No próximo dia 24 de novembro, o Santo Padre criará seis
novos cardeais para a Santa Igreja Romana. Apresentou inopinadamente seus nomes
ao final da audiência pública desta quarta-feira, a um mês exato do
consistório. São eles: James Harvey, Béchara Raï, Baselios Thottunkal, John
Onaiyekan, Jesús Salazar e Luis Antonio Tagle.
O Pontífice surpreendeu não somente pela realização de um
segundo consistório num mesmo ano (o último foi celebrado em 18 de fevereiro),
como também pela exclusão de uns e inclusão de outros, desmentindo as listas
que já circulavam nos círculos especializados.
Depois do anúncio já se deu bastante destaque ao fato de não
haver italianos ou mesmo europeus entre os futuros purpurados.
É um costume bastante estabelecido que o Patriarca de Veneza
seja criado cardeal no primeiro consistório seguinte à sua nomeação – é tão
certa a criação que o novo patriarca já toma posse da Sé de São Marcos em
trajes cardinalícios. Bento XVI inovou e deixou de fora o Patriarca Moraglia.
Também ficou de fora o seu conacional e prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Gerhard Müller. Como prefeito do
principal dicastério da Cúria Romana, sua não inclusão é de fato surpreendente.
Os “cardinalistas” – uma especialização entre os vaticanistas – punham-no no
topo de suas listas.
Bento XVI, criando apenas 6 cardeais, se ateve ao teto
estabelecido pela legislação. No dia 23 de novembro, o Cardeal Renato Martino
completa 80 anos e o número dos cardeais eleitores cai para 114. No dia seguinte,
com a criação dos novos cardeais o Colégio volta a contar com 120 eleitores.
Apenas 14 dias depois é a vez do Cardeal Eusébio Scheid completar 80 anos e,
assim, o número dos eleitores cai novamente para 119.
No que tange à precedência entre os cardeais, embora ainda
não tenha sido oficialmente formulada, já se pode prever: a inclusão de Béchara
Raï entre os cardeais-bispos, na condição de patriarca oriental; Baselios
Thottunkal, John Onaiyekan, Jesús Salazar e Luis Antonio Tagle entre os
cardeais-presbíteros, já que são arcebispos residenciais; e, entre os
cardeais-diáconos, somente John Michael Harvey. Este último, entretanto, está
no topo da lista para que, passados 10 anos, ao optar pela ordem dos presbíteros,
preceda aos demais cardeais-presbíteros criados neste mesmo consistório.
Neste consistório não há sequer um cardeal honorífico, ou
seja, todos têm menos de 80 anos e são, portanto, cardeais eleitores. Entre
eles, inclusive, os dois mais jovens cardeais do colégio: Thottunkal e Tagle,
de 53 e 55 anos respectivamente.
Há um norteamericano (Harvey), um latinoamericano (Salazar
Gómez), um africano (Onaiyekan), um indiano (Thottunkal), um libanês (Raï) e um
filipino (Tagle). Dois são de rito oriental (Raï, maronita, e Thottunkal,
malancar).
Harvey, cuja nomeação para Arcipreste de São Paulo fora dos
Muros foi antecipada pelo Papa, é o atual Prefeito da Casa Pontifícia há quase
15 anos. Trabalhava anteriormente na Secretaria de Estado. Desempenhará,
portanto, seu primeiro ofício propriamente pastoral na cura da Basílica Papal.
Com a criação de Harvey, o número dos cardeais estadunidenses chega a 19, sendo
11 eleitores. O anúncio da nomeação de Harvey é, necessariamente, o da renúncia
do Cardeal Francesco Monterisi aos 78 anos. O arcipreste “emérito” não ficará à
toa, pois hoje mesmo foi nomeado membro da Congregação para os Bispos.
Béchara Raï figurava em todas as listas. Embora ainda viva
seu predecessor, Cardeal Sfeir, Raï é o patriarca da mais importante das
igrejas orientais sui juris, a
Maronita, e desempenha um papel crucial no Líbano, em particular, e no Oriente
Médio, em geral. Ao incluir Raï, o Papa deixou de fora o Patriarca dos Melquitas,
Gregorios Laham, que parecia ter a vez no sistema de alternância entre os
patriarcas orientais. De toda forma, Laham já tem mais de 78 anos e poderá ser
incluído, a título honorífico, entre os cardeais não votantes em futuros
consistórios.
Sem dúvida o nome mais inesperado é o do arcebispo-maior dos
Malancares. A Malancar é uma pequena Igreja oriental sui juris com pouco mais de 500 mil fiéis na Índia. Alguns poucos
milhares se acham na diáspora, sobretudo nos EUA. Só recentemente tornou-se um
Arcebispado-Maior, o que na prática a equipara a um patriarcado. Seu
Arcebispo-Maior, chamado Catholicós na tradição persa, será o primeiro cardeal
malancar. O curioso é que Baselios Thottunkal será o segundo cardeal indiano
criado em 2012; em fevereiro foi criado cardeal o Arcebispo-Maior dos Malabares,
George Alencherry, também ele oriental. Com a criação de Thottunkal, os dois
chefes das igrejas de São Tomé, Malabar e Malancar, estão no Colégio Cardinalício.
