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segunda-feira, 16 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
A anelada configuração canônica da Fraternidade São Pio X
Espera-se que dentro de algumas
horas se tenha uma solução canônica para os bispos e sacerdotes da Fraternidade
Sacerdotal São Pio X. As antecipações vão da manutenção do status quo à regularização sob a figura de uma Prelazia Pessoal.
Devo dizer que evolui muito na
compreensão da crise de fé por que passa a Igreja e, consequentemente, também
minha percepção da Fraternidade, de Dom Lefebvre, dos bispos e sacerdotes da
Fraternidade evoluiu. Dom Lefebvre e Dom Antônio foram providenciais para
chegarmos à demitização da "primavera" do pós-Concílio e, por que não?, do próprio Concílio
Vaticano II. O Papa Bento XVI, quando cardeal, já nos advertia para o perigo de
transformá-lo num super-concílio ou de idealizar o concílio, por meio de um seu
espírito.
As questões disputadas – a liberdade
religiosa da DH 2, a eclesiologia da LG 8, o ecumenismo UR 3, a colegialidade
da LG 22 – parecem irrelevantes aos que estão acostumados ao dissenso
generalizado de teólogos e mesmo de bispos. Mas a Fraternidade leva a Fé a
sério e, por isso, também é levada a sério pelo Papa.
Uns diriam: “Que bobagem! Deixem
de se importar com estas questiúnculas e, se for o caso, assinem o que tiver de
ser assinado e ensinem o que já vêm ensinando!”. Não o Papa e não para a Fraternidade.
Esta dissimulação não é compatível com o amor pela Verdade.
Credo Ecclesiam e, por isso, creio ser possível dar uma
interpretação católica para os pontos controversos. No limite, o Papa poderia
corrigir expressões ambíguas ou acrescentar esclarecimentos. Não foi o que fez
Paulo VI com famosa “nota prévia” sobre a colegialidade? Seria Paulo VI um
super-papa? Pôde fazer o que outros não poderiam? O Papa está acima do Concílio,
pode agir independente dele, mas sempre sujeito à Fé da Igreja. Os que pensam
diferente podem se tornar ortodoxos ou anglicanos.
Também creio que uma solução
canônica seja possível, mas não a julgo um valor absoluto. Se o Papa der as
garantias para que a Fraternidade siga com seu trabalho, tanto mais indispensável
quanto mais não se vê no horizonte o fim da crise, por que não confiar no Papa?
Será muito difícil, evidentemente, mas Deus levará a bom termo a obra iniciada.
Os bispos sobretudo saberão se valer dos limites impostos pelo Direito Canônico
e caberá ao Papa remover os obstáculos, como fizeram outros no passado em
relação às questões de jurisdição.
Aguardo ansioso pela regularização canônica da Fraternidade simplesmente
porque me parece absurdo estar “tecnicamente” em comunhão com certos bispos e
canonicamente impedido em relação aos da Fraternidade. Reitero, todavia, as
restrições que fiz a certos pronunciamentos de alguns deles e continuo a não os
considerar infalíveis. Talvez seja esta uma situação desconfortável, desagradar
a gregos e troianos, mas fazer o quê?, este sou eu!
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Missas "Neocatecumenais" na berlinda
Essa estranha missa que o papa não quer
É a missa segundo o rito do
Caminho Neocatecumenal. Bento XVI ordenou à Congregação para a Doutrina da Fé
que a examine a fundo. Sua condenação parece certa.
de
Sandro Magister
ROMA, 11 de abril de 2012 – Com uma
carta autógrafa ao Cardeal William J. Levada, Bento XVI ordenou à Congregação
para a Doutrina da Fé que examine se as missas neocatecumenais são ou não
conformes à doutrina e à praxe litúrgica da Igreja Católica.
Um “problema”, este, que o papa
julga “de grande urgência” para toda a Igreja.
Faz tempo que Bento XVI está
preocupado com as modalidades particulares com as que as comunidades do Caminho
Neocatecumenal celebram suas missas, no sábado à noite, em locais separados.
