"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

terça-feira, 29 de março de 2011

Ucranianos querem um patriarcado para chamar de seu!

Já me disseram que o blog anda muito oriental, mas não tenho culpa se, hoje, as coisas mais interessantes estão acontecendo naquele lado do mundo, talvez mudem amanhã...

Dou-lhes então mais uma nota sobre a Igreja Católica Ucraniana e seu novo Arcebispo-Maior, extraída da edição de hoje do Kyiv Post.

Segundo o portal ucraniano, o novo primaz quer a ereção de um Patriarcado católico na Ucrânia, onde já há duas jurisdições ortodoxas em conflito.

S.B. Sviatoslav Schevchuk (foto) está de malas prontas para Roma. Seguem com ele os metropolitas e alguns bispos do Sínodo de sua igreja para uma visita de cortesia a Bento XVI.

Afirmou ao Kyiv Post que eles têm uma série de propostas a fazer e entre elas a criação do Patriarcado. "De fato nós vamos falar sobre como nossa igreja está se desenvolvendo e que toda igreja já desenvolvida se torna um patriarcado, porque o patriarcado é um ponto na finalização do desenvolvimento de uma igreja", disse.

Os ortodoxos russos não veem com bons olhos este "desenvolvimento". Consideram a Ucrânia seu território canônico e tacham de "proselitismo" qualquer iniciativa evangelizadora, pastoral e educativa dos católicos. Até o momento a Santa Sé tem evitado criar mais um contencioso com os ortodoxos, e a criação de um patriarcado católico na Ucrânia só jogaria mais lenha no fogo já excessivamente alto das relações entre as Igrejas. Por isso, a decisão do Papa não será jamais precipitada.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana, submetida ao Patriarcado de Moscou, sofreu um cisma depois da independência da Ucrânia. O Metropolita Filaret, então locum tenens do Patriarcado de Moscou, declarou a autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana e criou um patriarcado próprio, com apoio do governo nacionalista ucraniano. A maioria dos bispos não o seguiu, permanecendo fiéis ao Patriarcado de Moscou, sob a liderança de um Metropolita.

Sei que minha opinião pouco vale, e justamente por isso posso dá-la sem causar problemas àqueles que devem tomar a decisão. Sou muito favorável à criação do Patriarcado Ucraniano. Estamos num ponto muito distante da reunião da Igreja Ortodoxa Russa e demais Igrejas Ortodoxas com a Igreja Católica e, sendo assim, penso ser uma ingerência escandalosa a pressão dos russos para que não se crie um patriarcado católico na Ucrânia. No dia, só conhecido por Deus, em que os ortodoxos voltarem à comunhão universal aí se resolve o problema da duplicidade de jurisdições. Até lá que cada um siga com seu trabalho, do qual prestará contas ao Senhor.

Ainda um outro ponto a considerar: os ortodoxos perdem seu precioso tempo preocupados com o proselitismo católico, enquanto deviam abrir os olhos para o avanço das seitas protestantes, estas sim capazes de subverter a fé católica e ortodoxa dos ucranianos.

sábado, 26 de março de 2011

Primaz da Igreja Católica Siro-Malancar fala ao L'Osservatore Romano

Entrevista com o Arcebispo-maior dos Siro-Malancares

por Nicola Gori


A sua presença na Índia remonta aos tempos da pregação do apóstolo São Tomé. Estão perfeitamente inseridos na sociedade, ainda que não faltem situações de conflito. São uma espécie de ponte entre a Igreja Católica e as Igrejas orientais não católicas, além de ser um laboratório quotidiano de diálogo inter-religioso. São os católicos de rito católico siro-malancar, cujos bispos estão nestes dias em Roma para a visita ad limina. Quem a conduz é o arcebispo-maior Baselios Cleemis Thottunkal, a quem fizemos algumas perguntas.

Qual é a peculiaridade espiritual e litúrgica de vossa Igreja?

A nossa é uma Igreja maior arquiepiscopal em comunhão com o Papa. É uma Igreja apostólica fundada por São Tomé. Em 1653 esta comunidade dividiu-se em duas: malancares e malabares. Foi uma questão de patrimônio litúrgico e de autonomia. um grupo, o malancar, lutou por autonomia e pela tutela autêntica de sua tradição litúrgica. Infelizmente, no curso de tal processo, perdeu a comunhão com a Igreja Católica. Todavia, nos anos Trinta do século passado, sob a égide do arcebispo Mar Ivanios, une-se novamente à Sé de Roma. Em 11 de junho de 1932, o Papa Ratti [Pio XI] estabeleceu a hierarquia católica siro-malancar na Índia por meio do decreto Christo Pastorum Principi. Reconhecendo depois a maturidade alcançada pela comunidade malancar, João Paulo II, em 2005 elevou-a ao status de Igreja arquiepiscopal maior. A nossa liturgia remonta a de São Tiago de Jerusalém. Temos um apreço muito especial pelo modo de pensar oriental, e me particular indiano, segundo o qual Deus é um ser supremo e,na sua misericórdia, nos criou a sua imagem e semelhança como seu povo. E tal via espiritual, litúrgica, eclesial e toda nossa tradição litúrgica insistem sobre o fato de ser preciso estar em comunhão com todas as Igrejas.

