"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

domingo, 28 de junho de 2009

Papa anuncia revelações científicas sobre relíquias do Apóstolo São Paulo

Caros amicos, há pouco Bento XVI, encerrando o Ano Paulino, fez um anúncio histórico, revelando que foram feitos exames de radiocarbono em fragmentos de osso encontrados no sarcófago venerado na Basílica de São Paulo Fora dos Muros. Eis o que disse o Papa: “O ano comemorativo do nascimento de São Paulo se conclui nesta tarde. Estamos reunidos junto do túmulo do Apóstolo, cujo sarcófago, conservado sob o altar papal, foi recentemente objeto de uma atenta análise cinetífica: no sarcófago, que jamais foora aberto em tantos séculos, foi feita uma pequeníssima perfuração para introduzir uma sonda especial, mediante a qual foram percebidos traços de um preciosos tecido de linho manchado de vermelho, laminado com ouro puro e de um tecido de cor azul com filamentos de linho. Descobriu-se ainda a presença de grãos de incenso vermelhos e de substâncias protéicas e calcárias. E ainda pequeníssimos fragmentos ósseos, submetidos a exame de carbono 14 por especialistas que desconheciam a sua proveniência, cujos exames revelaram pertencer a uma pessoa que viveu entre o I e o II século. Isto parece confirmar a unânime e incontestável tradição que se trata dos restos mortais do apóstolo Paulo. Tudo isto enche nosso ânimo de profunda emoção.”

Fonte: Il Giornale

Tradução: OBLATVS

Do Líbano cristão

Estando na Cidade Maravilhosa para um Jubileu de Ouro Sacerdotal, hospedo-me na casa de uma amiga libanesa, Alia. Seu pai, embora tenha batizado os oito filhos na Igreja Ortodoxa, os levava à Missa na paróquia católica, uma vez que não havia uma ortodoxa na cidade em que se estabeleceu.

Ela cresceu como católica e assim se mantém até hoje, mesmo havendo uma Igreja Ortodoxa próxima a sua casa.

No café da manhã contou-me que seu pai os proibia de entrar num templo protestante e que, por isso, aos 78 anos jamais pôs os pés num destes lugares.

Exemplo de genuína ortodoxia!

Missa segundo o "Book of Divine Worship" do "Uso Anglicano"

Por que este blog se interessa tanto pelos “Anglicanos Tradicionais”? Sequer estão presentes no Brasil, argumentou um leitor assíduo. Razões não me faltam, inclusive aquela que considero vinculante – a oração do Senhor pela Unidade de seus discípulos, que somente se realiza na Igreja Católica.

Os “Anglicanos Tradicionais” contribuiriam ainda, a meu ver, para o incremento da vida litúrgica de toda a Igreja. Existem precedentes.

Há alguns anos, o Papa João Paulo II concedeu aos bispos norte-americanos algumas faculdades concernentes aos “episcopalianos”, clérigos e leigos, que se convertessem à fé católica. O conjunto destas faculdades ficou conhecido como Pastoral Provision. Entre as concessões estão a dispensa da obrigatoriedade do celibato para os clérigos que fossem ordenados sacerdotes católicos e a aprovação de um Ordo Missae, na verdade, um rito anglicano corrigido e completado a fim de traduzir a teologia católica do Sacrifício da Missa.

Abaixo algumas fotos de uma Missa Pontifical no supracitado rito, celebrada pelo Cardeal DiNardo na Igreja de Nossa Senhora de Walsingham, em Houston-TX. Esta missa é celebrada em inglês, ad orientem ou versus populum, embora os adeptos do Anglican Use prefiram a orientação litúrgica tradicional.




Fonte: The New Liturgical Movement

sábado, 27 de junho de 2009

Arcebispos Metropolitanos que receberão o pálio

Às 9h30min, segunda, 29 de junho, Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, Bento XVI presidirá a concelebração Eucarística com os seguintes arcebispos metropolitanos aos quais imporá o pálio:

- Arcebispo Dom Sérgio da Rocha de Teresina, Brasil.

- Arcebispo Dom Maurício Grotto de Camargo de Botucatu, Brasil.

- Arcebispo Dom Gil Antonio Moreira de Juiz de Fora, Brasil.

- Arcebispo Dom Orani João Tempesta de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil.

- Arcebispo Albert Malcolm Ranjith Patabendige Don de Colombo, Sri Lanka.

- Arcebispo Allen Henry Vigneron de Detroit, E.U.A.

- Arcebispo Timothy Michael Dolan de Nova Iorque, E.U.A.

- Arcebispo Robert James Carlson de Saint Louis, E.U.A.

- Arcebispo George Joseph Lucas de Omaha, E.U.A.

- Arcebispo Gregory Michael Aymond de New Orleans, E.U.A.

- Arcebispo Ghaleb Moussa Abdalla Bader de Algiers, Algéria.

- Arcebispo Domingo Diaz Martinez de Tulancingo, México.

- Arcebispo Victor Sanchez Espinosa de Puebla de los Angeles, México.

- Arcebispo Carlos Aguiar Retes de Tlalnepantla, México.

- Arcebispo Pierre-Andre Fournier de Rimouski, Canadá.

