência”, como hoje se diria), que passa de um a outro modo de existência em virtude duma espécie de élan para a vida devido ao desejo de ser; pois o desejo é a causa da existência, e “nós somos aquilo que antes tínhamos pensado.”
Ao mesmo tempo a doutrina da libertação da dor, que domina tudo no budismo mais ainda que o bramanismo, muda de aspecto e torna-se ainda mais grave. O mal não é só o fato de ter uma existência individual ou pessoal, o mal é existir: ser mau; e o desejo de ser é a fonte de todas as dores. Portanto, o sábio deve destruir em si a aspiração natural do homem para o ser e para a beatitude ou plenitude do ser abandonando toda a esperança e apagando todo o desejo. Chegará desse modo ao estado de vazio ou de indeterminação total chamado nirvana, (literalmente nudez, metaforicamente “imortalidade”, “refrigério”, “margem do além”..., - este termo essencialmente obscuro nunca foi definido por Buda), que o livrará do mal de ser e do jugo da transmigração, que, conforme o desenvolvimento lógico dos princípios budistas, deveria ser considerado o aniquilamento da própria alma; pois a alma é apenas a cadeia ou corrente dos pensamentos e dos sentimentos que devem a existência ao desejo de ser; extinguir este desejo é, pois, extinguir a alma.
É para este nirvana que o budismo dirige todos os exercícios ascéticos que conserva do bramanismo (moderando-os consideravelmente) e todos os preceitos da sua moral ordenada, assim não para Deus mas para uma espécie de Nada místico, como fim último.” JACQUES MARITAIN, Introdução Geral à Filosofia, pp. 28-29, Agir Editora, 14ª Edição, 1985.
Estou partilhando essas informações, sem intenções apologéticas, embora reconheça a importância dela, mas apenas a título de curiosidade.
Postar um comentário