Os fundamentalistas hindus acusam a Igreja de conversões forçadas. O que se deve fazer para mudar esta impressão?

A Igreja na Índia encontra-se no contexto de uma sociedade pluralista do ponto de vista cultural, linguístico e econômico. Devemos considerar o pluralismo como realidade séria que se reflete na vida quotidiana. Os hinduístas são os mais generosos e hospitaleiros. Não é uma ideia pessoal minha. É justamente a tradição, a história da Índia. Os hinduístas sempre apreciam a bondade dos outros. Os primeiros cristãos na Índia foram hinduístas e apreciaram muito o Evangelho. Aprenderam do apóstolo São Tomé. Participo pessoalmente de algumas das mais importantes cerimônias hinduístas. Como em todas as comunidades religiosas, também na hinduísta, há diversas opiniões e qualquer pequeno grupo fundamentalista. Sem a hospitalidade e sem a compreensão da imensa maioria dos hinduístas como teria podido sobreviver a comunidade cristã na Índia, dado que representa somente 2,5% da população? Estes grupos fundamentalistas pensam que nós desejamos afastar os hinduístas de sua religião e consideram que a conversão não seja possível. A conversão, entretanto, é possível em toda parte porque escolher é um direito fundamental de toda pessoa humana. Jesus cristo é nosso guia. Não constrangemos ninguém. Estamos apenas difundindo a boa nova. Se alguém se sente atraído, ninguém pode impedi-lo. É um direito fundamental do homem. Não há espaço para conversões forçadas, que atraem as pessoas com o dinheiro ou com a promessa de oportunidades de vida. Todas estas são modalidades humanas de atração, mas não estão na linha do Evangelho. Jesus nos diz: ide e anunciai. E nós não deixaremos jamais de fazê-lo de modo evangélico, com orações e apostolado, instituições educativas e serviços de saúde. Logo, a questão das conversões forçadas estão fora de lugar.

As relações com os hinduístas e muçulmanos são marcadas pela cordialidade ou por uma certa tensão?

No Kerala, temos uma boa relação com os hinduístas e com os muçulmanos. Tivemos muitos encontros. Sou também convidado como hóspede oficial às celebrações mais importantes de ambos. Da nossa parte, nós os convidamos durante as solenidades pascais. Encontrando-me na capital de Kerala, às vezes organizo encontros inter-religiosos. Sei que existem tensões, mas estes encontros são de grande ajuda. Muitos indianos consideram o cristianismo uma religião estrangeira. Como se responde a esta afirmação? Penso que isto se deva à ignorância. Não somos estrangeiros, somos indianos. Nascemos na Índia, trabalhamos e morremos como indianos, exatamente como os nossos antepassados. Além do mais, o cristianismo na Índia é tão antigo quanto o próprio cristianismo. Antes mesmo que o Evangelho fosse pregado nalguns países europeus, a Índia já havia recebido de São Tomé o Evangelho. Isto é um fato histórico.

Qual é o empenho da Igreja no que diz respeito aos "dalit", isto é, os sem casta convertidos ao cristianismo?

A Igreja na Índia tem muitas responsabilidades não apenas pela vida eclesial e espiritual, mas também pelas exigências dos fiéis nas suas várias dimensões. Há pessoas com dificuldades econômicas que precisam ser inseridas na sociedade, dando-lhes oportunidades. Mas temos pessoas que não veem seus direitos respeitados exatamente porque se converteram ao cristianismo. É uma atitude discriminatória. Se uma pessoa goza da liberdade de escolher a própria religião, sendo a Índia um país laico, como se pode depois negar que estas pessoas convertidas sejam tratadas como o conacionais de outras religiões? A Igreja está procurando, na medida do possível, que se estenda aos cristãos a mesma posição dos outros. É um trabalho difícil. Para inserir estas pessoas na sociedade devemos emancipá-las através da instrução e por outros meios, a fim de que possam alcançar um nível mínimo de dignidade e participar da vida política e social do país. Estamos procurando pressionar o Governo para garantir-lhes justiça.

As relações ecumênicas e o anseio de unidade da Igreja é a missão específica das comunidades orientais católicas?

As nossas Igrejas são consideradas construtoras de pontes entre a Igreja de Roma e as igrejas não católicas. A Igreja siro-malancar é conhecida em particular como ponte entre as Igrejas Ortodoxas e a Igreja Católica. Por isto o nosso apostolado foi recebido seja por católicos seja por não católicos. Isto somos chamados a viver, manifestar e testemunhar.

