"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Entrevista com o Arcebispo-Maior dos siro-malabares

Entrevista concedida pelo Arcebispo-Maior da Igreja Católica Siro-Malabar, Mar George Alencherry, à revista “30Giorni”. É interessante, na medida em que nos revela aspectos da vida desta venerável Igreja, embora eu tenha algumas reservas que destacarei entre parênteses.

***

Roma está distante do Malabar. Mas para quem deseja perceber o que é realmente a proximidade que conota e expressa a “Communio Ecclesiarum” basta o fio de reconhecimento, gratuito e recíproco, que une a Igreja de Roma e a Igreja Siro-Malabar. Duas realidades que, por quase dez séculos, não compartilharam qualquer vínculo jurídico institucional. Mar George Alencherry, eleito no mês de maio passado Arcebispo-Maior desta Igreja indiana de rito oriental nascida da pregação do apóstolo São Tomé, veio a Roma no mês de outubro para encontrar-se com o Sucessor de Pedro em sua Sé Apostólica. Por ocasião de sua viagem a Roma, o cabeça da comunidade católica de rito oriental mais numerosa e relevante depois dos greco-católicos ucranianos, quis encontrar-se também com “30Giorni”.
*

Beatitude, o que nos diz sobre seu encontro com o Santo Padre?
Fui eleito Arcebispo-Maior pelo Sínodo da Igreja Siro-Malabar em maio, e logo o Papa confirmou minha eleição. Este procedimento foi aplicado pela primeira vez: de fato, os dois arcebispos-maiores que me precederam foram eleitos diretamente pela Santa Sé. A eleição ocorreu em 24 de maio e em 29 de maio fui empossado como Arcebispo-Maior e arcebispo da diocese de Ernakulam-Angamaly. A de outubro foi minha primeira visita como Arcebispo-Maior ao Papa, junto com o Sínodo permanente de nossos bispos. Foi a ocasião de renovar como Arcebispo-Maior minha declaração de fidelidade e obediência ao Sucessor de Pedro. Durante a viagem também visitei outros dicastérios da Santa Sé, em particular a Congregação para as Igrejas Orientais.

Sobre que assuntos tratou em seus encontros no Vaticano?
Falamos muito dos problemas de jurisdição que criam obstáculos a nossa obre pastoral. Os fiéis da Igreja Siro-Malabar são cerca de 4 milhões, dos quais 3 milhões e 400 mil vivem nas 28 dioceses da Índia. Destas dioceses, 18 se encontram no território próprio da Igreja Siro-Malabar (Kerala, parte de Tamil Nadu e Karnataka). Nós só temos jurisdição territorial nestas 18 dioceses. E gostaríamos de ter uma jurisdição territorial que cobrisse todo o território da Índia: esta é uma de nossas solicitações ao Santo Padre e para nós é um pedido importante. Cremos que seja nosso direito. Antes da chegada dos missionários ocidentais – os portugueses chegaram no século XVI – a nossa jurisdição, “cristãos de São Tomé”, se estendia por toda a Índia. Bem cedo os missionários ocidentais, devido à influência dos soberanos europeus, tomaram a jurisdição da Índia, restringindo a nossa às áreas onde estávamos mais concentrados.

Seu pedido pode parecer uma reivindicação de direitos passados, já sepultados pela história...
Não, é uma questão que concerne ao presente, em termos muito concretos. Nossos fiéis crescem em número e se difundem em outras regiões. Ali, porém, acontece de nossa gente não encontrar um adequado cuidado pastoral em continuidade com a própria tradição, e sofre por isto. Nossos fiéis estão acostumados a nossa liturgia, aos nossos costumes, a nossas modalidades de oração e de participação dos leigos na administração das paróquias. O papel dos leigos na vida das paróquias e na catequese é uma peculiaridade da Igreja Siro-Malabar. Em muitas grandes cidades há grande concentração de fiéis siro-malabares: 70 mil em Delhi, 50 mil em Chennai e Bangalore, cerca de 20 mil em Hyderabad. Gostaríamos de estabelecer dioceses pelo menos nestes grandes centros urbanos.