- Arcebispo John Michael Miller, C.S.B. de Vancouver, Canadá.

- Arcebispo Giuseppe Bertori de Florença, Itália.

- Arcebispo Salvatore Pappalardo de Siracusa, Itália.

- Arcebispo Domenico Umberto D'Ambrosio de Lecce, Itália.

- Arcebispo Mieczyslaw Mokrzycki de Lviv dos Latinos, Ucrânia.

- Arcebispo Joseph Ake Yapo de Gagnoa, Costa do Marfim.

- Arcebispo Paul Mandla Khumalo C.M.M. de Pretória, África do Sul.

- Arcebispo Marcel Utembi Tapa de Kisangani, República Democrática do Congo.

- Arcebispo Manuel Felipe Diaz Sanchez de Calabozo, Venezuela.

- Arcebispo Jose Luis Escobar Alas de San Salvador, El Salvador.

- Arcebispo Carlos Osoro Sierra de Valencia, Espanha.

- Arcebispo Braulio Rodriguez Plata de Toledo, Espanha.

- Arcebispo Anicetus Bongsu Antonius Sinaga O.F.M. Cap. de Bedan, Indonésia.

- Arcebispo Philip Naameh de Tamale, Gana.

- Arcebispo Ismael Rueda Sierra de Bucaramanga, Colômbia.

- Arcebispo Andrzej Dziega de Szczecin-Kamien, Polônia.

- Arcebispo Vincent Gerard Nichols de Westminster, Inglaterra.

- Arcebispo Philippe Ouedraogo de Ouagadougou, Burkina Faso.

- Arcebispo Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij de Bangkok, Tailândia.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dr. Mauro Figueroa

Ontem, entre uma aula e outra, tive o privilégio de ouvir o testemunho de Dr. Mauro Figueroa. Casado com Dona Valdelice Bispo Figueroa, pai de quatro filhas, advogado criminalista e professor na Faculdade de Direito de Lima, Peru.

Dr. Figueroa nasceu com 20cm e mede hoje, aos 69 anos, 75cm.

Ouvi seu testemunho na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, após a Santa Missa. Acompanhava-o seu irmão sr. Teodoro Figueroa.

Contou-nos como uma turba pretendeu matá-lo quando tinha apenas 15 dias de nascido, e como foram impedidos pela sua mãe. Seu testemunho eloquente contra o aborto e o infanticício vale mais que mil palavras.

Dr. Figueroa, embora não tenha mãos, é um exímio músico. Toca vários instrumentos musicais com os pés e é autor de três livros.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Tribunal Popular do Judiciário

“Nesta segunda-feira, 22, foi lançado o Tribunal Popular do Judiciário do Maranhão, em São Luís. Cerca de 500 pessoas participaram da movimentação, vindos de mais de 50 municípios do interior do estado.

Durante o lançamento também houve manifestos por um novo poder judiciário no estado. “Precisamos dizer que judiciário queremos. Este que aí está não nos serve, nos enche de vergonha”, repetiu o secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Ricarte Almeida Santos. “Um clamor de justiça está no ar. Esse grito certamente ecoará longe, anunciando uma nova justiça no Maranhão”, disseram os descontentes pelas ruas do centro da capital maranhense.

Ainda em 2009 serão realizados quatro tribunais populares regionais, culminando com um grande evento estadual, em datas e locais ainda a serem definidos. Integram a coordenação do Tribunal Popular do Judiciário, a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, a Associação de Saúde da Periferia, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Nordeste 5, Pastorais Sociais, Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, Ordem dos Advogados do Brasil (MA), entre outras entidades.

Participaram do lançamento, entre outros, o bispo de Viana e presidente do Regional Nordeste 5 da CNBB (Maranhão), dom Xavier Gilles; o secretário-executivo da Cáritas Brasileira do Regional Maranhão, Ricarte Almeida Santos; e a assessora para Direitos Humanos e Políticas Públicas do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira, Gilsely Barreto.”

A notícia acima é do site da CNBB.

Alguém saberia dizer o que significa Tribunal Popular do Judiciário? Seria o tal “clamor das ruas” do Ministro Barbosa? Necessário dizer que nem todo clamor popular aponta para a justiça, ou a simples recordação de umas poucas palavras bastam? Ele não! Barrabás!

A palavra mágica é “novo”: novo judiciário possível, novo mundo possível, nova igreja possível! Não nos espantemos quando deste novo brotarem a velha barbárie, os priscos crimes, as antigas ditaduras.

Imagino que o judiciário brasileiro necessite de uma reforma. Só imagino, não tenho o mínimo conhecimento teórico nem prático para aventurar-me numa discussão desta natureza. “Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz!”.

Pergunto-me se os militantes do tal “tribunal popular” têm conhecimento específico; se o têm a Cáritas, a Associação de Saúde (sic!) da Periferia, a CNBB, as Pastorais Sociais e a tal Sociedade Maranhense de Direitos Humanos? Talvez (talvez, talvez, talvez) a OAB do Maranhão tenha uma vaga noção da reforma ideal.

Milingo faz mais uma sagração

Milingo, Kasomo e esposas

Emmanuel Milingo, arcebispo africano excomungado em 2006, realizou mais uma sagração episcopal ilícita, segundo o jornal online Nairobi Daily Nation.