Fonte: L'Osservatore Romano, 25 de março de 2011
Tradução: OBLATVS

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bento XVI receberá Arcebispo ortodoxo de Chipre

VISITA AO SANTO PADRE DE SUA BEATITUDE CHRYSOSTOMOS II, ARCEBISPO DE NOVA JUSTINIANA E TODO CHIPRE
No dia 28 de março, Sua Santidade o Papa Bento XVI receberá em audiência Sua Beatitude Chrysostomos II, Arcebispo de Nova Justiniana e todo Chipre, Primaz da Igreja Ortodoxa de Chipre.
Sua Beatitude Chrysostomos II já tinha vindo em visita ao Santo Padre e à Igreja de Roma de 12 a 19 de junho de 2007. O Papa Bento XVI e o Arcebispo Chrysostomos II depois se reencontraram em diversas ocasiões durante a viagem apostólica do Santo Padre a Chipre de 4 a 6 de junho de 2010.
Na ocasião de sua permanência em Roma, Sua Beatitude Chrysostomos II se encontrará também com Sua Eminência o Cardeal Secretário de Estado Tarcisio Bertone.
O Arcebispo e o seu séquito terão colóquios com o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Antes de sua partida de Roma, que ocorrerá em 30 de março, o Arcebispo Chrysostomos encontrará o Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da congregação para as Igrejas Orientais, o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, e o Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso.
Fonte: Santa Sé
Tradução: OBLATVS

Papa confirma eleição do novo Arcebispo-Maior dos Ucranianos


CONFIRMAÇÃO DA ELEIÇÃO DO ARCEBISPO-MAIOR DE KYIV-HALYČ (UCRÂNIA)
O Santo Padre concedeu a confirmação que lhe foi pedida em conformidade ao cânon 153 do CCEO por S. Exª Sviatoslav Schevchuk, que em 23 de março de 2011 foi eleito canonicamente Arcebispo-Maior de Kyiv-Halyč no Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana, reunido em Lviv (Ucrânia).
Sua Beatitude Sviatoslav Schevchuk nasceu em 5 de maio de 1970 em Styj na região de Lviv.
Foi ordenado sacerdote em 26 de junho de 1994. Obteve a láurea em Teologia Moral na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino em Roma (1999).
Desempenhou vários encargos, entre os quais: Prefeito do Seminário "do Espírito Santo" de Lviv (1999-2000); Vice-decano da Faculdade de Teologia da Academia de Teologia de Lviv (2001); Vice-Reitor do Seminário "do Espírito Santo" em Lviv (2000-2007) e, em seguida, Reitor do mesmo Seminário (2007).
Em 14 de janeiro de 2009, o Santo Padre nomeou-o Bispo titular de Castra de Galba e Auxiliar da Eparquia de Santa Maria do Patrocínio em Buenos Aires (Argentina). Em 7 de abril de 2009, recebeu a ordenação episcopal.
Em 10 de maio de 2010 foi nomeado Administrador Apostólico sede vacante da Eparquia de Santa Maria do Patrocínio em Buenos Aires (Argentina).
Fonte: Santa Sé
Tradução: OBLATVS

Papa concede "Comunhão Eclesiástica" ao novo Patriarca dos Maronitas


O Santo Padre concedeu a Ecclesiastica Communio que lhe foi solicitada em conformidade com o cânon 76 § 2 do CCEO por Sua Beatitude Béchara Boutros Raï, canonicamente eleito Patriarca de Antioquia dos Maronitas em 15 de março de 2011 no Sínodo dos Bispos da Igreja Maronita reunido em Bkerké (Líbano).

CARTA DO SANTO PADRE PELA QUAL CONCEDE A COMUNHÃO ECLESIÁSTICA A SUA BEATITUDE BÉCHARA BOUTROS RAÏ, NOVO PATRIARCA DE ANTIOQUIA DOS MARONITAS.
A Sua Beatitude Béchara Boutros Raï
Patriarca de Antioquia dos Maronitas

A eleição de Vossa Beatitude à Sé Patriarcal de Antioquia dos Maronitas é um evento muito especial para a Igreja inteira e eu recebo sua solicitação de Comunhão Eclesiástica com uma grande alegria. Toda a Igreja, particularmente a Igreja Maronita, rende graças à Trindade Santa pelo dom que foi concedido a Vossa Beatitude.

Eu lhe dirijo minhas mais fraternas e cordiais felicitações. Minha fervorosa oração se eleva a Cristo, Nosso Senhor e Nosso Deus, para que Ele o acompanhe no desempenho desta nova missão.

De coração, venerável Irmão, eu lhe concedo a Comunhão Eclesiástica, de acordo com a Tradição e as determinações da Igreja Católica. É motivo de orgulho para sua Igreja estar ligada desde as origens ao Sucessor de Pedro. Pedro foi chamado por Jesus a fim de manter na unidade, na verdade e no amor a Sua Única Igreja. Conforme uma bela e antiga tradição, o nome de Pedro é acrescentado ao prenome do Patriarca.

Estou certo, Beatitude, de que com o bom conselho de seu Predecessor, S. B. Emª o Cardeal Nasrallah Pierre Sfeir, e a colaboração dos Padres de seu Sínodo Patriarcal, em comunhão com o Colégio Episcopal e sobretudo com a força de Cristo, Vencedor do mal e da morte por Sua Ressurreição, o senhor terá todo o ardor, iluminado pela sabedoria e temperado pela prudência, para guiar a Igreja Maronita. Adornada da glória de São Maron e do cortejo dos Santos libaneses, São Charbel, São Nimatullah, Santa Rafqa e do Beato Estéphan, ela poderá ir ao encontro de seu Esposo, nosso Salvador.

