Atendendo a inusitado pedido da redação do Financial Times, jornal de negócios londrino com mais de 2 milhões
de leitores espalhados pelo mundo, o Papa Bento XVI escreveu o artigo abaixo
para ser publicado por ocasião do Natal.
Um
tempo para os Cristãos se engajarem no mundo
"Dai a César o que
é de César e a Deus o que é de Deus”, foi a resposta de Jesus quando perguntado
sobre pagamento de impostos. Aqueles que lhe interrogavam, obviamente, lhe armavam
uma armadilha. Eles pretendiam forçá-lo a se posicionar no tenso debate
político sobre a dominação romana na terra de Israel. E ainda havia algo mais
em jogo: se Jesus realmente fosse o tão longamente esperado Messias, então
certamente ele se oporia aos dominadores romanos. Logo, a questão fora
calculada a fim de expô-lo ou como uma ameaça ao regime, ou como uma fraude.
A resposta de Jesus
habilmente direciona o argumento para um plano superior, gentilmente advertindo
seja contra a politização da religião seja contra a divinização do poder
temporal, juntamente com a insaciável busca de riquezas. Sua audiência
precisava ser recordada que o Messias não era César, e César não era Deus. O
reino que Jesus viera estabelecer era de uma ordem completamente superior. Como
ele disse a Pôncio Pilatos, “Meu reino não é deste mundo”.
Os relatos natalinos no
Novo Testamento visavam a exprimir uma mensagem similar. Jesus nasceu durante
um “censo do mundo inteiro” ordenado por César Augusto, o Imperador renomado
por levar a Pax Romana a todas as terras submetidas ao domínio romano. O
menino, embora nascido numa obscura e longínqua possessão do Império, haveria
de oferecer uma paz maior, de escopo verdadeiramente universal e transcendente
a todas as limitações de espaço e tempo.
Jesus nos é apresentado
como descendente de Davi, mas a libertação que ele trouxe para seu povo não significava
deter os exércitos inimigos; diz respeito a vencer o pecado e a morte para
sempre.
O nascimento de Cristo
nos desafia a reavaliarmos nossas prioridades, nossos valores, nosso próprio
modo de vida. E ainda que o Natal seja indubitavelmente um tempo de grande
alegria, é também ocasião de profunda reflexão, mesmo de um exame de
consciência. Ao final de um ano que significou dificuldades econômicas para
muitos, o que podemos aprender da humildade, da pobreza e da simplicidade da
cena do presépio?
O Natal pode ser um
tempo em que aprendemos a ler o Evangelho, a fim de conhecermos Jesus não
somente como a Criança na manjedoura, mas como aquele em quem reconhecemos o
Deus feito Homem.
É no Evangelho que os
Cristãos encontram inspiração para suas vidas diárias e seu envolvimento nos
negócios do mundo – seja no Parlamento ou na Bolsa de Valores. Os Cristãos
não devem evitar o mundo; eles devem se engajar nele. Mas seu envolvimento na política
ou na economia deve transcender toda forma de ideologia.
Os Cristãos combatem a
pobreza em virtude do reconhecimento da suprema dignidade de cada ser humano,
criado à imagem de Deus e destinado à vida eterna. Os Cristãos se empenham por
uma participação mais equitativa nos recursos da terra em virtude de que, como
administradores da criação de Deus, temos o dever de cuidar dos mais fracos e
vulneráveis. Os Cristãos se opõem à ganância e à exploração em virtude da
convicção de que a generosidade e o amor desinteressado, como ensinado e vivido
por Jesus de Nazaré, são o caminho que conduz à plenitude da vida. A fé cristã
no destino transcendente de cada ser humano dá o sentido de urgência à tarefa
de promover a paz e a justiça para todos.
Porque estes objetivos
são compartilhados com tantos, uma maior e frutuosa cooperação é possível entre
os Cristãos e os outros. Mas os Cristãos dão a César somente o que é de César,
não o que é de Deus. Ao longo da história, nem sempre os Cristãos puderam
atender às exigências feitas por César. Do culto ao Imperador da antiga Roma
aos regimes totalitários do século passado, César tentou tomar o lugar de Deus.
Quando os Cristãos recusam-se à submissão aos falsos deuses propostos
hodiernamente, não é por conta de uma visão de mundo antiquada. Pelo contrário,
é porque eles estão livres das amarras da ideologia e inspirados por uma tão
nobre visão do destino humano que não podem compactuar com qualquer coisa que o
ameace.
Na Itália, muitos
presépios têm como fundo de cena as ruínas dos edifícios da Roma antiga. Isto
mostra que o nascimento do menino Jesus marcou o fim de uma velha ordem, o
mundo pagão, no qual as pretensões de César eram virtualmente incontestáveis.
Agora há um novo rei, que se apoia, não na força das armas, mas no poder do
amor. Ele traz esperança a todos aqueles que, como ele próprio, vivem às
margens da sociedade. Ele traz esperança a todos aqueles que são vulneráveis às
mutações desfavoráveis de um mundo precário. Da manjedoura, Cristo nos chama a
viver como cidadãos do seu reino celeste, um reino que todas as pessoas de boa
vontade podem ajudar a construir aqui na terra.
Papa Bento XVI
Fonte: Boletim da Santa Sé
Tradução: OBLATVS