Entrevista concedida pelo Pe. Mauro Galiardi, consultor da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao blog “Salvem a Liturgia”.
[Os negritos são meus]
O senhor já o conhecia? Que
pensa ser o mais importante num trabalho como o nosso de resgatar os valores
litúrgicos?
Eu não conhecia anteriormente o
vosso blog, mas penso que os blogues possuem um indubitável valor no contexto
atual. É necessário, como em todos os outros meios de comunicação social,
utilizá-lo com responsabilidade. Se usado deste modo pode dar frutos abundantes
para a Igreja. No caso específico de um blog sobre liturgia posso dizer que o
que mais importa neste momento é informar os leitores com precisão. A
informação hoje é abundante, mas geralmente imprecisa e em certos casos refletem
a influência de varias ideologias. Um blog sobre liturgia deveria hoje informar
os leitores de modo sintético, mas também criterioso sobre os conteúdos gerais
da ciência litúrgica, e em particular o movimento que vive atualmente a
Igreja, o ponto vital do Culto Divino.
O senhor acredita que este tipo de apostolado virtual em defesa da liturgia repercute realmente entre os fiéis? E entre os Sacerdotes e Bispos?
Eu sou convicto que os blogues
são muito seguidos também entre os sacerdotes e bispos e não somente entre os
fiéis leigos. Sem dúvida pode haver repercussões reais. Por isto é importante
que sejam geridos com responsabilidade, para que informem e não deformem, e
sobretudo que tenham um grande amor à Igreja! Não se trata de prevalecer uma
certa visão, mas de sustentar o caminho da Igreja, naquilo que compete a nós;
Como alcançar mais pessoas? Despertando-os para um maior amor à liturgia bem celebrada em conformidade com as rubricas, respeitando a tradição do rito romano?
Sou do parecer que não devemos
nos preocupar de alcançar mais pessoas e que o celebrar de modo correto não é
em vista disto, de um maior “sucesso”. É necessário celebrar segundo o rito
previsto pela Igreja porque isto é justo em si, porque este é o modo no qual a
Mãe Igreja nos ensina a dar culto a Deus. Penso que depois o Senhor poderá
premiar esta fidelidade despertando nos fiéis um maior amor à liturgia. Nós
devemos procurar antes de tudo o Reino de Deus e a sua justiça e o restante nos
será dado em acréscimo. Celebramos bem
porque Deus o merece, porque a Igreja nos manda, porque é justo fazer
assim e é errado fazer diversamente, não porque nós esperamos uma contrapartida. Mas penso que, se somos fiéis, essa virá
igualmente.
O memorável Papa, Beato João
Paulo II na sua Encíclica “Ecclesia
de Eucharistia” falou de sombras no
modo em qual se celebra a Missa. Como
interpretar esta frase?
João Paulo II falou sobre este
assunto também em outros textos. No que se refere às “sombras” o significado é
evidente: os abusos litúrgicos.
Como se portar diante de bispos, sacerdotes e leigos que mesmo depois do “Summorum
Pontificum” insistem em não consentir que grupos que grupos que
desejam tenham acesso à liturgia segundo os livros de 1962?
Não vejo como os leigos poderiam
impedir a celebração segundo o Missal de 1962. No que resguarda aos ministros
ordenados: se for sacerdotes, se recorra ao Ordinário Diocesano. Nos casos nos
quais pelo contrário é este último que impõe obstáculos seja ao Motu Proprio
“Summorum Pontificum” ou à Instrução “Universiae Ecclesiae” estabeleceram
que se pode recorrer à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei quando não se é
possível resolver as controvérsias, de modo amigável e ao mesmo tempo justo, em
nível local.
O senhor tem escutado que a
distância estética, teológica e espiritual entra a forma ordinária e a
extraordinária do Rito Romano é inferior à forma ordinária bem celebrada
(segundo as rubricas) e à mal celebrada (com a manipulação e os abusos que
cometem). Isto é verdade?