Possa o Senhor assisti-lo no seu ministério de "Pai e Chefe" para proclamar a palavra que salva, a fim de que ela seja vivida e celebrada com piedade segundo as antigas tradições espirituais e litúrgicas da Igreja Maronita! Que todos os fiéis que lhe são confiados encontrem consolação na paternal solicitude de Vossa Beatitude!

Possa a Santa Mãe de Deus, Nossa Senhora do Líbano, a Virgem da Anunciação da qual Vossa Beatitude traz o nome de Batismo, fazer do senhor um mensageiro de unidade a fim de que a Nação Libanesa - graças igualmente à contribuição de todas as comunidades religiosas presentes em seu país, e com ímpeto ecumênico e inter-religioso - desempenhar no Oriente e no mundo inteiro seu papel de solidariedade e de paz.

Eu o saúdo, Beatitude, "com um ósculo de caridade" (1Pd 5,14) no Senhor Jesus, Pastor bom e eterno, e assegurando-lhes minha oração por toda a Igreja confiada a seus cuidados, Eu concedo a Vossa Beatitude e a todos, bispos, padres, religiosos, religiosas e fiéis a mais abundante Bênção Apostólica.

Vaticano, 24 de março de 2011
BENEDICTUS XVI

PEDIDO AO SANTO PADRE DE COMUNHÃO ECLESIÁSTICA DA PARTE DO NOVO PATRIARCA DE ANTIOQUIA DOS MARONITAS.

Beatíssimo Pai,

Eu tenho a honra de levar ao conhecimento de Vossa Santidade que o Sínodo dos Bispos da Igreja Patriarcal Maronita reuniu-se de 9 a 15 de março do corrente ano. Ele dedicou primeiramente dois dias a um retiro espiritual onde invocamos as luzes do Espírito Santo. Em seguida o Sínodo procedeu à eleição de um novo Patriarca, e a escolha dos Bispos recaiu sobre minha pessoa para suceder a Sua Beatitude Eminentíssima Mar Nasrallah-Pierre Cardeal Sfeir como Patriarca de Antioquia e de todo o Oriente para os Maronitas.

Rendendo graças ao Senhor por esta eleição que se desenrolou numa atmosfera de serenidade e de caridade fraterna, eu venho, pela presente, renovar a expressão de minha fidelidade à fé católica, de minha adesão à Santa Sé e à pessoa de Vossa Santidade, e solicitar a concessão da comunhão eclesiástica, bem como Vossa Bênção Apostólica sobre nossa Igreja Patriarcal Maronita, hierarquia e fiéis.

Fonte: Santa Sé
Tradução: OBLATVS

A vitalidade da Igreja Católica Siro-Malancar

Em 20 de setembro de 1930, dois bispos, um padre, um diácono e um leigo (foto) fizeram sua profissão de fé e ingressaram na Igreja Católica. Saídos das fileiras da Igreja ortodoxa da Índia, àquela altura dividida em várias facções, foram recebidos pelo Papa Pio XI, o qual, através da Constituição Apostólica Christo Pastorum Principi, instituiu a hierarquia Siro-Malancar.

Passados 80 anos, a Igreja Católica Siro-Malancar conta com cerca de 500 mil fiéis na Índia e alguns milhares no exterior, 9 bispos, 641 paróquias, 587 padres, 1850 religiosos e 211 seminaristas. É uma Igreja sui juris governada por um Arcebispo-maior, o Catholicos Moran Mor Baselios Cleemis Thottunkal. Está organizada em 2 províncias: Arquidiocese-maior de Trivandrum, com três eparquias e um exarcado sufragâneos, e a Arquidiocese de Tiruvalla, com três eparquias sufragâneas.

Para saber mais sobre esta Igreja Católica Oriental, visite seu site oficial (em inglês).

É de se esperar que a mesma vitalidade se verifique nos Ordinariatos para ex-anglicanos a serem instituídos conforme as disposições da Anglicanorum Coetibus. Os primeiros convertidos, apenas no Ordinariato inglês, são mais de 600, entre os quais 5 ex-bispos e 60 ex-padres anglicanos. Caso se multiplicassem por cem mil, como os malancares, seriam 60 000 000 em 2090!

Num outro post traduzo a entrevista concedida pelo Catholicos Baselios Cleemis, em Roma para a visita ad limina Apostolorum, ao L'Osservatore Romano.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Arcebispo indiano narra visita aos cristãos butaneses

Depois de 18 anos, um arcebispo visita em segredo os cristãos do Butão

Obrigados a rezar nas próprias casas, discriminados nas instituições de ensino e nos serviços públicos e sempre sob estrita vigilância das autoridades, os cristãos crescem em número no Butão. Dom Thomas Menamparampi, arcebispo de Guwahati (Índia), conta a Asia News sua viagem àquele reino, iniciada no último dia 9 de março e concluída nos últimos dias, onde verificou a situação de católicos e protestantes em nove cidades e vilas do país; descreve a vida das pequenas comunidades cristãs, muitas das quais jamais visitadas por um prelado, e o fervor dos cristãos testemunhas de Cristo, não obstante as arbitrariedades e as proibições do governo.