E que resposta lhes deram?
A Santa Sede nos disse que, em linha de princípio, temos direito à jurisdição. Mas, dado que nas outras regiões se instalou a Igreja latina, é necessário estabelecer algum tipo de entendimento com os latinos. O Santo Padre compreende nossas necessidades e nos explicou que será necessário proceder dando um passo de cada vez. Recordou-nos as palavras do Concílio Vaticano II, segundo as quais cada Igreja sui juris tem direito de viver em autonomia. Há uma anomalia histórica que deve ser corrigida. Nós somos pacientes, mas não é justo que se prossiga deste modo.

Quais são as objeções a seu pedido?
Já agora a Igreja Siro-Malabar, a Siro-Malankar e a latina têm dioceses que se sobrepõem em nosso território histórico. Todavia alguns bispos pensam que poderia haver dificuldades se nós estendêssemos nossa jurisdição a territórios que caem em suas dioceses. Tenha em conta que atualmente em algumas dioceses latinas os siro-malabares representam uma grande parte dos fiéis atendidos pelos sacerdotes latinos. Se estendêssemos a jurisdição, em algumas daquelas dioceses latinas poderiam restar pouquíssimos fiéis de rito latino. Outra preocupação se refere aos sacerdotes siro-malabares que aprenderam o rito latino e trabalham nas dioceses latinas. Há mais de 30 bispos siro-malabares que trabalham como bispos latinos nas dioceses do norte.

E fora da Índia, como vão as coisas?
Há um grande número de fiéis siro-malabares fora da Índia. Nos Estados Unidos são cerca de 100 mil, e para eles foi instituída uma diocese que tem seu centro em Chicago. A maior parte dos fiéis no exterior se concentra no Golfo Pérsico. Na Arábia Saudita são mais de 80 mil, quase todos trabalhadores que se mudaram para lá de maneira permanente. O Papa nomeou dois vigários apostólicos e um núncio, mas os sacerdotes que foram encarregados daqueles fiéis, embora sendo de origem siro-malabar, aderiram às congregações latinas e são latinos de formação. A ausência de sacerdotes de nosso rito criou algumas tensões naqueles países. É outro problema que apresentamos à Santa Sé; esperamos ser escutados.

Como se dá a colaboração entre as diversas Igrejas católicas na Índia?
As três Igrejas – latina, siro-malabar e siro-malankar – são parte da única Igreja universal, e há uma conferência episcopal dos bispos das três Igrejas. Nesta Conferência trabalhamos juntos sem nenhum problema. A Igreja Católica é comunhão de diversas Igrejas particulares: há 22 Igrejas orientais, que juntamente com a Igreja latina compõem a Igreja universal. Somente a partir desta teologia é possível o ecumenismo: se os greco-ortodoxos percebessem a existência desta comunhão se uniriam aos católicos [parece-me um tanto simplista e irreal o modo como o problema foi apresentado]. Ecumenismo não é colocar a Igreja ortodoxa sob a administração da Igreja latina. Nós, desde dentro, pedimos um ecumenismo real. Os ortodoxos o pedem a partir de fora. Mas alguns dentre os latinos não o compreendem.

E as relações com os hindus?
Em geral, o hinduísmo é uma religião que promove paz e harmonia. A maior parte das pessoas nos olha com simpatia e trabalhamos juntos. Mas, como sabem, no passado recente tem havido grupos de fundamentalistas que criaram problemas. Em todo o país, por um motivo ou outro, existem fundamentalistas. Assim como existem os extremistas políticos, que chamamos terroristas. Na Índia existem grupos extremistas dentro do hinduísmo: quem crê no autêntico hinduísmo não gosta deles, mas estes grupos criam problemas sobretudo para os cristãos. Temem que os cristãos, através das conversões, tomem o controle do país. Mas é um medo sem fundamento e os cristãos, pelo contrário, não reagem com violência a seus ataques. O governo sabe disto e está nos ajudando.