No Sasamotor Centre, na capital do Quênia, ordenou vários diáconos e sagrou o Padre Daniel Kasomo para servir como bispo de seu movimento sectário, Married Priests Now (Padres Casados Já), naquele país africano.

O bispo ordenado estava acompanhado de sua mulher Mary Anne Kosomo e tem quatro filhos. Ele já havia sido suspenso do sacerdócio e, sendo sagrado sem mandato pontifício, incorre na excomunhão latae sententiae, isto é, automática.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Carta dos Pares da Inglaterra ao Papa Clemente VII


Henrique VIII e o pedido de anulação do matrimônio com Catarina de Aragão enviada a Clemente VII

A carta súplice, respeitosa e... intimidatória

No dia 23 de junho em Roma, no Palácio da Chancelaria, o Arquivo Secreto Vaticano e Scrinium apresentam os estudos sobre a carta escrita pelos Pares da Inglaterra ao Papa Clemente VII em favor da causa de anulação do matrimônio entre Henrique VIII e Catarina de Aragão. Publicamos o texto de uma das intervenções.

de Marco Maiorino

Arquivo Secreto Vaticano

Em 1530 ainda não estava em discussão a supremacia espiritual de Roma nem se pensava no cisma que seria consumado dentro de apenas dois anos: naquela hora já se anteviam no horizonte sombrios espectros, mas a ruptura ainda estava para chegar. Henrique VIII precisava da decisão do Papa a favor da anulação de seu matrimônio com Catarina de Aragão. Era o meio tradicionalmente mais seguro de corrigir qualquer suspeita de ilegitimidade na sucessão eventualmente garantida pela sua nova união. A sentença de Clemente VII, porém, não constituía para ele a extrema ratio para a solução de sua “Grave Questão”: se o soberano ficasse desapontado nas próprias expectativas, à autoridade espiritual universal representada pelo Pontífice seria contraposta uma nova, capaz de acolher as instâncias já irrenunciáveis da nação inglesa. Neste clima de tensão, em 12 de junho de 1530, enquanto chegavam à corte as opiniões favoráveis ao divórcio expressas por diversas universidades do continente, Henrique VIII convocou um certo número de aliados, principalmente pertencentes à Câmara dos Lordes: aos membros daquela assembleia extra-parlamentar foi submetida uma carta endereçada a Clemente VII, “ao mesmo tempo súplice, respeitosa e intimidatória”, que na sua forma completa, acompanhada das assinaturas e dos selos de 83 dos personagens de maior relevo do Reino, constituída talvez – para usar as palavras de Scarisbrick – “o documento mais impressionante jamais posto em circulação pela Inglaterra dos Tudor”.

Formalmente, a carta foi redigida sobre um largo pergaminho de quase um metro, com 83 assinaturas acuradamente repartidas em 13 colunas, delimitadas por uma única fita de seda habilmente ondulada, da qual pendem 81 selos em tecas metálicas e quatro tecas vazias. Os autores do documento, isto é, aqueles que o subscreveram e o assinalaram, são em grande parte membros da Câmara Alta do Parlamento: dois arcebispos, dois duques, dois marqueses, 13 condes, quatro bispos, um visconde, 26 barões e 22 abades, cerca de 70% da Câmara dos Lordes do Parlamento da Reforma de 1529-1530. A esses se assomam cinco membros da Câmara dos Comuns e outros seis personagens: os dois secretários reais, Stephen Gardiner e Brian Tuke e outros quatro arquidiáconos e teólogos.

A carta é bem conhecida pelos historiadores, que até hoje puderam conhecer-lhe o teor graças à transcrição contida na obra do biógrafo de Henrique VIII, Lorde Edward Herbert de Cherbury, e sucessivamente através da edição de Thomas Rymer (início de 1700) e de Nicholas Pocock (fins de 1800). Todos estes trabalhos, todavia, não reproduzem o texto do exemplar vaticano. A carta foi, na realidade, redigida em dois exemplares originais: o primeiro, sem data, era destinado a ser conservado nos arquivos do Reino da Inglaterra e atualmente se encontra no The National Archives de Kew; o segundo foi preparado para seu envio a Roma, aonde chegou efetivamente em 16 de setembro de 1530. Os dois pergaminhos, originariamente idênticos na forma e no conteúdo – com exceção de leves diferenças nas dimensões do suporte de escrita e no módulo gráfico – têm enfrentado o transcorrer dos séculos com êxitos radicalmente diversos: o exemplar inglês já se encontra sem os selos, embora mantenha ainda impressos sobre o pergaminho os sinais da fita de seda que subdividia em 13 colunas o maço, a dobra na margem inferior. O ataque de bactérias e as sucessivas restaurações comprometeram-lhe a legibilidade, sobretudo na parte direita e, em particular, entre a oitava e a décima terceira coluna de assinaturas. O exemplar vaticano, ao invés, conservou quase intacto o aparato sigilográfico e se encontra em ótimas condições. Isto permitiu realizar uma nova e segura edição do texto, compreendendo a fiel transcrição de todas as 83 assinaturas. Dedicou-se, pois, ao documento um estudo particular, que indagasse os motivos e as modalidades de criação e cujos resultados são oferecidos agora para exame dos leitores.