Dom Menamparampi conseguiu entrar no pequeno reino do Himalaia graças a um programa de formação para jovens butaneses, depois de quase 20 anos de contínuas proibições por parte das autoridades. A última visita às comunidades cristãs ocorreu em 1993. Até o presente as autoridades não permitem a entrada de missionários. O país está nos limites jurisdicionais da Diocese de Darjeeling (Índia), mas o governo proíbe qualquer forma de evangelização, não permite a construção de igrejas e a celebração pública de missas. Até hoje o único sacerdote admitido no Butão é o Pe. Kinley, jesuíta, que organiza com a permissão do governo programas de formação e instrução para os jovens, embora nos últimos anos alguns sacerdotes consigam periodicamente celebrar missas privadas.

Abaixo a narrativa do arcebispo indiano:

Iniciei minha viagem no último dia 9 de março partindo de Phuntsholing. Estavam comigo três amigos católicos que nos últimos anos estão empenhados na formação dos jovens butaneses. A nossa viagem nos levou às cidades de Geddu, Timphu, Tongsa, Bumthang, Mongar, Tashigang, Kanglung e Sandrup Jongkhar, onde encontramos cerca de trezentos cristãos, que vivem divididos em pequenas comunidades dispersas pelo reino.

Em 11 de março chegamos à capital Timphu, onde celebrei a missa junto aos únicos católicos do lugar, que há décadas se reúnem em silêncio numa pequena sala bem discreta. Recordavam-se ainda de minha última visita ocorrida há mais ou menos 18 anos, quando o Pe. Mackay, SJ, ainda estava trabalhando no Butão. Depois de sua morte, não há mais um único missionário católico no reino. A comunidade de Timphu é formada por um velho grupo de cristãos que, no passado, encontraram o catolicismo em Darjeeling e permaneceram fiéis por todos estes anos.  Por estarem acostumados ao silêncio e à discrição, aprendida sob o regime absolutista do rei Jigme Singye Wangchuck, foram aceitos pelas autoridades, qas quais, às vezes, até permitem que alguns estrangeiros se unam a eles na oração.

Todos os outros cristãos presentes no Butão são protestantes de grupos independentes, próximos ao pentecostalismo. Pequenas comunidades de 10 a 20 famílias, frequentemente sem qualquer contato com os outros cristãos da área. Nos últimos meses, a nossa diocese enviou aos vários distritos alguns voluntários dos programas de formação que nos ajudaram a organizar o nosso tour.

Onde quer que estivéssemos, éramos acolhidos com entusiasmo, embora soubessem que éramos católicos e que eu era arcebispo. As longas estradas tortuosas foram extenuantes; para ir de uma vila a outra, gastávamos cerca de sete horas de carro. Mas isto é que tornou especial a nossa visita aos povoados. De fato, não acreditavam que tivéssemos enfrentado perigos e fadigas nas estradas do Butão somente para encontrá-los e levar-lhes coragem. Muitos não queriam deixar-nos partir.

Nas pequenas vilas, a mais de 2500 metros de altitude, encontrei uma população muito ligada à própria fé e desejosa de conhecer melhor o cristianismo. Não obstante a pouca formação, os pastores amam a Bíblia, a qual guardam com zelo, e têm uma certa familiaridade com os textos. Aqui todos esperam com ânsia a visita de cristãos que possam lhes dar ulteriores instruções.

A impressão que tive é a de viver nos tempos dos Atos dos Apóstolos. Muitos grupos são organizados, mas não gozam de reconhecimento oficial por parte das comunidades protestantes. Outros nos deram a impressão de serem cristãos “mestres de si mesmos” [fai da te], enquanto alguns parecem ainda estar à procura. Todavia experimentamos no meio deles uma sensação de calor, intimidade, confiança, de entusiasmo e de expectativa que nos testemunhou a presença viva do Espírito Santo entre aquela gente. Estes cristãos se reúnem em casas privadas para orar e, alternadamente, cada família põe à disposição a própria habitação para a reunião. Seu culto é muito simples: cantam hinos, lêem a Bíblia e comentam alguns trechos e terminam com uma oração coletiva. Durante estas reuniões compartilham suas experiências e escutam os testemunhos de outros cristãos. Às vezes convidam os amigos não-cristãos a se unirem a eles. Alguns se convertem, sobretudo se a oração ajuda a curar as doenças.

O que observei é um significativo aumento dos cristãos desde a última visita. Segundo alguns os fiéis são mais de 10 mil e as conversões ocorrem sobretudo entre a comunidade de origem nepalesa, naturalizados butaneses. De fato, as igrejas evangélicas progrediram no Nepal e estas mudanças influenciaram também a população nepalesa do Butão. Todavia, serão necessários anos para poder interpretar esta tendência. A maior parte dos nepaleses que emigraram para o país provém de um contexto hindu e são cerca de 40% da população. A etnia dominante [no Butão] é a tibetana de religião budista, que representa cerca de 60% em 800 mil habitantes [as estatísticas oficiais contam cerca de 700 mil habitantes no Butão].