A Igreja Siro-Malabar se manteve na fé dos apóstolos vivendo em meio a uma cultura enraizada em outros pressupostos religiosos. Este é um esplêndido testemunho do fato de que a Igreja é de Jesus Cristo (“Ecclesiam Suam”, escreveu Paulo VI). Que pode sugerir a toda a cristandade a história dos cristãos siro-malabares?
A herança que levamos conosco é o resultado de vinte séculos de testemunho da fé católica, à qual temos permanecido sempre fiéis, inclusive quando existiam sérias incompreensões por parte dos missionários estrangeiros. Nossa Igreja tem um estilo único de catequese: nas famílias, nas paróquias e nas escolas, nestes três níveis ensinamos às crianças a custodiar a fé. Aqui em Roma há cerca de 6 mil fiéis siro-malabares: em 16 de outubro celebramos uma bela liturgia na Basílica de Latrão. A Basílica estava cheia.

A Igreja Siro-Malabar confirmou a comunhão com Roma depois de séculos de ausência de contatos. É o sinal de que a comunhão da Igreja não é principalmente resultado de relações jurídicas...
A nossa é a fé dos apóstolos, transmitida por São Tomé. São Tomé não teria podido iniciar uma nova Igreja por força própria. Também na Índia ele fez somente aquilo que Jesus lhe havia pedido que fizesse. Pelo mesmo motivo, Tomé e todos aqueles que dele receberam o anúncio evangélico estão em comunhão com Pedro, e isto é garantia de nossa fé. A fidelidade ao Papa vem de nossa experiência de fé: rezamos pelo Papa na celebração eucarística, veneramos na liturgia os santos de todas as Igrejas particulares junto com os nossos. Doutrinalmente, conservamos o que recebemos do Credo de Nicéia. A Eucaristia e os outros sacramentos, por dom do Espírito Santo, nos unem na Igreja uma, santa e apostólica.

Pode nos falar de sua devoção por São Tomé?
Depois das festas de Nosso Senhor, do Natal à Páscoa, e das festas da Santíssima Virgem – Imaculada Conceição, Natividade e Assunção – a festa mais solene na Igreja Siro-Malabar é a “dukhrana”, ou comemoração de São Tomé. Celebramo-la em todo o mundo; inclusive na Arábia Saudita, onde não se pode ter celebrações oficiais, mais de trezentos fiéis se reuniram em um lugar privado e me telefonaram, pedindo-me uma bênção. Segundo a tradição, Tomé fundou sete comunidades na Índia. Aqueles lugares se converteram em outras tantas metas de peregrinação. E no primeiro domingo depois da Páscoa se celebra a festa de São Tomé que toca o lado de Jesus. É uma grande festa, da qual participam muitos hindus.

O Cardeal Levada, no último Sínodo das Igrejas orientais, anunciou que consultaria os patriarcas orientais sobre uma possível reforma do exercício do ministério petrino. O que sugere, em particular com respeito às relações com as Igrejas orientais?
A Igreja Católica, através do Conselho para a Unidade dos Cristãos, já iniciou um diálogo sobre o primado. Penso que se deva prosseguir com este diálogo e buscar um acordo comum com as Igrejas do Oriente, como havia nos primeiros quatro séculos do cristianismo. Naquele tempo havia uma compreensão comum do primado. Agora a Igreja ortodoxa objeta que é impossível remontar-se à teologia precedente ao Concílio de Calcedônia porque não possuímos nenhum documento daquela época. Mas creio que também a partir dos documentos e pronunciamentos posteriores a Calcedônia seja possível um diálogo e um acordo sobre o ministério petrino. Porque existe a expressão primus inter pares [a expressão existe, mas jamais se aplicaria ao Papa; reduzir o primado a um símbolo da unidade desprovido de jurisdição é adulterar a doutrina católica]. Todos nós temos necessidade de um ministério petrino que seja referência de unidade para todas as Igrejas. Eu tenho a esperança de que se encontre um ponto no meio do caminho onde a Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas possam encontrar-se na plena comunhão da Igreja de Cristo.