Examinando o exemplar vaticano aparece evidente de imediato a imperfeita correspondência entre o número de subscrições (83) e o número de selos (81): um dado atribuído principalmente à perda das impressões originalmente contidas em três das quatro tecas atualmente vazias, a última das quais foi arranjada e jamais utilizada. Uma outra incongruência resulta significativa: a falta de comparação entre alguns subscritores e os respectivos selos. As ótimas condições do exemplar vaticano permitiram identificar com certeza a identidade dos último subscritor. Os editores precedentes do documento propuseram diversas interpretações. O exame atento do documento vaticano permitiu somente agora atribuir a assinatura inequivocamente a John Bell, que assina em latim Johannes Bellus e apõe um selo revelador, marcado pela imagem de um “sino” (bell).

As informações mais precisas sobre a gênese do documento derivavam principalmente de duas fontes: dois despachos do embaixador imperial em Londres, Eustache Chapuys, e uma passagem da biografia do cardeal Wolsey escrita por George Cavendish. De Chapuys se conhece a estratégia utilizada por Henrique VIII para obter as assinaturas e os selos da carta endereçada a Clemente VII.

Ciente da dificuldade que poderia encontrar, o rei convocou à corte um certo número de seus aliados, especificando porém que, quantos estivessem impedidos de se apresentarem pessoalmente, lhe enviassem ao menos os seus selos. No estado atual das pesquisas, não nos é dado saber quantos aderiram a esta proposta.

Fonte: L’Osservatore Romano, 24 de junho de 2009

Tradução: OBLATVS



Salmo 138

Salmo Responsorial da Solenidade da Natividade de São João Batista (138).


— Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes!


— Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos; percebeis quando me deito e quando eu ando, os meus caminhos vos são todos conhecidos.


— Fostes vós que me formastes as entranhas, e no seio de minha mãe vós me tecestes. Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes!


— Até o mais íntimo, Senhor, me conheceis; nenhuma sequer de minhas fibras ignoráveis, quando eu era modelado ocultamente, era formado nas entranhas subterrâneas.

Obama será recebido pelo Papa

Segundo a agência CNS, o Papa Bento XVI receberá o Presidente Obama no dia 10 de julho, às 16h. No mesmo dia o presidente americano e sua esposa viajarão para Gana.

Alguns analistas se apressarão em ver na audiência concedida a Obama algum tipo de conivência do Vaticano com suas políticas públicas. Outros, mesmo cientes da incompatibilidade, procurarão vender a imagem da acomodação pragmática. Na verdade, o Papa não deixará de expressar claramente as posições inequívocas da Igreja em defesa da vida humana inocente.

Estou ansioso pela tônica da cobertura que o L’Osservatore dará ao evento.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Íntegra da entrevista de Dom Fellay ao Die Presse

- Como vai o diálogo entre a FSSPX e Roma, que criou tanta confusão em janeiro?

Foram esclarecidas as ideias no início de junho. A decisão do Papa sobre o esquema dos colóquios será anunciado dentro de poucos dias. É verdade que uma comissão especial será constituída para a discussão, com alguns teólogos de Roma e alguns de nossos padres.

- Qual é o escopo desta reaproximação: uma estrutura especial para vós em um pequeno nicho, ou então uma mudança fundamental na Igreja, segundo Vossa Excelência?

Boa pergunta: quem ou o quê deveria ser mudado? Está enganado, naturalmente, quem pretendesse que a Igreja inteira deva mudar. Nós não somos o grande inimigo. A nossa situação, ao invés, é comparável a um termômetro que mostra a febre em um corpo. O fato é que existe um problema a ser resolvido. E não é um problema nosso, mas de liderança na Igreja. A Igreja sofre uma crise séria, e Roma quer tratá-la tão brandamente que a doença se desenvolve e não se vê mais o fim da crise. Nós propomos medidas que poderiam ajudar.

- Há dois pontos de conflito: de uma parte a vossa tese, o depósito da Fé está geralmente em perigo, e a vossa recusa de documentos específicos do Concílio Vaticano II. Desejais que Roma retire ou modifique tais documentos, ou é possível um acordo do tipo: “estamos de acordo de que não estejais de acordo”?

A confusão atual vem em larga medida de uma crise cultural do mundo e não apenas da Igreja: uma crise de pensamento, da filosofia. Alguns aspectos da crise, de alguma maneira, tomaram forma concreta no Concílio. Nós vemos algumas causas da crise no Concílio. Roma deveria preparar-se para esclarecer, porque existem muitas interpretações do Concílio Vaticano. O que exatamente deveríamos reconhecer? Cada teólogo interpreta os documentos de modo diverso. O Santo Padre já condenou devidamente a interpretação do Concílio como descontinuidade ou ruptura com o passado. Mas 80% dos bispos e dos teólogos desejam esta fratura. Nesta matéria, não somos nós o problema.

- Vós refutais não apenas certas interpretações mas também alguns documentos conciliares em si mesmos, quando se trata de liberdade religiosa e respeito pelas outras religiões.