Entre os cristãos a consciência religiosa está em uma fase inicial e a maior parte aceita o cristianismo na sua totalidade, mas não está disposta a seguir os ditames de uma igreja particular. Todavia o seu fervor é grande. O aumento dos cristãos no Nepal – Estado laico desde 2006 – demonstra que com uma maior liberdade religiosa também no Butão os cristãos poderiam ser centenas de milhares. As autoridades são mais tolerantes do que no passado, mas proíbem ainda o culto público e as conversões.

Ainda que não haja perseguição direta, o governo desencoraja as religiões diversas do budismo de vários modos. Em caso de inscrição para concursos escolares e trabalho na administração pública é preciso especificar a própria fé religiosa e, frequentemente, é difícil para os cristão obter uma entrevista, vencer um concurso ou chegar à escola superior. As autoridades têm ainda outros modos menos explícitos, porém mais duros, para pressionar os cristãos. Numa das vilas, contaram-nos que a administração cortou-lhes a eletricidade depois que descobriram a presença de cristãos. Não contentes, as autoridades ordenaram ainda o fim de qualquer atividade religiosa, ameaçando cortar a água e demolir as casas utilizadas como lugares de culto. Em geral, estas medidas tão drásticas ocorrem quando há uma denúncia por parte dos habitantes de religião budista ou hindu. 

Não obstante esta situação, não encontrei cristãos preocupados ou desencorajados. Pelo contrário, muitos deles rezam e esperam com ânsia o dia em que o governo aceitará a liberdade de culto também em público. Eles pensam que tratando com gentileza e amor os budistas poderão obter um dia a liberdade religiosa. Alguns grupos de cristãos já estão planejando tranquilamente a construção de igrejas, mas devem estar atentos. De fato, o lobby dos monges budistas ainda é muito poderoso e não perde a ocasião de recordar a supremacia e a importância da cultura budista no Butão.

O conceito de “cultura” é um argumento muito sensível na Ásia. A maior parte das pessoas não sabem fazer distinção entre cultura e religião. Comunicar o cristianismo é possível somente se não se comprometem as várias identidades culturais e infelizmente hoje os cristãos nem sempre alcançam este objetivo. Mas os asiáticos são pessoas muito profundas e mesmo os simples habitantes das vilas estão em condição de julgar o que é e o que não é real, aquilo que enriquece sua identidade e incrementa sua cultura e o que não o faz. O nosso desafio em tais situações é convidar as pessoas a uma reflexão mais profunda sobre a própria identidade, sobre sua missão na terra e o seu destino. No Butão, os jovens são capazes, são desejosos de aprender e acompanham os nossos programas de formação com grande interesse. Estamos procurando criar grupos de fomento que financiem a formação, as competências e a difusão de nossos programas, em nossas viagens nos países da Ásia meridional. Os jovens butaneses merecem esta ajuda e estou seguro de que o seu trabalho será sempre mais fecundo no futuro.

Estas palavras de Isaías (2,2-4) me inspiraram durante estes dias: “Nos últimos dias, o Monte do Templo do Senhor terá os seus fundamentos no mais alto dos montes, e dominará as colinas. Para lá correrão todas as nações. Para lá irão muitos povos, dizendo: «Vinde! Subamos à Montanha do Senhor... para que Ele nos mostre os seus caminhos, e possamos caminhar nas suas veredas»”.  Não é sem razão que o Senhor elevou o Himalaia sobre todas as colinas e o fez seu. Devemos discernir os caminhos do Senhor nestas altas montanhas e entre esta gente maravilhosa.

Fonte: Asia News
Tradução: OBLATVS

Um apelo do bispo de Petrópolis


Apelo para a reconstrução urbanística e humana de Petrópolis

Dom Filippo Santoro
Bispo Diocesano de Petrópolis - RJ


Passaram-se dois meses das grandes chuvas que devastaram a Região Serrana do Rio de Janeiro e a nossa Petrópolis, chegando a causar cerca de 900 mortos sem contar os desaparecidos. Estamos diante de um dos maiores desastres naturais do Brasil. No meio de tanta dor, grande foi a solidariedade de muitas pessoas de todo o País e do exterior, que trouxe conforto e esperança.

Estamos na fase de reconstrução que procede lentamente enquanto muitas famílias permanecem nos abrigos e diminui a presença dos voluntários. Como era previsível, os holofotes deixaram a Região Serrana e as feridas da chuva foram encobertas sem ser curadas. O pior mal que pode acontecer à nossa Cidade é a perda da memória.

Acusou-se como uma das causas das mortes a ocupação irresponsável de muitas áreas de risco; mas sinceramente quem a favoreceu? E por acaso os pobres gostam de viver em zonas de risco? Era esta a única possibilidade de uma moradia acessível, mesmo que precária.

É necessário um grande movimento popular que tenha os pobres e desabrigados como sujeitos para impedir que o desastre aconteça de novo nestas proporções e que novas tragédias se repitam.

Existem estudos de qualidade, feitos depois das inundações dos anos passados, que, porém não foram aproveitados. É hora de recuperá-los e de atualizá-los para responder aos desafios deste momento. Isso é urgente porque nos encontramos diante de dois perigos que nos ameaçam. De um lado os desabrigados urgem para uma solução apenas imediatista dos problemas. De outro lado o perigo maior é a perda de memória da maioria da população, que poderia chorar amargamente na próxima desgraça. As chuvas do primeiro de março já nos deram um alerta.