Por séculos sua Igreja teve de enfrentar processos de “latinização” implementados entre os senhores. Havia quem os considerasse heréticos ou cismáticos porque os senhores tinham suas orações, suas liturgias e não falavam latim. Vê ainda hoje circular resíduos desta mentalidade?
O modo de pensar mudou muito, também na Igreja latina. Entre os teólogos, entre a maior parte dos bispos e na Sé Apostólica. O padre Placid Podipara CMI, um teólogo e historiador muito renomado de nossa Igreja, disse que a Igreja Siro-Malabar é cristã por fé, hindu por cultura e oriental no culto [Hindu por cultura? Fui conferir no original e é lamentável a confusão entre hindu – que diz respeito à religião pagã – e indiano]. Infelizmente os missionários que chegaram no século XVI não o compreenderam. Não tinham más intenções, era a atitude do tempo. Mas agora, aquilo que eles pensaram e que era equivocado pode ser restaurado. Isto é o que diz o Concílio Vaticano II. Muita coisa mudou, mas onde não se deu esta mudança, existem problemas. Disse isto também ao Papa; Disse: “Santidade, há muitíssimos bispos latinos que compreendem corretamente a eclesiologia de comunhão, mas há outros...”

A liturgia teve um papel central para a continuidade histórica de sua Igreja. Como vê a importância reconhecida à liturgia pelo magistério do Papa atual?
O magistério do atual Papa está realmente salvando a Igreja do nosso tempo. Há muitas aberrações que estavam penetrando na Igreja, às vezes em nome do Concílio Vaticano II. Há quem tenha interpretado mal aquele Concílio, detendo-se nas coisas acidentais e perdendo de vista o essencial. O Papa quer seguir o que o Vaticano II realmente quis dizer. E quando ele, pouco a pouco, conseguir ultrapassar estas coisas, a Igreja estará realmente unida. A dissipação e a mundanização da Igreja estão realmente disseminadas, especialmente na Europa, e para a recomposição será necessário mais tempo. Mas esta é a intenção do Papa e a Igreja Siro-Malabar está com ele.

Entretanto, tem havido também na Igreja Siro-Malabar controvérsias acaloradas entre que sustenta a recuperação integral do patrimônio litúrgico tradicional e quem julga que isto uma forma de esteticismo tradicionalista. Entre “caldeizante” e “latinizante”...
Diria uma coisa: se algo é caldeu, ou europeu, ou de qualquer outro lugar, o que é válido é válido. Mas alguns, como conseqüência da latinização, se convenceram de que o que pertence à cultura ocidental é bom e o que vem do Oriente não é bom. É uma impressão criada pela latinização, a que temos sido submetidos durante três séculos. Se bem que a Igreja universal com o Concílio Vaticano II nos tenha restituído a liberdade de recuperar os elementos válidos de nosso patrimônio, uma boa parte da Igreja se esqueceu deles e não sente a exigência desta recuperação. Dizem: “continuemos indo adiante com o que temos agora, e caso se necessite de outra coisa, tomemo-lo da Igreja latina”. Esta é sua atitude. Outros respondem que para continuar sendo o que somos, devemos ante de mais nada recuperar o que foi tirado e que perdemos. Eu, em meu ofício, cuidarei de criar mais unidade e também uma certa uniformidade nas celebrações litúrgicas. Não uma uniformidade integral, senão uma unidade no essencial. Que deve se realizar de forma gradual. Por exemplo, antes na Igreja latina havia quem dizia que nós celebramos olhando a parede. Mas olhar para o Oriente não é ter o rosto voltado para a parede. É olhar para o lugar de onde vem o Senhor. Na teologia de nossa Igreja, o povo e o celebrante oferecem juntos o sacrifício a Deus Pai, voltados para o Oriente.