Sua preocupação aumentou também
devido à trama urdida nas suas costas na cúria no inverno passado, sobre a qual
informou www.chiesa nos seguintes artigos:
¿"Plácet" o "Non plácet"? La apuesta de Carmen y Kiko (13/01/2012)
Diario Vaticano / A los neocatecumanales el diploma. Pero no lo que esperaban (23/01/2012)
O que aconteceu é que o Pontifício Conselho para os Leigos, presidido pelo Cardeal Stanislaw Rylko, havia preparado o texto de um decreto de aprovação global de todas as celebrações litúrgicas e extralitúrgicas do Caminho Neocatecumenal, que deveria tornar-se público no dia 20 de janeiro por ocasião de um encontro previsto do papa com o Caminho.
O decreto havia sido redigido por
indicação da Congregação para o Culto Divino, presidida pelo Cardeal Antonio
Cañizares Llovera. Os fundadores e líderes do Caminho, Francisco
"Kiko" Argüello e Carmen Hernández, foram informados a respeito dele
e anteciparam felizes a seus seguidores a sua iminente aprovação.
Tudo sem o conhecimento do papa.
Bento XVI veio a conhecer o texto
do decreto poucos dias antes do encontro de 20 de janeiro. Julgou-o desconexo e
equivocado. Ordenou que fosse anulado e reescrito segundo suas indicações.
De fato, em 20 de janeiro, o
decreto que se tornou público se limitou a aprovar as cerimônias
extralitúrgicas que marcam as etapas catequéticas do Caminho.
O papa em seu discurso destacou
que apenas estas haviam sido autorizadas, enquanto que acerca da missa deu aos
neocatecumenais uma verdadeira e própria lição – quase um ultimato – sobre como
celebrá-la em plena fidelidade às normas litúrgicas e em efetiva comunhão com a
Igreja.
Nestes mesmos dias, Bento XVI
recebeu em audiência o arcebispo de Berlim, Rainer Maria Woelki, homem de sua
confiança, ao que em breve faria cardeal. Woelki lhe falou, entre outras
coisas, precisamente das dificuldades que os neocatecumenais criavam em sua
diocese, com suas missas separadas de sábado à noite, oficiadas por uma
trintena de seus sacerdotes.
O papa pediu a Woelki que lhe
fizesse uma exposição escrita sobre este tema. Em 31 de janeiro, Woelki
enviou-lhe uma carta com informações mais detalhadas.
Dias mais tarde, em 11 de fevereiro,
o papa enviou uma cópia desta carta à Congregação para a Doutrina da Fé, junto
a seu pedido de examinar a questão o quanto antes, que “não diz respeito somente
à arquidiocese de Berlim”.
Segundo as indicações do papa, a
comissão de exame presidida pela Congregação para a Doutrina da Fé devia ter a
colaboração de outros dois dicastérios vaticanos: a Congregação para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos e o Pontifício Conselho para os Leigos.
E assim se deu. Em 26 de março,
no Palácio do Santo Ofício, sob a presidência do secretário da Congregação para
a Doutrina da Fé, o arcebispo Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, jesuíta, reuniram-se
para um primeiro exame da questão os secretários dos outros dois dicastérios –
o arcebispo Dom Augustine J. Di Noia, dominicano, para o Culto Divino e o bispo
Dom Josef Clemens, para os leigos – e os quatro peritos designados por eles. Um
quinto perito, ausente, Dom Cassiano Folsom, prior do Mosteiro de São Bento em
Núrsia, enviou sua opinião por escrito.
Os juízos expressos sobre as
missas dos neocatecumenais foram todos críticos. Muito severo também foi o
juízo que a mesma Congregação para a Doutrina da Fé havia pedido, antes da
reunião, ao teólogo e cardeal Karl J. Becker, jesuíta, professor emérito da
Pontifícia Universidade Gregoriana e consultor do dicastério.
O dossiê predisposto para a
reunião pela Congregação para a Doutrina da Fé incluía a carta do papa de 11 de
fevereiro, a carta do Cardeal Woelki ao papa no original em alemão e na versão
inglesa, o parecer do Cardeal Becker e um guia para a discussão n qual se punha
em dúvida de forma explícita a conformidade à doutrina e à praxe litúrgica da
Igreja Católica do art. 13 § 2 do estatuto dos neocatecumenais, aquele com que
eles justificam suas missas separadas de sábado à noite.
Na realidade, o perigo temido por
Bento XVI e muitos outros bispos – como resulta das numerosas denúncias
chegadas ao Vaticano – é que as modalidades particulares com que as comunidades
neocatecumenais de todo o mundo celebram suas missas introduzam de fato na
liturgia latina um novo “rito”, composto de forma artificial pelos fundadores
do Caminho, estranho à tradição litúrgica, cheio de ambiguidades doutrinais e
fator de divisão na comunidade dos fiéis.