As autoridades públicas estão fazendo a sua parte, embora fosse desejável uma maior celeridade e mais clareza nos objetivos. Mas o problema real é a urgência de uma urbanística diferente que providencie de forma ágil a desocupação das áreas de risco e a construção igualmente ágil de novas moradias em terrenos seguros e possivelmente não distantes das antigas casas abandonadas. Isso porque não é suficiente construir casas; é necessária uma dimensão humana da casa, como lugar de relacionamentos, serviços e perspectivas educativas que favoreçam o convívio social, a busca da dignidade e do sentido pleno da vida.

A Igreja, junto com pessoas de várias religiões, esteve na primeira fila na hora do drama e da emergência. Diante da dor e do sofrimento se ajuda o ser humano qualquer que seja o seu credo. A Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB este ano com o tema “Fraternidade e vida no Planeta”, alerta-nos sobre a necessidade de respeitar a natureza contra uma certa cultura do consumismo desenfreado e da exploração predatória dos recursos naturais. É tempo de conversão para que a ganância não produza um irreparável prejuízo para toda a humanidade.

Agora, a todos é pedido um passo novo: manter viva a memória em vista de uma reconstrução urbanista atenta às várias áreas de risco e às características peculiares da nossa Cidade. Por isso em cooperação com o trabalho realizado pelo Governo, Estado e Município, convocamos as várias entidades civis da nossa Cidade a fim de incrementar um movimento do nosso povo para uma reconstrução ágil, firme e de ampla visão para o futuro.

A situação é grave; o dever que temos é urgente. Várias pessoas já aderiram ao nosso apelo; entre eles, personalidades do mundo jurídico, da cultura, da imprensa, da indústria e, sobretudo, muita gente simples que está sofrendo com as conseqüências deste desastre que atingiu a nossa região. A colaboração de todos neste momento é urgente para que se concretize a nossa esperança.

Fonte: CNBB 

terça-feira, 22 de março de 2011

Intervenção de Frei Charles Morerod sobre Decreto de reforma dos estudos filosóficos

Na manhã de hoje, realizou-se em Roma uma coletiva de imprensa para apresentação do Decreto de reforma dos estudos eclesiásticos de filosofia. Intervieram o Cardeal Grocholewski, Prefeito da Congreg. para a Educação Católica, Dom Jean Louis Bruguès, secretário da mesma congregação e o Frei Charles Morerod, reitor do Angelicum.

Uma das razões da reforma, segundo o Cardeal Grocholewski, é “a debilidade da formação filosófica em muitas instituições eclesiásticas, pela ausência de pontos de referência precisos, sobretudo em relação às matérias a serem ensinadas e à qualidade dos docentes. Esta debilidade é ainda acompanhada de uma crise dos estudos filosóficos em geral numa época em que a própria razão é ameaçada pelo utilitarismo, pelo ceticismo, pelo relativismo, pela desconfiança de que a razão possa conhecer a verdade relativa aos problemas fundamentais da vida, pelo abandono da metafísica; enfim, às vezes, o conceito de filosofia não parece claro”.
 
Abaixo a tradução da breve intervenção do Frei Charles Morerod, OP: A importância da filosofia para o estudo da teologia.

O cristianismo pressupõe uma harmonia entre Deus e a razão humana. A pesquisa filosófica pode ser, pois confiável e o crente pode evitar opor à própria fé uma verdade encontrada com a razão. Esta confiança até mesmo encoraja o crente a procurar compreender o mundo, porque “o erro [sobre as criaturas] pode levar ao erro acerca das coisas de Deus” (S. Tomás de Aquino, Summa contra Gentiles, livro II, cap. 4).

O Decreto de Reforma dos estudos eclesiásticos de Filosofia convida os filósofos a “recuperar com força a ‘vocação original’ da filosofia: a busca do verdadeiro e sua dimensão sapiencial e metafísica” (§ 3). Trata-se de uma “ênfase no caráter sapiencial e metafísico” da filosofia (§ 4) que não nega o papel de outros ramos da própria filosofia. O papel central da metafísica deve, portanto, ser compreendido à luz da importância de toda a filosofia no conhecimento humano.

A importância da filosofia está ligada diretamente ao desejo humano de conhecer a verdade e de organizá-la. A experiência mostra que o conhecimento da filosofia ajuda a organizar melhor, em cooperação com outras disciplinas, o estudo de qualquer ciência. A metafísica visa a conhecer o conjunto da realidade – culminando no conhecimento da Causa prima de tudo – e a mostrar a relação mútua entre os vários campos do saber, evitando o fechamento de cada ciência sobre si mesma. A metafísica evita também a separação dos diversos conteúdos da própria filosofia e, ainda, da vida humana: um metafísico não acredita dever opor verdade e bem, conhecimento e amor.