A Índia está se convertendo numa espécie de superpotência geoeconômica. Há novos problemas. Como este processo afeta seu trabalho pastoral?
No mundo que muda, também muda a nós todos. Nossos fiéis emigram, para estudar ou procurar trabalho. Somente uma terça parte deles vivem nas dioceses de origem. Cerca de dois terços estão fora, nas grandes cidades. Na América e na Europa há doutores, empresários e comerciantes siro-malabares que estão subindo na pirâmide social. Se a nós se nos reconhece a jurisdição universal sobre nossos fiéis [O arcebispo queria jurisdição territorial em toda a Índia, o que me parece razoável em tese, mas jurisdição territorial universal só o Papa tem; mas é isto mesmo que ele pede, uma vez que já tem jurisdição universal pessoal sobre seus os fiéis siro-malabares], podemos realmente favorecer esta energia de modo que sua força esteja a serviço da Igreja universal. De outra maneira, aquilo que perdemos nós, a Igreja universal perderá. E se nossos fiéis encontram dificuldades para permanecer em contato com o patrimônio espiritual próprio, buscarão o sentido espiritual nos grupos pentecostais ou em realidades deste gênero. E isto já está ocorrendo. Estamos perdendo nossos fiéis. Eles chegam da índia no Ocidente, encontram alguém que lhes diz: “Por que deveis ir às igrejas dos latinos? Vinde conosco, rezemos juntos”. Temos perdido muitos. Nós estamos angustiados por isto e temos expressado nossas angústias aos dicastérios vaticanos. Todos parecem compreender o que dizemos mas não se tomam decisões imediatas. Deve-se consultar muitas pessoas e o tempo passa. E as coisas pioram. Muitos não parecem entender que se floresce e prospera a Igreja Siro-Malabar, floresce a Igreja universal. Porque cada Igreja particular existe para a Igreja universal. E também a Igreja latina é uma Igreja particular. Entretanto, na cabeça de alguns universal coincide com latino. Esta, obviamente, não é a doutrina oficial. Não é o pensamento de nenhum teólogo sério. Mas continua sendo uma mentalidade difundida em muitos, e provoca atrasos.

Há dias, na Pontifícia Universidade Gregoriana, realizou-se um importante Congresso internacional sobre a chamada Anáfora de Addai e Mari. Por que esta anáfora tem uma importância particular do ponto de vista ecumênico e litúrgico?
A Anáfora de Addai e Mari é a mais antiga na Igreja universal. Nela nós percebemos a mais simples teologia dos Evangelhos, a compreensão mais germinal do mistério de Cristo, sem as formulações doutrinais vindas depois. Assim como o Evangelho de São Marcos é o Evangelho mais simples, a de Addai e Mari é a liturgia mais simples. Deste modo, quando a celebramos, experimentamos intensamente a presença de Jesus conosco. Também as expectativas e as súplicas da Igreja estão muito bem integradas na Anáfora. Contém as orações pelos fracos, os oprimidos, os marginalizados, os pobres, os refugiados. Em resumo, tem a beleza da simplicidade. A Anáfora de Addai e Mari é usada pela Igreja Assíria do Oriente, e tem a característica de não conter de maneira explícita as palavras da instituição, as pronunciadas por Jesus na Última Ceia (“Tomai e comei, isto é o meu corpo... Tomai e bebei, este é o meu sangue... Fazei isto em memória de mim”). Também a Igreja Siro-Malabar usou a forma tradicional daquela anáfora até o século XVI sem interpolações. Mas os teólogos latinos sustentavam que sem as palavras da instituição não havia verdadeira consagração, portanto consideravam inválida a Anáfora de Addai e Mari. Já em 2001, o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, com o consenso da Congregação para a Doutrina da Fé, reconheceu a validade daquela anáfora, usada desde tempos imemoriais também em nosso Qurbana, o sacrifício eucarístico segundo o rito malabar [Não questiono a validade da anáfora, declarada tal pela CDF, mas a decisão de retirar um acréscimo, em nada acidental ou estranho, que tornava explícito aquilo que se reconhece existir implicitamente. Por quê? Pura e simplesmente por conta de uma “forma” mais próxima do original?].