O papa confiou à comissão por ele
desejada a tarefa de averiguar o fundamento destes temores, em vista das
consequentes decisões.
Os juízos elaborados pela
comissão serão examinados numa próxima reunião plenária da Congregação para a
Doutrina da Fé, uma quarta-feira – “feria quarta” – da segunda metade de abril.
Acrescento
algumas observações minhas:
- O texto se limita às questões litúrgicas do Caminho Neocatecumenal. Há evidentemente inúmeros valores no Caminho Neocatecumenal que o Papa quer ver preservados e promovidos. Uma crítica negativa pontual não significa uma crítica negativa global. Alguns adeptos do Caminho parecem não compreender isto.
- A situação litúrgica geral, no Brasil sobretudo, não é muito melhor e isto não se deve ao Caminho Neocatecumenal, aliás pouco presente nestas bandas. Aqui os abusos se devem aos adeptos da “teologia” da libertação e da RCC.
- Os abusos litúrgicos daqui – como as missas de Dom Antônio Figueiredo e Pe. Marcelo Rossi transmitidas para todo o Brasil pela Rede Globo – bem piores que os dos neocatecumenais, parecem não incomodar as autoridades romanas e ao Santo Padre, inexplicavelmente.
Fonte: Chiesa Espresso
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sábado, 7 de abril de 2012
Semana Santa na Canção Nova
Nunca escondi meu apreço pelo
Mons. Jonas Abib. Conheci-o em 1992, quando não existia TV Canção Nova e eu,
jovem seminarista, participei de um encontro de jovens com ele em Jacarepaguá.
Na ocasião almoçamos juntos e conversamos sobre Dom Bosco – ele é salesiano, eu
fui aluno e sempre devoto do grande Santo.
Também não escondo minhas
discordâncias da RCC, em geral, e da Canção Nova, em particular. Mas o objeto
do post de hoje é a excelente melhora
da liturgia praticada na Semana Santa e exibida pela TV Canção Nova. Não costumo
assistir ao canal e, por isso, tomo as imagens que vi no Salvem
a Liturgia, precedidas dos comentários do caro Dr. Rafael Brodbeck.
Espero sinceramente que não se restrinjam à Semana Santa. Se a TV Canção Nova mantiver a qualidade das celebrações, a reforma da reforma pega pra valer no Brasil. Em questão de tempo, não haverá quem detenha a nova geração de padres e seminaristas na recuperação da identidade católica.
Basta de protestantismo na doutrina, na liturgia e na música!
“(...) Temos em conta que, na melhor das intenções, a Canção Nova nem
sempre foi um exemplo de liturgia. Muitos aspectos negativos cercaram a histórica
celebração de Missas e outros atos litúrgicos na TV Canção Nova, nos
acampamentos etc, o que acabou influenciando negativamente várias Missas Brasil
afora. (...)
As fotos abaixo falam muito do que estamos tentando dizer, entretanto
podemos, desde já, ressaltar alguns pontos positivos: arranjo beneditino dos castiçais e cruz no altar, paramentos
romanos (que foram emprestados pelo Pe. Demétrio Gomes, membro do Salvem a
Liturgia) - os góticos são lícitos e muito belos também, mas como havia um
certo rancor no Brasil contra os romanos, é bom que a CN os use -, distribuição da Sagrada Comunhão de joelhos,
uso de batina e sobrepeliz dos acólitos, introdução
de cantos em latim e outros como prescreve o Missal para o Tríduo, introdução do silêncio, mais sobriedade no ambiente, desnudação dos
altares, velamento das imagens, pluvial na procissão de Ramos, uso de um coro."
Morre o Patriarca Emérito dos Sírios, Cardeal Daoud
Faceceu às 8h da manhã deste Sábado
Santo o Cardeal-Patriarca Ignace Daoud. Vivia em Roma, onde entregou a alma a
Deus aos 81 anos.