Este é um argumente sobre o qual
é difícil pronunciar-se de modo adequado em uma simples entrevista, porque se
corre o risco de imprecisões e de juízos sintéticos. Deste modo, limito-me a
recordar que o Santo Padre deseja uma recíproca influência entra as duas formas
do Rito Romano. Isto parece sugerir que há qualquer coisa entre ambos que podem
ser aperfeiçoados e o desejo é realmente este.
Para combater os abusos que
alguns fazem na Missa somente a promoção do rito tradicional é suficiente? Em
outras palavras a causa do problema é o “novo rito” em si?
Não se pode dizer com uma
sentença lapidar que o novo Missal é a causa do fenômeno dos abusos litúrgicos.
Este fenômeno depende de diversos fatores entre os quais está a crise de autoridade
e de obediência verificada na sociedade a partir dos anos cinqüenta do século
passado radicalizada na segunda metade dos anos sessenta e que certamente se
investiu também na Igreja, se bem que em medida menor que na sociedade.
É verdade, porém, que o novo
Missal, de qualquer modo, deixou abertas as portas para uma certa criatividade
como disse o então Cardeal Ratzinger em uma conferência há alguns anos.
O Missal mais antigo de fato,
prescreve exatamente aquilo que o celebrante deve fazer em cada momento da
celebração. Isto existe também no novo Missal, porém usa geralmente uma formula
do tipo: “o sacerdote com estas palavras ou outras similares...” ou
ainda: “o sacerdote diz: ou: ... ou: ...”. Depois as
Conferências Episcopais acrescentaram nas tradições em línguas nacionais outros
elementos variáveis. Tudo isto, em certo modo, faz emergir a idéia que se pode
dizer isso ou aquilo, que se pode fazer assim ou de outro modo. E das formas
previstas muito facilmente se passa a outras, inventadas pelo próprio
celebrante ou por qualquer outro grupo litúrgico. Talvez, para contrastar com o
fenômeno dos abusos litúrgicos não seja suficiente somente restituir em uso
mais amplo o Missal antigo, mas de certo modo é uma grande contribuição. Celebrando com este Missal o sacerdote
aprende de novo que o rito não está à sua disposição, que ele o recebe da
Igreja. O sacerdote redescobre o seu papel de ministro, isto é de servo e não
de gestor do Culto Divino.
Como responder àqueles
que querem promover a Missa Antiga, mas que fazem em base a um ódio à Missa
nova?
A resposta se encontra seja no
Motu Proprio “Summorum Pontificum” quer na Instrução “Universiae Ecclesiae”.
Não se trata de criar contraposições, mas de favorecer a reconciliação na
Igreja. Bento XVI escreveu que não se pode seguir princípios contrários à
celebração com o novo Missal. É por demais absurdo falar de ódio pela nova
forma de celebração da Missa: como pode odiar a Missa? Significaria de qualquer
modo odiar o sacrifício de Cristo renovado sobre o Altar! Compreendo que se
pode preferir uma à outra forma, mas o Católico não pode odiar à Missa, quando
esta é verdadeiramente Missa. A forma de Celebração aprovada por Paulo VI é
certamente válida, então nenhum católico pode odiá-la.
No Brasil é muito comum o uso
pelos fiéis dos “folhetos” com o próprio o ordinário em vez do Missal dos
fiéis, estes folhetos são repletos de comentários não apropriados e algumas
vezes inadequados. Como o senhor vê isso? O que seria melhor para incentivar a
publicação e o uso do Missal dos fiéis para um contato maior com a liturgia
também em casa?
Também na Itália o uso dos
Missais dos fiéis é quase inexistente, pelo menos no formato de livro – e são
muito freqüentes os folhetos da Missa. Também
na Itália geralmente os textos são acompanhados por comentários discutíveis.
Escutei várias vezes comentários negativos da parte dos fiéis a esse respeito. Algumas vezes também as orações dos fiéis
são compostas de posicionamentos bem individuais e em certos casos se referem a
acontecimentos políticos da atualidade, o que escandaliza alguns, porque se
utilizam da oração como meio para convencer os fiéis à certas idéias.