Também a teologia deve estar atenta para não fechar-se em si mesma. Se isto acontecesse, tornar-se-iam difíceis o diálogo dos teólogos com outros campos do saber e a resposta às críticas dirigidas contra a fé. Em todo o caso, uma teologia sem filosofia é simplesmente impossível, porque ninguém se aproxima da teologia sem ter idéias prévias, que em parte são filosóficas. A Bíblia, enquanto apenas texto, não transmite a revelação: o seu conteúdo deve ser conhecido. Aquilo que pensa o leitor de um fragmento bíblico será a mistura de elementos contidos no texto com outros conteúdos. O Papa João Paulo II resume o impacto inevitável da filosofia sobre a teologia: “Se o teólogo se recusasse a valer-se da filosofia, arriscar-se-ia a fazer filosofia sem o saber e a fechar-se em estruturas de pensamento pouco idôneas à inteligência da fé” (Fides et ratio, § 77).

O estudo da filosofia ajuda o teólogo a ser consciente dos próprios pressupostos filosóficos, a criticá-los e a evitar impor à sua teologia ou à sua pregação um quadro conceitual incompatível com a fé. Para ser justa, a reflexão crítica sobre teorias filosóficas deve procurar a verdade para além das aparências. Um filósofo não-cristão pode ser útil à teologia enquanto um filósofo cristão que deseja demonstrar a existência de Deus pode ter um impacto contrário.

Um problema crucial para a teologia é a possibilidade de falar de Deus por meio de palavras plasmadas para descrever o mundo: não temos outras expressões à nossa disposição. Antes de tudo, as nossas palavras devem poder dizer algo de verdadeiro a propósito da realidade, de outro modo a própria Bíblia nada afirmaria. E ainda, as nossas palavras devem poder descrever diversos níveis da realidade: de fato, uma mesma palavra utilizada na biologia, em poesia ou na teologia não tem um significado totalmente idêntico, mas também não tem necessariamente um significado totalmente diverso. Compreender o uso da linguagem pressupõe, antes de tudo, um estudo das diversas dimensões do real e, sucessivamente, da própria linguagem.

De que modo podemos dizer algo a propósito de Deus? Sem resposta filosófica, tal pergunta pode desqualificar a teologia no seu conjunto. Descrevendo Deus como “pessoa” ou como “amor” o fazemos à nossa imagem? Isto depende antes de tudo daquilo que entendemos por “causa”. Já São Tomás considerava que poderíamos falar de Deus com palavras humanas, porque Deus é a Causa primeira do mundo. Todavia, se falássemos de Deus apenas porque é causa das criaturas, “seguir-se-ia que todos os nomes aplicados a Deus, seriam ditos dele por derivação” (Ia, q.13, a.2). Em outras palavras, Deus seria imagem do mundo... Para evitar tal armadilha, devemos acrescentar que a causa divina é infinitamente superior aos seus efeitos, tanto que as perfeições limitadas, encontradas por nós nas criaturas, estão antes em Deus e que n’Ele são infinitas e unidas na simplicidade. Estas distinções são metafísicas.

À crítica medieval do uso teológico da linguagem e da causalidade, sucede a crítica moderna. Podemos falar de Deus como causa sem fazer d’Ele uma parte das causas deste mundo? A pergunta é crucial e para respondê-la é útil não se confinar totalmente numa perspectiva que limite a causalidade à causa eficiente, a um processo intra-mental, ou que limite o seu uso a um nível apenas da realidade. Como em todo diálogo, a crítica que nos é dirigida deve ser estudada em si mesma, mas não limitada à perspectiva do interlocutor. A metafísica pode alargar os horizontes. 

A causa não é apenas causa eficiente. Em outras palavras, para compreendermos a nós mesmos não basta conhecer os nossos pais: isto é certamente útil, mas não basta para viver (por isto os pais têm um dever educativo). A realidade não se compreende sem a causa graças à qual se faz algo, isto é, a causa final, a meta.

Por exemplo, a catequese é frequentemente confrontada com perguntas sobre a relação entre a evolução das espécies e a estória bíblica da criação. As tentativas de passar diretamente da teologia à biologia são pouco frutuosas. É necessária uma mediação filosófica. A filosofia deverá colocar-se uma pergunta sobre a forma originária do evolucionismo, a darwiniana: como faz para explicar o que se está descrevendo, isto é, a onipresença da causa final? Um evolucionismo finalizado não exclui a ação divina, ainda que não a mostre diretamente.

O catequista que trata da evolução é tentado a desqualificar a Bíblia como Palavra de Deus, ou a fechar-se num fundamentalismo que nega a verdade das descobertas científicas. Para evitar tal alternativa desastrosa é necessário estudar um outro aspecto da causalidade, isto é, a relação entre diversos níveis de causalidade num mesmo efeito. Por detrás desta questão técnica se esconde a possibilidade de compreender como o texto bíblico pode ter Deus como autor, e ao mesmo tempo os autores humanos. O mesmo problema se põe em outros setores da teologia: quem dá a graça do sacramento, somente Deus ou Deus e o sacerdote? Em outras palavras: por que a Igreja? Deus não nos pode salvar sozinho? Há uma resposta teológica: Jesus chamou os apóstolos. Mas para compreender o sentido de tal resposta, explicá-la e ligá-la ao resto do saber, é necessária a metafísica. 

Fonte: Santa Sé
Tradução: OBLATVS
 
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