O Santo Padre enviou o telegrama
abaixo ao Patriarca de Antioquia dos Sírios:
A Sua Beatitude Ignace Youssif III Younan
Patriarca de Antioquia dos Sírios
Beirute
Vindo a saber com pesar do
falecimento de Sua Beatitude o Cardeal Ignace Moussa I Daoud, Patriarca Emérito
de Antioquia dos Sírios e Prefeito Emérito da Congregação das Igrejas
Orientais, desejo exprimir-vos minha união na oração com vossa Igreja
patriarcal, com a família do defunto e todas as pessoas enlutadas. Nestes dias
em que celebramos a Ressurreição do Senhor, lembrando-me das pessoas da região
que vivem momentos difíceis, peço-Lhe que acolha na sua alegria e na sua paz a
alma deste pastor fiel que se devotou com fé e generosidade ao serviço do povo
de Deus. Como sinal de conforto, eu vos concedo de coração, Beatitude, e aos
fiéis do Patriarcado de Antioquia dos Sírios, aos membros da família do defunto
e a todos as pessoas que participarão da liturgia fúnebre com esperança.
BENTO XVI
BENTO XVI
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quinta-feira, 5 de abril de 2012
O "impulso desesperado" de Dom Paulo Sérgio Machado
Li no Frates in unum um artigo estarrecedor
da lavra do bispo diocesano de São Carlos-SP; estarrecedor pelo manifesto “analfabetismo
religioso” de quem deveria ser mestre. Com alguns comentários meus, reproduzo-o
abaixo.
“Não consigo entender como, em pleno século XXI, existam pessoas que querem
a volta da Missa em latim [O bispo é desonesto ao
omitir que o latim jamais deixou de ser a língua litúrgica da Igreja
Romana. Em sua crítica se inclua o Papa Bento XVI, que celebrou em latim no
México recentemente e provavelmente o fará no Rio em 2013.], com
o padre celebrando “de costas para o povo” [vindo de um
bispo, a expressão poderia soar como legítima, mas revela a mais fundamental
ignorância do que seja a oração cristã), usando os pesados paramentos
“romanos”. Estamos celebrando, neste ano, os cinqüenta anos da abertura do
Concílio Vaticano II, quando já
sentimos a necessidade da realização de um Vaticano III e
encontramos gente que quer retornar ao passado. E, o que é mais
preocupante, são pessoas que
freqüentaram a universidade, que entraram na universidade, mas a universidade
não entrou neles. Penso que é hora de os nossos cientistas inventarem um aparelho para “abrir
cabeças”. O “desconfiômetro” já está ultrapassado, mesmo porque estas
pessoas não desconfiam que estão “fora de linha”, “fora de época”. Querem, a
todo custo, a volta ao passado. Vivem de milagres e aparições, de devoções e
pieguismo já, felizmente, ultrapassados [De que seita
este senhor é bispo? Alguma vez já leu os Evangelhos?]
Imaginemos um padre celebrando em
latim numa capelinha rural. “Dominus vobiscum”. “Et cum spiritu tuo”.O nosso povo simples vai pensar que o padre
está maluco ou, pelo menos, que o está xingando [O
mesmo artifício do Iscariotes, que não falava porque se preocupava com o povo,
mas porque era ladrão. Mas o que pensaria o povo de um bispo que despreza os
milagres, as aparições, as devoções? Maluco? É pouco, muito pouco! Demos a
palavra ao povo e se ouvirão sonoros palavrões, que nesta circunstância deixariam de ser
pecado.]. Lembro-me de meu tempo de criança, quando a missa era
em latim. As senhoras piedosas, não entendendo nada, rezavam o terço. Não tenho
nada contra o terço - aliás eu rezo o rosário todos os dias [isto é verdade de fé, ou posso duvidar disto como vossa inselençia duvida dos milagres?]
- mas terço é reza, não é celebração.
Só falta defenderem a volta às famosas “mantilhas” que cobriam as cabeças
das mulheres. E eu pergunto: por
que não a dos homens? [pergunte ao apóstolo
São Paulo, ora bolas]. Seria até bonito ver os homens de “mantilhas
rendadas”. Difícil seria encontrar quem as quisesse usar. A não ser alguns “cabeças de vento” que
andam por aí querendo ensinar o pai nosso ao vigário [Atenção, gente do povo, não pretenda ensinar a reza do Pai Nosso ao inselentíçimo bispo de São Carlos].
Mas, persiste a pergunta, o que
está por detrás disso? Um saudosismo? Penso que não. É mais do que isso: é um desejo mórbido, um
medo do novo. Uma aversão à
mudança. É o que poderíamos chamar de – para usar uma expressão francesa
– um “laissez faire, laissez passer”, um “deixa estar para ver como é que
fica”. É uma tentativa de manter o “status quo”, mesmo que esse “status quo”
beneficie a uma meia dúzia. E os outros é que se danem.
