"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Arcebispo pretende vender paço episcopal

Philly.com antecipa a notícia, que se tornará pública dentro de poucos dias, de que o novo arcebispo de Philadelphia, Dom Charles Chaput, decidiu vender a residência episcopal e se mudar para uma casa mais modesta. O mesmo Dom Chaput havia se desfeito da residência episcopal de Denver e passado a viver no seminário diocesano.

A razão apresentada pelo arcebispo para se desfazer do patrimônio é que a arquidiocese de Philadelphia deverá vender edifícios paroquiais e escolas no futuro próximo e que, neste caso, manter o palácio “baronal” causaria ainda mais dissabor aos fiéis.

Compreendo as razões do arcebispo, afinal, qual bispo gostaria de fechar paróquias e escolas edificadas pelos antepassados com tanto sacrifício? Por outro lado, como não se perguntar a razão de se ter chegado a tal estado de coisas? As paróquias e escolas foram construídas e mantidas em tempos bem mais difíceis e numa época em que os católicos eram uma minoria insignificante no cenário americano.

Há também um aspecto simbólico na decisão do bispo, uma vez que o valor apurado com a venda não resolverá os problemas financeiros da arquidiocese. Tal decisão servirá somente para diminuir um patrimônio, também ele símbolo dos anos de glória dos fundadores do catolicismo no país.

Outra questão emergente é o crescente peso das despesas com “burocracia” eclesial nas dioceses americanas, muitas delas verdadeiras “agências” pastorais, com estrutura e funcionários mantidos com os alegados “parcos” recursos.

Não estou aqui discutindo a situação particular da Philadelphia, que desconheço, mas a questão em si. Vejam alguns exemplos da situação brasileira, bem menos confortável financeiramente do que a americana, para ilustrar a questão.

O Cardeal Arns, então arcebispo de São Paulo, vendeu o antigo palácio episcopal alegando que os recursos supervenientes seriam usados para atender às necessidades pastorais da arquidiocese – e suponho que o foram de fato. Pergunto-me: não teria hoje a arquidiocese de São Paulo outras necessidades pastorais a atender? E não tem de satisfazê-las sem abrir mão de mais patrimônio? E se hoje pode encontrar outras fontes de recursos, como não poderia tê-las encontrado antes?

O arcebispo do Rio na mesma época, Cardeal Eugênio Salles, e os seus sucessores não se desfizeram nem do Palácio São Joaquim – residência oficial do arcebispo – nem da residência do Sumaré, onde vive atualmente Dom Eugênio. Ora, a arquidiocese do Rio tinha e tem as mesmas necessidades pastorais de São Paulo e procura os recursos para atendê-las agora, como procurava à época. Não somente não vendeu o patrimônio, como construiu naquele tempo o Edifício João Paulo II que atende a uma gama variada de atividades apostólicas e abriga a cúria metropolitana.


Aqui mesmo em Campos, Dom Roberto Guimarães se viu diante da necessidade de se desfazer do Colégio Eucarístico diocesano. Eram tantas as dívidas, inclusive com os professores, e tal a perda de credibilidade do antigo colégio, que a venda parecia um imperativo. Dom Roberto se mostrou irredutível e confiou o colégio a um padre competente que, não somente liquidou as dívidas, como reconquistou a credibilidade do colégio. Imaginem se tivesse vendido o simples paço episcopal para resolver mais facilmente um problema emergencial?


Sem pretender polemizar a questão, parece-me em tese uma solução que se levada ao extremo não deixaria “pedra sobre pedra” e mereceria um juízo impiedoso das gerações futuras. 


6 comentários:

Anônimo disse...

O senhor não acha que o bispo deve mesmo viver uma vida mais modesta?

OBLATVS disse...

A questão não é a vida austera do bispo. Poderá vivê-la numa mansão, ou esbanjando numa casa modesta.

Se ele quer viver numa casa modesta, é absolutamente livre para fazê-lo. Mas não pode simplesmente desfazer-se de um patrimônio - sobretudo histórico - que, na maioria das vezes, não foi ele próprio quem constituiu.

Que vire um museu diocesano, uma casa de retiros, casa de repouso para padres anciãos, etc. Sempre haverá uma utilidade eclesial para ele, no presente ou no futuro.

Há muita demagogia nestas questões e, ao menos os bens comuns deveriam estar a salvo de tais gestos midiáticos. Para isto existem os bens particulares.

Pe. Clécio

Anônimo disse...

Mas se a função da Igreja, segundo mandamentos de DEUS, é humildade e amar ao próximo, porque a igrejas não ajudam mais a quem realmente precisa? Se hoje, uma pessoa pedir a ajuda de alguns padres, ou para uma cirurgia, ou para um remédio, eles falam que não podem ajudar porque se abrir mão para um, terá que abrir para todos.Onde está a vivência do mandamneto de amar ao próximo? A igreja vive muito preocupada com seus bens...
Qual sua opinião sobre isso padre?

OBLATVS disse...

Anônimo,

Vamos esclarecer alguns pontos: a FUNÇÃO da Igreja não é a "humildade" e "amar o próximo".

A humildade é a mais fundamental das virtudes e o amor ao próximo é o segundo mandamento. Tais coisas são essenciais à fé cristã e cada cristão deverá crescer na prática de ambas.

A função específica da Igreja, entretanto, é levar as pessoas a Deus. Ela não é uma ONG ou qualquer agência caritativa, embora cumpra tais funções não específicas mais que qualquer outra instiuição não-governamental.

Outra questão diz respeito à caridade pessoal do sacerdote. Como todo cristão ele deve praticá-la, exatamente como você. Você a pratica? Afirmar que os padres não socorrem os pobres em necessidades emergenciais é uma afirmação assaz injusta. Com quantos padres você convive proximamente?

Mas o padre deverá dar do que é seu, e não da Igreja, pois os bens dela não lhe pertencem.

Quanto à afirmação de que a Igreja vive muito preocupada com seus bens, é preciso distinguir. A Igreja tem o direito de possuir bens, desde que os tenha adquirido honesta e legalmente. Onde iríamos parar numa sociedade que não respeitasse a propriedade privada - ninguém estaria a salvo, nem você. O pecado de muitos é cobiçar as coisas alheias e muitas vezes encobertam tal cobiça "em nome dos pobres". A Igreja deve mesmo se preocupar com seus bens, sobretudo, quando há pessoas na sociedade que querem privá-la dos meios materiais com os quais cumpre sua missão.

Se a Igreja não tivesse seus bens, quem arcaria com a obra que ela realiza? A Dilma? Você pretende voltar ao regime do padroado, com o Estado financiando a religião? Ou seria você a manter as obras de apostolado, evangelização e até mesmo as de caridade espalhadas pelo mundo?

Reflita bem antes de repetir clichês irracionais. Outros antes de você, bem menos recomendáveis, pretenderam extirpar a religião em benefício dos "explorados". O que introduziram, na verdade, foi um regime de terror com milhões de vítimas.

Pe. Clécio

Anônimo disse...

Uma pequena prova da caridade da Igreja para com necessitados:

http://www.padremarcelotenorio.com/2012/01/caridade-do-papa-nas-situacoes-de.html

Cleber Lourenço

Alex disse...

Pe. Clécio, eu acabo de ler este artigo sobre o Arcebispo Charles Chaput.

Fr. Dwight Longenecker Compares St John Neumann and Archbishop Charles Chaput

http://www.catholic.org/national/national_story.php?id=44309

Ele é comparado com Saint John Neumann! O que o senhor acha?

Embora eu o admire, me pareceu excessivamente retórica essa comparação!

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