Outro detalhe digno de nota é que as quatro Arquidioceses Maiores sui juris – as duas indianas já citadas,
a Ucraniana e a Romena – estão representadas no Colégio Cardinalício.
Salazar Gómez é o único latinoamericano da lista. É
arcebispo de Bogotá, primaz da Colômbia, desde julho de 2010, sucedendo ao
cardeal Pedro Rubiano Sáenz que completou 80 anos em setembro último. Havia
três outros postos cardinalícios a serem ocupados no continente americano, dois
na América Central e um no México. O Papa deu preferência à América do Sul. Em
breve, Rio e Salvador vão engrossar a lista dos postos vacantes no continente
americano.
A situação africana é mais delicada. Dada sua condição de
evangelização recente, a África não tem postos cardinalícios propriamente
ditos. Espera-se que no futuro ou Luanda (Angola), ou Douala (Camarões), ou Abdijan
(Costa do Marfim), ou Antananarivo (Madagascar), ou Maputo (Moçambique), ou
Kampala (Uganda) venham a ter novamente algum cardeal. O Papa preferiu dar um
terceiro cardeal à Nigéria, contra todas as previsões. No dia 1º de novembro, porém, o Cardeal Arinze
completa 80 anos e, assim, no momento da criação, Onaiyekan será o segundo
cardeal nigeriano eleitor.
Outro nome previsível era o do arcebispo de Manila nas Filipinas.
O país asiático é o de maior número de cristãos no continente; como o minúsculo
Timor Leste, tem maioria católica entre os seus habitantes. Com cerca de 70
milhões de fiéis, as Filipinas são o quarto maior contingente católico do
mundo, ficando atrás apenas de Brasil, México e Estados Unidos. Não obstante
tais credenciais, as Filipinas estavam sem cardeais eleitores desde agosto.
Luis Antonio Tagle será o terceiro cardeal, juntamente com Vidal e Rosales, mas
o único votante. Incluindo-o, Bento XVI deixa de fora o também jovem arcebispo
de Cebu, Serofia Palma, que poderá ser incluído num futuro consistório.
Três dos seis futuros cardeais são do oriente. Do médio,
Raï, e do Extremo, Thottunkal e Tagle. Ausências notáveis são o Arcebispo de
Seul (Coreia), o de Tóquio (Japão), o de Karachi (Paquistão) e o de Bangkok
(Tailândia). Não é possível, todavia, criar todos os cardeais numa só fornada
sem ultrapassar o limite autoimposto de 120 cardeais eleitores.
É bastante provável que o Papa faça em 2013 outro
consistório, em que terá a chance de criar mais uma dezena de cardeais, entre
os quais estarão um ou dois brasileiros, Orani Tempesta do Rio e Murilo Krieger
de Salvador. Estará, assim, inaugurando o ano da Fé com um consistório pequeno
e concluindo, com outro maior.
4 comentários:
Padre sua benção
É necessário que todo ano o Papa realize o consistório?
Boa noite!
Não sou especialista, mas sou um interessado e venho pesquisando (por enquanto não com fins acadêmicos) as Igrejas Orientais Católicas.
Gostaria só de fazer um comentário a respeito do que foi dito a respeito da recepção do Patriarca dos Melquitas no colégios dos cardeiais:
é pouco provável que isso ocorra um dia, pois a Igreja Greco-Melquita e a Armênia são as mais resistentes à nomeação de patriarcas orientais ao cardinalato, pois para eles o título de patriarca é superior ao de cardeal (engraçado que para os maronitas, o título é aparentemente muito bem vindo e uma honra para o patriarca).
A Igreja Melquita até hoje só teve um cardeal até hoje, que foi o patriarca Maximos IV Saigh, que ainda recebeu o barrete muito contra a sua vontade.
Já com os armênios é mais difícil de entender a atual resistência, pois o primeiro cardeal de uma Igreja oriental foi justamente dos armênios, Antoine-Pierre IX Hassun, ainda no século XIX. E eles tiveram um outro patriarca-cardeal, Grégoire-Pierre XV Agagianian, que chegou a ser considerado papabile no conclave de 1958.
Louvada seja a IGREJA, que através do magistério do santo padre, sucessor de Pedro, a rocha(Pedra), se mostra em pleno século XXI universal, e com isto abrindo espaço para que a IGREJA se manifeste de foma verdadeiramente universal e não Italiana. Quiza não seja uma indiferença do Santíssimo Espirito sobre o nosso papa Bento
No meu comentário postado em 21 de dezembro cometi um erro de português que não esclarece o que quis disser, o correto é:
Quem sabe não seja uma interferência do Santíssimo Espírito sobre o nosso Papa Bento XVI, a fim de iluminar a Igreja e mostrar a sua universalidade.
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