Entre os melhores católicos que conheço estão os que vieram do
protestantismo. E como Deus é caprichoso, sempre há exceções.
Não digo isto com ânimo de provocação aos irmãos separados
ou com espírito de concorrência, mas porque os ex-protestantes percorrem um longo
caminho até a verdade, repleto de belezas e asperezas. E guardo por
aqueles que tiveram a coragem de trilhar este caminho, não sem sacrifícios
pessoais, uma admiração e um respeito imensos.
Por outro lado, os católicos oriundos do protestantismo
mantêm, não raro, certas incompreensões em relação à nova fé, porque
transplantadas daquela antiga.
Uma diz respeito ao dogma. Como, para o protestantismo, não
há dogma, tudo é dogma! Não estou a dizer qualquer absurdo, ainda que pareça. A
existência de artigos de religião, ou confissões, fórmulas e símbolos de fé
protestantes dão apenas uma sensação de segurança. É da natureza do
protestantismo o caos doutrinário, a incerteza e a insegurança da Fé. E
exatamente porque desprovido de dogmas é que o protestantismo transforma tudo
em dogma, ainda que de existência efêmera ou permanência provisória. Tudo é
dogma enquanto for dogma!
Não quero confundir ninguém com o que vai acima. Para
simplificar, é característica do protestantismo que tudo seja dogmático,
enquanto não se decide contrariamente.
Algum ex-protestante, uma vez católico, pode se confundir em
seu novo ambiente. Julgando que a Igreja Católica seja ainda mais dogmática que
o protestantismo, o “todo dogmático” anterior teria agora, para ele, uma
garantia de imutabilidade e eternidade.
Ocorre que a Igreja Católica não é mais dogmática que o
protestantismo. Ela simplesmente é dogmática, enquanto o protestantismo não o é! E
ser dogmática não significa transformar tudo em dogma. Eis aí uma grande
dificuldade para um espírito protestante ou qualquer outro espírito limitado, distinguir.
Outra incompreensão diz respeito à comunhão eclesial. É
sabido que o protestantismo simplesmente rejeita a noção de igreja enquanto
comunhão real. Usará o termo comunhão em várias acepções, mas nenhuma que seja
propriamente unitária, e por isso mesmo, real e universalmente válida.
Por desconhecer o sentido católico de comunhão, os grupos
protestantes mantêm várias fórmulas de coesão, mais ou menos eficazes. Sem
pretender fazer um levantamento das mesmas, se pode dizer que basicamente a
unidade do grupo se sustenta nas noções de necessidade e realização humana. É
dos vários tipos de necessidade e dos vários modos de ação do homem que
resultará a multiplicidade de grupos protestantes, dos mais congregacionalistas
e restritos aos mais amplos e hierarquizados.
O sentido de comunhão é bastante simples no catolicismo,
ainda que profundo. Resumidamente se poderia dizer ao ex-protestante que se
trata de uma comunhão na profissão da fé de sempre [recebida] que se expressa no culto
comum e na obediência aos legítimos pastores.
Da junção de ambas as incompreensões mencionadas acima,
alguns ex-protestantes consideram uma ofensa à fé e à unidade da Igreja qualquer
crítica feita no interior da Igreja a bispos ou a grupos.
É preciso dizer que a Igreja Católica não pratica o “centralismo
democrático”. Este autoritarismo é coisa de partidos de esquerda. Na Igreja
Católica reina uma saudável e legítima liberdade, de tal maneira que o simples
fiel pode lembrar certas verdades de fé a um bispo, e até ao Papa!
Não basta que alguém, na Igreja, seja bispo ou um grupo seja
reconhecido para ganhar uma espécie de inimputabilidade. Há bispos dizendo e
fazendo besteiras mundo afora e grupos, reconhecidos e louvados pelos papas (já
que insistem), que persistem em certos erros graves. E não será em nome da
unidade de fé e da comunhão na Igreja que haveremos de nos impor uma silente
cumplicidade.
Por isso digo aos católicos que vieram do protestantismo e
aos católicos que sem perceber se encaminham para ele: ser católico não é ser
como aquele “cachorrinho” que enfeita painel de caminhão e balança a cabecinha
conforme o mesmo se movimenta. Ser católico é ser obediente e livre, num
daqueles paradoxos que somente a fé católica é capaz de harmonizar.