Um exemplo. A declaração sobre a colegialidade dos bispos (Lumen Gentium) que foi inclusive corrigida durante o Concílio pelo Papa Paulo VI... O texto conciliar pode ser interpretado em um sentido católico com um texto que o Papa emanou, a chamada ‘Nota praevia’ (Paulo VI estabeleceu que os bispos podem conduzir a Igreja, como colégio, somente ‘sob e com o Papa’). Infelizmente alguns leem o Concílio sem a ‘Nota praevia’.

- Uma ‘Nota praevia’ papal sobre estas duas declarações disputadas satisfaria ao vosso pedido?

Não podemos ditar o que e como a Igreja pensa. Jamais foi esta nossa ideia. Nós dizemos: a Igreja até o momento ensinou assim, e agora surge algo que não é claro. Pedimos este esclarecimento.

- Outra principal questão espinhosa entre vós e Roma é o Rito Tridentino. Vista a reautorização do Papa para este rito, isto foi em parte resolvido. É o bastante para vós, ou esperais ainda algo mais?

Estou certo de que se chegará a algo mais no futuro. Não por nós, mas pela própria Roma a situação litúrgica vai melhorar. Chegará.

- O Papa facilmente adaptou o velho rito, por exemplo para uma revisão da oração da Sexta-feira Santa pelos Judeus. Rezais a velha versão?

Sim, rezamos a velha.

Seria possível para vós seguir o Papa e introduzir a nova oração?

Sim, seria possível. Como disse o Papa, não contradiz a fé. É mais um problema contra a história, também pela atitude do fiel. A oração de Sexta-feira Santa é uma das mais antigas orações que possuímos.

- Para uma reconciliação com Roma, provavelmente seria necessário dar alguma declaração de lealdade. Podeis dá-la mesmo se a Igreja não volte a vestir-se em todos os pontos com os antigos hábitos prévios ao Vaticano II?

Em vez eu diria: se os princípios católicos forem esclarecidos, ainda que nem tudo seja resolvido, então é possível. Há uma questão muito prática, que aparece evidente: como seremos aceitos? Há uma restrição muito forte. No momento isto impede de avançarmos. Se virmos muita oposição diremos, então, simplesmente: esperemos um pouco mais.

- Um ponto atual de litígio é o anúncio da FSSPX das ordenações de 3 padres em 27 de junho em Zaitskofen na Alemanha. Muitos veem isto como uma provocação a Roma e ao Papa, cuja mão estendida teria sido rejeitada.

Desagrada-me que isto seja visto como uma provocação. Estas ordenações têm sido feitas todos os anos durante 30 anos da mesma maneira. Quando falamos com Roma sobre as excomunhões etc., jamais foi aventado que estas ordenações não devessem mais acontecer. Para nós é uma questão de vida, como respirar, temos necessidade destes padres.

- Tudo não pode depender destas três ordenações. Não teria sido prudente suspender as ordenações para melhorar o clima?

O problema é apenas na Alemanha. Em Roma há simpatia por estas ordenações, mesmo se dizem que é ilegal e não está de acordo com o Direito Canônico. Disseram-nos que estamos em um estado intermediário no qual podemos falar de paz, no qual Roma pode também observar-nos. Nada teríamos contra, se Roma desejasse mandar-nos um observador. Nós já nos oferecemos, mas talvez não com bastante clareza.

- Vós vos surpreendestes que Roma não tenha pôsto condições para revogar a excomunhão?

Não, realmente. Visa a uma reaproximação. Isto só pode acontecer por meio de pequenos passos, em razão de todas as feridas e do que aconteceu. Neste sentido, o gesto do Papa, que aceitamos com gratidão, tinha também o intuito de melhorar o clima. Da nossa parte há abertura, mas de modo algum para mudar o nosso trabalho.

Com a revogação da excomunhão, o Papa foi frequentemente comparado ao pai que repreende o filho pródigo que volta cheio de remorso. Assim se sucedeu, ou não vos vedes como filhos pródigos arrependidos?

Sim, sim, mas jamais naquela direção. Havíamos solicitado estes colóquios, e o pedido foi aceito. Desagrada-nos que alguns procurem sabotá-los, com seu costumeiro ódio.

- Por que não fazer as ordenações sacerdotais em outro lugar? A reação áspera dos bispos alemães era previsível.

Neste ponto vê-se que há má fé. Podemos fazer aquilo que se deseja e ainda somos a ovelha negra. Esta é a minha impressão. A um certo ponto dizemos que não faremos outra mudança. Deveis compreender.

- Não reconheceis, pois, qualquer repúdio ao Papa nos vossos atos?

Esta seria uma interpretação errônea dos fatos. Este não é um ato hostil, escrevi ao Papa e lhe pedi, deveria considerar estas ordenações não como um ato de rebelião, mas um passo de sobrevivência em circunstâncias complexas e difíceis.

- Independente de como Vossa Excelência deseje interpretar as ordenações, o Papa foi pôsto numa situação desagradável.

Compreendo-o bem. Esta situação é desagradável para todos. Permita-me repetir: este problema vem das diferentes correntes na Igreja, que também elas podem dificilmente suportar. Este problema, enfim, pode ser resolvido apenas pelo Papa. Mas nem ao menos estou seguro de que poderá jamais ser resolvido.