Ultimamente tenho percebido que diversas editoras dos folhetos começaram a não
imprimir mais o Credo Niceno-Constantinopolitano e sim o Credo conhecido como
“dos Apóstolos”, não somente na Quaresma, mas sempre. Talvez fazem assim para uma
maior brevidade, mas bastaria pregar dois minutos menos, ou melhor dar um aviso
a menos, para ter todo o tempo necessário para se rezar o Credo mais longo,
mais completo do ponto de vista doutrinal. Finalmente, seria belo se incentivar
os fiéis a adquirir o missal, possivelmente bilíngüe (latim e língua nacional).
Também no caso do Brasil, como o senhor percebe as intervenções do povo
durante a Oração Eucarística? Não existem absolutamente precedências na
tradição romana e ainda mais não existem em nenhum outro país?
Não estudei bem o caso do Brasil
e, portanto não posso me pronunciar com precisão. Porém, é verdade que a um
primeiro olhar parece algo de singular, sobre isto seria melhor voltar a fazer
uma reflexão, a começar pela Conferência Episcopal Brasileira.
No Brasil ainda não foi
terminada a tradução da Terça Edição Típica do Missal Romano. O senhor acredita
que Roma pedirá que esta tradução seja mais fiel ao Latim? Expressões como “Ele
está no meio de nós”, como resposta ao “O Senhor esteja convosco” poderá ser substituída
por “E com o teu espírito”? Como também o “sacrifício meu e vosso” no Orate Fratres, que no Brasil se
tornou “o nosso Sacrifício” reduzindo a diferença essencial entre o sacerdócio
hierárquico e o sacerdócio dos fiéis?
Eu não me sinto capaz
de responder a estas questões em detalhe. A única coisa que posso dizer agora é que,
graças à Instrução "Liturgiam authenticam" de
2001, que tem o desejo de que as traduções em línguas
nacionais sejam mais fiéis ao texto latino da "editio typica". O
novo missal em Inglês é de fato melhor do que o anterior
quanto à tradução, assim, conseqüentemente, o norte-americano. Eu
poderia dar outros exemplos. Portanto, em geral, a
tendência é exigir mais do que nunca, no que diz respeito as
traduções.
No passado, os
tradutores que trabalharam para preparar
os missais em língua nacional, muitas vezes se basearam
no princípio de que, ao invés de traduzir os textos, era
necessário interpretá-los. A interpretação foi feita, como
é óbvio, a partir de um ângulo particular, muitas
vezes correspondendo a uma teologia caracterizada
por opções precisas. Isso
não deve acontecer de novo hoje: é preciso traduzir e não
trair os textos .Esta é precisamente a arte do bom
tradutor. Devemos permitir que o texto expresse o que elas
significam, e não acrescentar neles o nosso pensamento.
Sobre a comunhão de joelhos e
diretamente na boca, o que o senhor pode dizer? Algumas pessoas começam a
render-se conta que esta é a posição mais sagrada e mais tradicional e que
devia ser restaurada. O que o senhor pensa sobre esta recuperação na forma de
receber a sagrada comunhão conceder uma maior sacralidade à Celebração da Santa
Missa?