Tradução: OBLATVS

4 comentários:

Bruno Luís Santana disse...

Não gostei do tom deste arcebispo, mas a confusão em que a Igreja universal se vê nas últimas décadas torna as suas posições compreensíveis, ainda que não aceitáveis.

Como uma igreja verdadeira, é lícito que a mesma se estenda por toda parte, e sejam seus fiéis atendidos adequadamente por seus próprios padres e bispos, e que os mesmos respondam ao arcebispo-maior, e este por sua vez responda ao papa, ainda que as novas eparquias sejam abertas fora da Índia.
Mas talvez eu não tenha entendido bem os motivos do conflito entre os latinos e malabares na India: porque não abrir nos territórios de dioceses latinas eparquias malabares? Neste caso, onde já houvessem dioceses latinas, criar-se-iam eparquias territoriais, ou seja, eles suspenderiam catedrais e paróquias para o atendimento da parte dos cristãos de origem malabar, e não teriam jurisdição pelos latinos, e vice-versa. Não compreendo a dificuldade em fazer uma diocese sobreposta à outra...

O que disse o arcebispo acerca do primado do papa foi péssimo, este arqueologismo que eles buscam é claramente complacente com os arqueologismos que os modernistas insinuaram na liturgia, na doutrina, etc.

Já o que ele falou acerca das tendências latinizantes e tradicionalistas, me pareceu mais equilibrado. Se o que foi assimilado depois de tantos séculos pelos malabares é válido, é católico, e traz bons frutos, não deve ser desprezado simplesmente por ser latino. Infelizmente os antigos não tiveram essa delicadeza nos tratos com os orientais, mas o que está feito está feito, e se as "estranhas práticas latinas" não ferem os princípios dogmáticos, devem ser toleradas. Fazer o que?

Quanto à questão das Anáforas de Addai e Mari, creio ter sido um erro terrível o Vaticano ter voltado atrás na questão. Isso inclusive é argumentação dos sedevacantistas para provar que o papa caiu em heresia formal, permitindo que declarassem válida uma anáfora que a própria Igreja já havia declarado inválida pelos motivos citados na entrevista.

José Carlos disse...

Pe. Clésio creio que é oportuno voltar a tocar na quetão das Igrejas Católicas orientais, creio que falta da parte de Igeja Latina um melhor entendimento dos ritos e dos costumes destes irmãos catolicos - católico no sentido de comunhão com Pedro - Pe Clésio seria bom se pudesse orientar, ensinar, comentar, sobre as diferenças de ritos e de hábitos destes irmãos, pois foram evangelizados ainda nos primódios e por outros apóstolos que não Pedro e Paulo como os Latinos e detreminados orientais mais proximos, vide o caso dos Malabares que foram por Tomé

José Carlos disse...

A maior beleza da IGREJA é a unidade na diversidade, somente CRISTO é a verdade, que as diferenças de ritos e costumes não dividam a IGREJA. Que o ESPIRITO SANTO possa iluminar sempre e constantemente o Santo Padre para poder de fato quiar esta IGREJA una e diversa no caminho definido por DEUS PAI.

José Carlos disse...

Pe Clécio a respeito dos orientais encontrei isto no sequinte site http://www.padresdodeserto.net/index.html: "No Oriente se encontram também as riquezas daquelas tradições espirituais, expressas sobretudo pelo monaquismo. Pois desde os gloriosos tempos dos santos Padres floresceu no Oriente aquele elevada espiritualidade monástica, que de lá se difundiu para o Ocidente e da qual a vida religiosa dos latinos se originou como de sua fonte e em seguida, sem cessar, recebeu novo vigor. Recomenda-se, por isso, vivamente que os católicos se abeirem com mais frequência destas riquezas espirituais dos Padres do Oriente que elevam o homem todo à contemplação das coisas divinas." (UR 15).

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...