- O que faz agora Dom Williamson?

Está em Londres. Reza, estuda, nada mais.

- Há um fim previsível para seu exílio interno?

Eu não o vejo. Toda a questão depende dele.

- Vossa Excelência desejaria um maior distanciamento de sua negação do holocausto?

Se uma declaração como aquela se repetisse, então seria intolerável.

Fonte: Die Presse (original em alemão); Messa in latino (em italiano);

Tradução do italiano: OBLATVS

domingo, 21 de junho de 2009

Arcebispo italiano orienta liturgia dos neocatecumenais

No início do ano, o Arcebispo de Taranto, Dom Benigno Papa, publicou um Decreto contendo algumas normas relativas à liturgia da Santa Missa dos grupos Neocatecumenais. Fides et Forma disponibilizou o supracitado documento.

Alguns perguntarão se outras normas litúrgicas, além das rubricas existentes, são mesmo necessárias. Lamentavelmente algumas rubricas são ambíguas e deixam demasiado espaço para a criatividade do sacerdote; outras, embora claras, são desobedecidas. As disposições gerais parecem não ser suficientes para certos grupos eclesiais, os quais insistem em seus próprios “estilos celebrativos”.

A vigilância episcopal é imprescindível para garantir a catolicidade da vida litúrgica nas Igrejas particulares. Tal vigilância se estende, a fortiori, aos “novos movimentos” que atuam nas mesmas. O papel de moderador da vida litúrgica da diocese não significa que os bispos possam restringir os legítimos direitos garantidos pela lei litúrgica universal, como despoticamente alguns o têm feito.

Traduzo e comento as disposições de Dom Benigno Papa.

“Art. 1 – Lugar e Hora da Celebração. A unicidade do altar.

§1.1 A celebração da Eucaristia Dominical, que ocorre depois das Primeiras Vésperas de Domingo, na qual tomam parte as pequenas comunidades do Caminho, deverá desenvolver-se nas Igrejas Paroquiais ou nos lugares de culto nos quais tem lugar a vida ordinária da pequena comunidade. São proibidas as celebrações nos lugares de atividade pastoral (cf. can. 932 § 1);

Esta norma não tem valor absoluto. O direito particular prevê exceções em que a Santa Missa pode ser celebrada em outros lugares adequadamente preparados ou mesmo ao ar livre. A presente norma se dirige às pequenas comunidades que rejeitam os lugares de culto por considerarem as disposições do espaço sagrado inadequadas às suas práticas litúrgicas, como veremos mais claramente abaixo.

§1.2 Tal Celebração é preparada e animada, sob a guia do presbítero, pela comunidade do Caminho (cf. Estatuto art. 13 § 4). Deverá, todavia, acontecer com a igreja aberta, permitindo a livre participação de todos os fiéis. Para tanto deverá se limitar ao tempo compreendido entre 20h30min e 22h, sem adiamentos ulteriores. O presbítero ou os responsáveis pela comunidade façam tudo de acordo com o pároco ou responsável pela igreja;

Nenhuma Missa é propriedade de um determinado grupo, por isso a proibição de fechar a porta da igreja, quando isto significa excluir a participação dos “não-iniciados”. O mesmo vale para um horário mais acessível. Mesmo não sendo o celebrante, estão salvaguardados o direito e o dever do pároco ou do responsável pela igreja (administradores paroquiais ou reitores) de zelar pela vida litúrgica paroquial.

§1.3 O Sacrifício Eucarístico será celebrado sobre o único altar dedicado ou abençoado (cf. can 932 § 2) e, na nave, não se podem usar mesas como altares, a fim de que os presentes sentem-se em torno da mesa. Seja salvaguardado o sinal litúrgico da unicidade do altar para significar a unicidade de Cristo, Mediador e Salvador, e a unidade de seu Corpo místico;

Fica mais claro o motivo do § 1.1, ou seja, a exclusão de espaços sagrados incompatíveis com uma “nova” concepção do Santo Sacrifício, que é reduzido à noção de banquete. A justificativa da norma me parece inadequada. A proibição devia remeter à exata doutrina eucarística e não a uma simples simbologia litúrgica de formulação duvidosa. Curiosamente, para a aplicação da simbologia do “altar único” aos demais lugares de culto, deveriam ser eliminados os altares “versus populum” construídos nas antigas igrejas.

§1.4 A disposição dos ministros e dos fiéis deve, pois, manifestar a variedade e a diferença ministerial no interior da Celebração. No presbitério tomarão lugar os sacerdotes concelebrantes ou assistentes em hábito litúrgico, os diáconos e os ministros em hábito litúrgico próprio. A assembleia, ao invés, tem como lugar próprio a nave, fora do presbitério, ao qual os fiéis acedem unicamente para o cumprimento dos serviços ministeriais;

A norma reflete uma realidade própria da Missa de Paulo VI, na qual se admite aos fiéis a possibilidade de aceder ao presbitério para fazer as Leituras e Preces, levar as oferendas ou desempenhar outros serviços litúrgicos especiais.

Art. 2 – A mediação da Palavra no interior da Celebração Eucarística.