Tenho repetidamente expressado em diversos escritos a minha crença que a melhor maneira
de distribuir e receber a Sagrada Comunhão é aquela em
que o sacerdote coloca a hóstia diretamente na
boca dos fiéis, que estão de joelhos. Por outro lado,
além dos muitos argumentos que podem ser invocados, e dos textos
que se podem ser citados basta-nos recordar o exemplo que nos dá
o Santo Padre Bento XVI, que, a partir do "Corpus
Domini" de 2008, distribui a Comunhão somente desta
maneira. Ele explicou, no livro entrevista "Luz do Mundo"
que com esta escolha ele queria colocar um ponto de exclamação sobre
a presença real de Cristo na hóstia consagrada. E de fato é
urgente hoje bater mais sobre este importantíssimo ponto da nossa
fé. A recepção da Comunhão na boca enquanto está ajoelhado não é
a única coisa a fazer, isso é claro. Mas eu estou convencido
que ajuda muitíssimo. Não é
preciso dizer tantas palavras, os fiéis que são ensinados que só
assim se pode comungar, serão levados a entender que o que
ele recebe não é um alimento qualquer. Um alimento qualquer se come sentado
ou em pé, mas a Eucaristia não, porque devemos adorá-la antes
de comê-la, como São Paulo e Santo Agostinho ensinou, assim como
muitos outros santos Padres e Doutores. Um alimento qualquer eu mesmo
o porto a minha boca, mas este, pelo contrário, eu o recebo diretamente da
Igreja... Mas é claro que para fazer
isso teria que ser revisto o atual regime de indulto quase geral que permite de
receber a Comunhão também na mão.
E
quando um sacerdote ou um ministro nega a comunhão diretamente na boca e de
joelhos o que podemos fazer?
Eu sempre recomendo as intervenções graduais. A primeira
coisa é tentar dizer ao padre o seu erro, chamando-o de
lado e falando com grande respeito e amor. Então mostra-se
os textos magisteriais que afirmam o direito de os fiéis
a receber a comunhão desta forma, se assim o desejarem (por exemplo a
Instrução “Redemptionis Sacramentum). Não
é uma concessão do sacerdote: é um direito dos fiéis. Se o sacerdote
permanece surdo a estas exortações, se pode recorrer ao Bispo, o qual deverá
providenciar uma solução. Em casos extremos, se pode recorrer aos competentes
dicastérios da Santa Sé, mas em geral, não deveria ser necessário chegar a este
nível. Em todas as fases é necessário agir com verdadeira caridade e paciência,
com amor pela Igreja e não somente para uma conquista do ponto de vista
humano, Todavia, fazer valer um próprio direito não é contrário à
caridade, não se viola com isto o preceito do amor evangélico. Tudo aconteça,
porém, com respeito amor e compreesão e não por um simples espírito de luta.
E sobre a orientação “versus Deum” na forma Ordinária?
É possível que na Missa no rito moderno esta forma seja também aplicada como um
bem?
Como foi resultado também de uma
resposta oficial da Congregação para o Culto Divino, é certamente possível
celebrar a Missa de Paulo VI também sobre um altar fixado junto à parede, que
não permitem a celebração “versus populum”. Se pode ainda usar um altar
separado da parede e celebrar como se diz vulgarmente e com grave falta de
exatidão, “de costas ao povo”. Celebrar “versus Dominum” não é nunca
algo ilícito, qualquer sacerdote pode fazê-lo sempre, em qualquer tipo de altar
que tenha à disposição.
Qual a importância do latim nas celebrações litúrgicas? E o canto gregoriano?
Sou convicto que o latim ajuda
muito. Em dois dos meus livros, sustentei a opinião que a Liturgia da Palavra
deveria ser de norma em língua nacional e que nas outras partes da Missa
deveria ser bem mais generoso o uso do latim. Em particular, durante a Liturgia
Eucarística e, sobretudo, na Oração Eucarística. O latim não torna uma
celebração mais válida que uma em língua nacional, mas ajuda sacerdote e fiéis
a perceber que durante a Missa não estamos simplesmente desenvolvendo uma
atividade quotidiana qualquer. Faz-nos entender de modo prático que estamos em
contato com o Céu. Além disso, o latim é a língua oficial da Igreja Católica,
então a língua de todos os fiéis católicos.