Para esses puritanos o inferno está cheio de gente; quando na
verdade, cheio está o céu, porque Deus quer salvação de todos [Então quer dizer que o inselente
bispo teve uma visão do inferno? Curioso, pensei que não acreditasse em
aparições! Bem, talvez só não creia nas de Nossa Senhora]. E não apenas
de uma minoria moralista que vê
pecado em tudo e para quem o capeta é mais poderoso do que Deus [Que asqueroso!]. “Rasgai os vossos corações e
não as vossas vestes”, diz o profeta. Gente que se preocupa em lavar os copos,
as taças, e não as mentes e os corações [não o reconheço
como juiz dos corações, meu senhor]. É a velha posição dos fariseus – que ainda hoje são muitos – a que criticavam Jesus por curar no dia de
sábado. Lembro-me da história de uma pessoa que, ouvindo a notícia de que o
João havia assassinado Pedro na sexta feira santa [sic!],
disse: “por que ele não deixou para matar no sábado?” Para esta pessoa o dia
era o mais importante.
Termino citando dois pensamentos
que fazem pensar: “O passado é uma lição para se meditar, não para se
reproduzir” (Mário de Andrade – autor de Macunaíma); “Leve do altar do passado
o fogo, não as cinzas” (Jean Jures – líder socialista francês).
Um
coerente the end para o infeliz
artigo. Da fé sobrenatural à fé natural; da fé nos Evangelhos à fé em Macunaíma;
da fé em Jesus Cristo à fé em Karl Marx; da fé na redenção cristã à fé na
revolução socialista.
O que o
bispo deixa subentendido no texto, revela-o no final.
A verdadeira renovação eclesial
Homilia do Papa Bento XVI
Missa Crismal – 05/04/2012
Amados irmãos e irmãs!
Nesta Santa Missa, o nosso
pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da
oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos
«consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na
sua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é,
entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista
d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade
da nossa vida? Somos homens que actuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus
Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele.
«Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele,
renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de
Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação
Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente
a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma
união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para
isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é
exclusivamente nosso, à tão falada auto-realização. É-nos pedido que não
reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem:
de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar
a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve
realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá.
Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de
sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também
exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar
até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão
relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo
II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do
Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será
a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos
autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move,
quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das
Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a
Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a
desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o
pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso
desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os
nossos desejos e as nossas ideias?
Mas o problema não é assim tão
simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam
sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar
novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre
válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência,
contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a
singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de
Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos
gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria
obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se
faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua
humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.
Deixemo-nos interpelar por mais
uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se
defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do
período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que
frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que
tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a
acção eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem
dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma
nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da
obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.
Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração a
Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de
Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e grande para podermos ousar tomar
as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens
de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo,
São Paulo resolutamente diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a
Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo,
que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de
toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus
em figuras históricas vivas. Nós,
sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à
nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e
Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e
Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney,
até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João
Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na
configuração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona
a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus
não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as
suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.
Queridos amigos, queria ainda,
brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas
sacerdotais, que deveriam induzir-nos a reflectir nesta hora da Igreja e da
nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como
se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4,
1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o munus docendi, que
constitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde
Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro
dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se
na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio
desta nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no
passado toda e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para
se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e,
consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir correctamente, devemos saber
aquilo que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados
pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do
Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a
mensagem da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua forma
fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que
não leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto, porém, todos
sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de
modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em
primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II
e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos
essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita
a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal auxílio todo o
tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe
de ser cabalmente explorado.
Todo o nosso anúncio se deve
confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões
privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não
deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu
ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à
mente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu
próprio? E no entanto que há de menos meu do que o sou eu mesmo? Não me
pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me
ultrapassar a mim próprio e é através da superação de mim próprio que consigo
inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós
mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para
sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos,
então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas
dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, um
intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele
mesmo fora tocado no coração.
A última palavra-chave, a que
ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma
expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o
termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se –
exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem.
Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas
isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo
que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte
terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem
inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades físicas: com os famintos,
os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas
também com as necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido à
violação do direito ou por um amor desfeito; com as pessoas que, relativamente
à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de
amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto
sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter
a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente,
mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se
pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual
testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor
que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com
jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amen.
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