§2.1 As intervenções de comentário (introduções, monições, didascálias) à Liturgia (cf. IGMR III, 105, 128), em sua parte estrutural e na Liturgia da Palavra, em especial, devem ser ‘simples, fiéis ao texto, breves, bem preparadas e combinando com o texto ao qual devem servir como introdução’ (OLM 15);

As monições não são desconhecidas da tradição litúrgica da Igreja, mas se tornaram excessivas na maioria das Missas. Não há como negar o ‘palavrório’ que invadiu as Missas: comentários escritos ou improvisados, católicos ou heréticos, de natureza religiosa ou política; anúncio de bingos ou prestação de contas, homenagens ou parabéns a aniversariantes; explicações oportunas ou reclamações inoportunas.

§2.2 As intervenções de testemunho e as chamadas ‘ressonâncias à Palavra’ são reservadas à Celebração semanal da Palavra (cf. Estatuto, art. 11 § 2);

As citações do estatuto demonstram a preocupação do arcebispo em salvaguardar os direitos garantidos aos ‘neocatecumenais’ pela Santa Sé. Os testemunhos e as ‘ressonâncias’ foram excluídos da Missa e autorizados nas ‘Celebrações da Palavra’. Isto me leva a crer que outros Estatutos, diferentemente do que eu julgava, devam conter certas prescrições litúrgicas e, talvez (talvez, talvez, talvez) por isso, não sejam divulgados.

§2.3 No interior da Liturgia da Palavra na Celebração Eucarística, depois do Evangelho, a única palavra de explicação da Escritura é a homilia reservada ao sacerdote presidente ou, em alguns casos particulares, ao sacerdote concelebrante ou ao diácono (cf. can. 767 § 1; 772 § 2; Instrução interdicasterial ‘Ecclesiae de mysterio’ de 15/08/1997, art. 3 § 1).

A compreensão equivocada do lugar da ‘Liturgia da Palavra’ na Santa Missa não é um privilégio dos neocatecumenais. Pela ênfase e excesso tem-se a impressão de que foi colocada no mesmo patamar da Santíssima Eucaristia.

Art. 3 – A Liturgia Eucarística

§3.1 Uma vez que é função própria do diácono, ajudado pelo acólito ou ministrante, preparar a mesa do altar para o ofertório, não se consente a qualquer fiel da assembleia desempenhar este serviço;

Rubrica assaz conhecida!

§3.2 A fim de oferecer aos fiéis um mais rico nutrimento espiritual, através do variado patrimônio eucológico da Igreja, o sacerdote celebrante dará atenção à utilização de todas as Orações Eucarísticas presentes no Missal Romano (cf. Carta da Congregação para o Culto Divino e a disciplina dos Sacramentos aos responsáveis pelo Caminho Neocatecumenal, prot. 2520/03/ de 1º de dezembro de 2005, n. 6);

A razão desta norma, que não recebeu o peso das anteriores (‘dará atenção’), é a recusa prática dos neocatecumenais em utilizar certas Orações Eucarísticas (especificamente o Cânon Romano) consideradas teologicamente inadequadas. Parece-me perfeitamente possível, canônica e liturgicamente, a utilização exclusiva de uma única oração eucarística, especialmente se ela goza do testemunho dos séculos, caso do Cânon Romano. Não há lei litúrgica que imponha a utilização desta ou daquela.

§3.3 Para a recepção da Santa Comunhão, sejam aplicadas as normas dos livros litúrgicos, levando em conta o quanto foi expresso no Estatuto (art. 13 § 3). Assim o sacerdote celebrante comunga por si mesmo o Corpo e Sangue do Senhor e, ajudado pelo diácono ou pelo acólito ou pelo ministro extraordinário, distribui a Comunhão Eucarística ‘sub utraque’ aos presentes, os quais, se a colocação dos assentos o permite, permanecem em seu lugar, em pé, de outro modo formam a procissão para a Comunhão.

Os neocatecumenais abusivamente recebiam a comunhão sentados em seus lugares. Isto foi proibido pela Santa Sé, embora se lhes tenha concedido recebê-la de pé em seus próprios lugares.

O conhecimento de outros estatutos seria muito útil, não acham?

sábado, 20 de junho de 2009

Catedrais (XI)

Cathedral of Saint Peter
Diocese of Belleville / Illinois 

Cathedral of Holy Name
Archdiocese of Chicago 

Cathedral of Saint Raymond Nonnatus
Diocese of Joliet / Illinois

Cathedral of Mar Thoma Shleeha
Eparchy of Saint Thomas the Apostle of Chicago / Illinois
Syro-Malabar Catholic Church 

Cathedral of Saint Nicholas
Eparchy of Chicago / Illinois
Ukranian Catholic Church

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Inaugurado o Ano Sacerdotal


Inaugurado com a Oração de Vésperas da Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus o Ano Sacerdotal por Sua Santidade o Papa Bento XVI.

Acesse a página oficial do Ano Sacerdotal.

ORAÇÃO PARA O ANO SACERDOTAL

Senhor Jesus,

Vós quisestes dar a Igreja, em São João Maria Vianney, uma imagem vivente e uma personificação da caridade pastoral.

Ajudai-nos a viver bem este Ano Sacerdotal, em sua companhia e com o seu exemplo.