Geralmente se celebra Missas
internacionais nas quais se usam duas, três, quatro ou mais línguas, para
resultar que os fiéis compreendam ao menos uma parte da Missa. Não seria melhor
que os fiéis fossem capazes de compreender as partes do Ordinário da Missa em
latim e também de responder? Isto ajudaria muito na participação ativa deles
nestas ocasiões. Sobretudo, daria um sentido vivo da catolicidade da Igreja; um
fiel se vai a New York, Roma, ou Tóquio pode encontrar a mesma Missa, celebrada
com as mesmas palavras escutadas do sacerdote na sua pátria, então se sente em
qualquer lugar como em sua casa: encontrou os seus irmãos na fé também em
terras estrangeiras. É estrangeiro, porém encontrou a sua família. Eis a
catolicidade concreta. O mesmo vale para o canto gregoriano, o qual se
recomenda também por uma outra característica, que deve ser a regra para todos
os cantos de uso na liturgia: isto é, no
gregoriano o texto é muito mais importante que a melodia. O cântico de
adapta ao texto e não as palavras à música; Isto é muito importante, por isso
os documentos magisteriais, antes, durante e depois o Vaticano II, sempre recomendaram
o latim e o canto gregoriano.
O que o senhor pode nos dizer
sobre a centralidade do Sacrário no presbitério?
O caso das Igrejas Catedrais deve
ser tratado à parte, coisa que aqui não podemos fazer. Nas outras igrejas,
porém, como no caso das paróquias, eu vejo muito bem a presença do Sacrário no
centro. A Igreja é certamente casa do Povo de Deus, mas antes disto é casa de
Deus. Se nós acreditamos verdadeiramente
na Presença Real, não compreendo como se pode dizer a Deus, o Dono da casa que
está no Tabernáculo: se coloque de lado, porque o Senhor atrapalha as
celebrações! Para mim isto é incompreensível. Muitos dizem que o sacrário
não pode mais estar ao centro porque se celebra “de frente para o povo” e então
por reverência se deve evitar que o sacerdote quando celebra lhe dê as costas.
Mas podemos perguntar:
Porque não se providenciou qualquer arranjo arquitetônico, como se fez
construindo os novos altares? Poder-se-ia por exemplo ter elevado o Sacrário a
um lugar mais alto, mesmo deixando ao centro, de modo que, também quando
celebra, o sacerdote não lhe dê as costas. Ou ainda, se pode colocar o
tabernáculo à direito ou a esquerda dos novos altares, por exemplo sobre uma
coluna, mas deixando bem visível sobre o presbitério. E esta segunda opção em
diversos casos foi a escolhida. Parece-me um compromisso aceitável.
Ao contrário não me parece muito bem, colocar fora o tabernáculo em uma
capela lateral, e em casos mais extremos, até mesmo fora da Igreja (uma vez
na França vi que colocavam o Santíssimo Sacramento em um armário da sacristia,
provavelmente porque assim se fazia em certos lugares no Século IX!) Se é
também sustentada geralmente a idéia que o sacrário não pode estar onde está o
altar, porque não teria sentido celebrar a Missa e produzir a Presença Real,
quando esta Presença estaria já ali durante toda a Missa.
Esta tese não somente contradiz
um ensinamento de Pio XII que falava da inseparabilidade entre o tabernáculo e
o altar, mas sobretudo não leva em conta o fato de que certamente a Missa
produz a Presença Real, mas é também o Sacrifício de Cristo! Também se durante
a Missa tem já a Presença Real no tabernáculo, não tem porém a atuação do
Sacrifício sacramental, que coincide com a celebração da Eucaristia. Então
mantém todo o seu sentido celebrar a Missa também na presença do Sacrário. Em conclusão, penso que o pensamente que
rege a escolha de retirar os sacrários do presbitério seja um pensamento litúrgico
reduzido, prá dizer o menos.
No Rito Romano existem as
chamadas “danças litúrgicas”? E as palmas como acompanhamento rítmico nas
canções, como alguns membros da renovação carismática católica fazem, pertence
à tradição litúrgica romana e podem ser utilizadas na Missa?
A tradição litúrgica não prevê a dança. Em alguns países, por exemplo
a África, se permite os “movimentos”, que são gestos diferentes de uma
verdadeira e própria dança. Nas normas
litúrgicas atuais não são previstas as palmas, seja o aplauso de aprovação ou
rítmico. É possível admitir em momentos de oração extra-litúrgicos, se
verdadeiramente é necessário, porem não na liturgia.
