"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

sábado, 22 de setembro de 2012

Aos que criticam os que criticam porque criticam


Entre os melhores católicos que conheço estão os que vieram do protestantismo. E como Deus é caprichoso, sempre há exceções.

Não digo isto com ânimo de provocação aos irmãos separados ou com espírito de concorrência, mas porque os ex-protestantes percorrem um longo caminho até a verdade, repleto de belezas e asperezas. E guardo por aqueles que tiveram a coragem de trilhar este caminho, não sem sacrifícios pessoais, uma admiração e um respeito imensos.

Por outro lado, os católicos oriundos do protestantismo mantêm, não raro, certas incompreensões em relação à nova fé, porque transplantadas daquela antiga.

Uma diz respeito ao dogma. Como, para o protestantismo, não há dogma, tudo é dogma! Não estou a dizer qualquer absurdo, ainda que pareça. A existência de artigos de religião, ou confissões, fórmulas e símbolos de fé protestantes dão apenas uma sensação de segurança. É da natureza do protestantismo o caos doutrinário, a incerteza e a insegurança da Fé. E exatamente porque desprovido de dogmas é que o protestantismo transforma tudo em dogma, ainda que de existência efêmera ou permanência provisória. Tudo é dogma enquanto for dogma!

Não quero confundir ninguém com o que vai acima. Para simplificar, é característica do protestantismo que tudo seja dogmático, enquanto não se decide contrariamente.

Algum ex-protestante, uma vez católico, pode se confundir em seu novo ambiente. Julgando que a Igreja Católica seja ainda mais dogmática que o protestantismo, o “todo dogmático” anterior teria agora, para ele, uma garantia de imutabilidade e eternidade.

Ocorre que a Igreja Católica não é mais dogmática que o protestantismo. Ela simplesmente é dogmática, enquanto o protestantismo não o é! E ser dogmática não significa transformar tudo em dogma. Eis aí uma grande dificuldade para um espírito protestante ou qualquer outro espírito limitado, distinguir.

Outra incompreensão diz respeito à comunhão eclesial. É sabido que o protestantismo simplesmente rejeita a noção de igreja enquanto comunhão real. Usará o termo comunhão em várias acepções, mas nenhuma que seja propriamente unitária, e por isso mesmo, real e universalmente válida.

Por desconhecer o sentido católico de comunhão, os grupos protestantes mantêm várias fórmulas de coesão, mais ou menos eficazes. Sem pretender fazer um levantamento das mesmas, se pode dizer que basicamente a unidade do grupo se sustenta nas noções de necessidade e realização humana. É dos vários tipos de necessidade e dos vários modos de ação do homem que resultará a multiplicidade de grupos protestantes, dos mais congregacionalistas e restritos aos mais amplos e hierarquizados.

O sentido de comunhão é bastante simples no catolicismo, ainda que profundo. Resumidamente se poderia dizer ao ex-protestante que se trata de uma comunhão na profissão da fé de sempre [recebida] que se expressa no culto comum e na obediência aos legítimos pastores.

Da junção de ambas as incompreensões mencionadas acima, alguns ex-protestantes consideram uma ofensa à fé e à unidade da Igreja qualquer crítica feita no interior da Igreja a bispos ou a grupos.

É preciso dizer que a Igreja Católica não pratica o “centralismo democrático”. Este autoritarismo é coisa de partidos de esquerda. Na Igreja Católica reina uma saudável e legítima liberdade, de tal maneira que o simples fiel pode lembrar certas verdades de fé a um bispo, e até ao Papa!

Não basta que alguém, na Igreja, seja bispo ou um grupo seja reconhecido para ganhar uma espécie de inimputabilidade. Há bispos dizendo e fazendo besteiras mundo afora e grupos, reconhecidos e louvados pelos papas (já que insistem), que persistem em certos erros graves. E não será em nome da unidade de fé e da comunhão na Igreja que haveremos de nos impor uma silente cumplicidade.

Por isso digo aos católicos que vieram do protestantismo e aos católicos que sem perceber se encaminham para ele: ser católico não é ser como aquele “cachorrinho” que enfeita painel de caminhão e balança a cabecinha conforme o mesmo se movimenta. Ser católico é ser obediente e livre, num daqueles paradoxos que somente a fé católica é capaz de harmonizar.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Artigo polêmico põe Dom Odilo na campanha em São Paulo


Saio do meu silêncio, digo, do silêncio a que submeti o blog para dar uma opinião “eclesialmente incorreta”: discordo de Dom Odilo e concordo juxta modum com o “pastor” e político dos Estúdios Universal e do PRB de São Paulo, Marcos Pereira.

O polêmico artigo de Pereira, intitulado Qual o futuro da educação no Brasil?, é uma peça confusa em que o autor passa de uma tese a outra, sem estabelecer adequadamente uma relação entre elas.

Penso que o dublê de político e pastor, que também tem diploma jurídico (o que em certa medida revela que a educação no Brasil não só carece de futuro como já manca no presente), errou no começo e acertou no fim. Erra onde mira e acerta onde não quer.

O alvo do pastor é a Igreja de Roma. Sua tese estapafúrdia é que os “poderosos de púrpura de Roma” controlam a educação no Brasil. Pretende, assim, atribuir a responsabilidade pelo “kit gay” do ministério da Educação à Igreja Católica.

Se mirou em Roma, errou flagrantemente. As posições da Igreja Católica são assaz conhecidas e, por isso, combatidas pela elite bem-pensante do Brasil e do mundo. As “púrpuras de Roma” não conseguem influenciar sequer as instituições de ensino mantidas pela Igreja Católica no Brasil. Qualquer pesquisador isento verá que se dá exatamente o contrário nas “pucs” e nos colégios de “freirinhas”: são as púrpuras do “PT”, partidos filiais, movimentos sociais e ONGs que detêm o controle das mentes dos alunos das instituições católicas no país.

Acertou, porém, onde certamente não pretendia. Há uma parcela do episcopado (não excluídos os purpurados) e do clero católico que, de fato, tem responsabilidade por esta e por outras políticas dos governos do PT. E, neste sentido, a “Católica” e a “Universal” se confraternizam. O bispo de São Carlos, por exemplo, e o bispo Edir Macedo celebram a mesma liturgia, o mesmo culto e pregam o mesmo evangelho.

Edir Macedo, patrão de Marcos Maia, é tão responsável pelas políticas do PT quanto Cláudio Hummes, para citar um purpurado. Mas este purpurado não é de Roma, embora lá tenha vivido e trabalhado por algum tempo.

Era previsível que Dom Odilo Scherer se pronunciasse em defesa da Igreja Católica. Vejo, porém, dois vícios na nota de repúdio do arcebispo.

O primeiro é a não admissão dos atos de seus predecessores. Quem em sã consciência poderia negar o papel de Arns e Hummes na gênese do PT e na sua ascensão ao poder? Estes purpurados, “brasileiríssimos”, vestem perfeitamente o figurino desenhado por Marcos Maia. Dom Odilo bem que poderia convocar os católicos a não repetir o erro do passado e dar um basta às pretensões do PT de dominar a capital do capital nacional.


Mas como faria isto, se a nota de repúdio servirá exatamente para fortalecer este mesmo partido com o qual a arquidiocese de São Paulo mantém relações estreitíssimas, se não mais no topo purpúreo, certamente no baixo clero? Eis o outro vício da nota de Dom Odilo: terá utilidade eleitoral para o PT e assim confirmará a tese do pastor, a qual pretendia repudiar.

Mais eu poderia escrever sobre o tema, mas me limito ao que vai acima para não ferir ainda mais certas sensibilidades.
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