Não seria considerado um abuso
da parte de alguns clérigos e leigos, o fato do “uso ordinário” de ministros
que são justamente chamados “extraordinários” da Comunhão? Qual a posição que a
Congregação da qual o senhor é membro têm sobre este argumento?
As disposições para o
participação dos ministros extraordinários dizem claramente que esses não podem substituir os ministros
ordinários, se estes são em número suficiente e hábeis a distribuir a santa
comunhão. Em poucas palavras: o sacerdote não pode sentar-se e deixar que
apenas os ministros extraordinários distribuam a comunhão. Esses devem servir
de ajuda ao sacerdote em caso de verdadeira necessidade e não substituírem o
sacerdote. É necessário entender o momento que é realmente necessária esta
ajuda. Se na Igreja participam mil pessoas que querem comungar, provavelmente é
necessária, mas se são apenas trezentos? Sobre este ponto, as normas não entram
em detalhes.
As mulheres brasileiras em
alguns lugares retornaram o uso do véu, não apenas na Missa no Rito Romano
Extraordinário, mas também na missa segundo o Novo Rito. Como o senhor
ver este movimento? V. Reverendíssima recomenda o uso do véu por parte das
mulheres na Missa Católica e nos atos de piedade?
O uso do véu é tão antigo quanto
à Igreja, dado que se encontra mencionado em uma carta de São Paulo Apóstolo.
Pessoalmente digo que não vejo como um elemento de grande importância. Porém,
já que se encontra nas Sagras Escrituras, talvez fosse prudente permanecer o
uso. É certo o fato que ele não causa problemas, ao contrário, pode ser
edificante. Pode ajudar às mulheres, por algumas vezes tentadas pela vaidade
mais que os homens, a cultivarem a virtude da modéstia. E pode ajudar aos
homens, por muitas vezes tentados mais que as mulheres de não se distraírem
durante os sagrados ritos, recordando que pelo menos durante a liturgia devem
volver os corações apenas para Deus.
Porém, o uso do véu é proibido?
É permitido ou aprovado? Permanece obrigatório?
Não conheço disposições precisas
sobre esta matéria.
Se uma mulher que faz uso do
véu, mas é envergonhada por ser a única na paróquia, que conselho V. Reverência
daria?
No recente livro-entrevista “Luz
do Mundo”, Bento XVI fala do véu das mulheres: não aquele das mulheres
católicas, mas sim da burca islâmica. Ele diz que se as mulheres muçulmanas são
constrangidas ao uso, isso não é justo, mas se livremente estas decidem endossá-lo,
não se tem motivos para impedir. “Mutatis mutandis”, aplicarei o mesmo princípio
ao véu das nossas mulheres católicas: se uma mulher quer usá-lo
espontaneamente, quem pode impedir? Se a mulher de que o senhor fala tem o
desejo de usar o véu, será por uma razão. Qual problema poderia existir?
O senhor acredita que existe um
verdadeiro e próprio “novo movimento litúrgico”? Que coisa se pode fazer em
prática para promovê-lo?
Não sei se já temos um novo
movimento litúrgico, porém penso que já está sendo construído. O Cardeal
Ratzinger no início do seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia” desejou o
nascimento deste. Penso que para promovê-lo necessita antes de tudo crescer no
amor a Deus, a Cristo, à Igreja e ao Santo Padre. Não pode ser apenas uma nova
questão ideológica, para contrapor outras ideologias. Necessita estudar muito e
rezar muito. Necessita pedir a Deus o espírito de discernimento e de
equilíbrio. Depois se deve trabalhar, seja com os escritos, com a catequese em
todas as suas formas, com grande amor pela glória de Deus e pela salvação das
almas. A única razão válida para reformar a liturgia da Igreja é para fazer de
uma forma que essa dê mais glórias a Deus e ajude melhor as almas a
salvarem-se. Qualquer outra razão, sem ser estas, é ideologia, tanto de direita
como de esquerda.
Fonte: Salvem
a Liturgia