Fazei que, a exemplo do Santo Cura D’Ars, possamos aprender como estar felizes e com dignidade diante do Santíssimo Sacramento, como seja simples e quotidiana a vossa Palavra que nos ensina, como seja terno o amor com o qual acolheu os pecadores arrependidos, como seja consolador o abandono confiante à vossa Santíssima Mãe Imaculada e como seja necessária a luta vigilante e fiel contra o Maligno.

Fazei, ó Senhor Jesus que, com o exemplo do Cura D’Ars, os nossos jovens possam sempre mais aprender o quanto seja necessário, humilde e glorioso, o ministério sacerdotal que quereis confiar àqueles que se abrem ao vosso chamado.

Fazei que também em nossas comunidades, tal como aconteceu em Ars, se realizem as mesmas maravilhas de graça que fazeis acontecer quando um sacerdote sabe “colocar amor na sua paróquia”.

Fazei que as nossas famílias cristãs saibam descobrir na Igreja a própria casa, na qual os vossos ministros possam ser sempre encontrados, e saibam fazê-la bela como uma igreja.

Fazei que a caridade dos nossos pastores anime e acenda a caridade de todos os fiéis, de tal modo que todos os carismas, doados pelo Espírito Santo, possam ser acolhidos e valorizados.

Mas, sobretudo, ó Senhor Jesus, concedei-nos o ardor e a verdade do coração, para que possamos dirigir-nos ao vosso Pai Celeste, fazendo nossas as mesmas palavras de São João Maria Vianney:

Eu Vos amo, meu Deus, e o meu único desejo é amar-Vos até o último suspiro da minha vida.


Eu Vos amo, Deus infinitamente amável, e prefiro morrer amando-Vos a viver um só instante sem Vos amar.

Eu Vos amo, Senhor, e a única graça que Vos peço é a de amar-Vos eternamente.

Eu Vos amo, meu Deus, e desejo o céu para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente.

Eu Vos amo, meu Deus infinitamente bom, e temo o inferno porque lá não haverá nunca a consolação de Vos amar.

Meu Deus, se a minha língua não Vos pode dizer a todo o momento que Vos amo, quero que o meu coração Vo-lo repita cada vez que respiro.

Meu Deus, concedei-me a graça de sofrer amando-Vos e de Vos amar sofrendo.

Eu Vos amo, meu divino Salvador, porque fostes crucificado por mim e porque me tendes aqui em baixo crucificado por Vós.

Meu Deus, concedei-me a graça de morrer amando-Vos e de saber que Vos amo.

Meu Deus, à medida que me aproximo do meu fim, concedei-me a graça de aumentar e aperfeiçoar o meu amor.

Amém.


S. João Maria Vianney

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Carta do Papa para a proclamação de um Ano Sacerdotal

Amados irmãos no sacerdócio,


Na próxima solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, sexta-feira 19 de Junho de 2009 – dia dedicado tradicionalmente à oração pela santificação do clero – tenho em mente proclamar oficialmente um «Ano Sacerdotal» por ocasião do 150.º aniversário do «
dies natalis» de João Maria Vianney, o Santo Patrono de todos os párocos do mundo.1 Tal ano, que pretende contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo, terminará na mesma solenidade de 2010. «O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus»: costumava dizer o Santo Cura d’Ars.2 Esta tocante afirmação permite-nos, antes de mais nada, evocar com ternura e gratidão o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a própria humanidade. Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, a vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência. Como não sublinhar as suas fadigas apostólicas, o seu serviço incansável e escondido, a sua caridade tendencialmente universal? E que dizer da fidelidade corajosa de tantos sacerdotes que, não obstante dificuldades e incompreensões, continuam fiéis à sua vocação: a de «amigos de Cristo», por Ele de modo particular chamados, escolhidos e enviados?

Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio acto de levar o viático a um doente grave. Depois repasso na memória os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a expressão utilizada pelo Santo Cura d’Ars evoca também o Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto leva o pensamento a deter-se nas inumeráveis situações de sofrimento em que se encontram imersos muitos sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da dor na multiplicidade das suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes ofendidos na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?

Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente deploradas, em que é a própria Igreja a sofrer pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí advém então para o mundo motivo de escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode recavar de tais casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e pelas almas, de directores espirituais esclarecidos e pacientes. A este respeito, os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina».3Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia».4 E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu».5 Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecónomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».6

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: «Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós». Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a sua ternura salvífica: «[Meu Deus], concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!»: foi com esta oração que começou a sua missão.7 E, à conversão da sua paróquia, dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado. Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o método pastoral de S. João Maria Vianney. A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a sua acção salvífica era e é expressão do seu «Eu filial» que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objectiva do ministério e a subjectiva do ministro. O Cura d’Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo «habitar», mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: «Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá»: lê-se na primeira biografia.8

O exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer o facto de que o Santo Cura soube também «habitar» activamente em todo o território da sua paróquia: visitava sistematicamente os doentes e as famílias; organizava missões populares e festas dos Santos Patronos; recolhia e administrava dinheiro para as suas obras sócio-caritativas e missionárias; embelezava a sua igreja e dotava-a de alfaias sagradas; ocupava-se das órfãs da «Providence» (um instituto fundado por ele) e das suas educadoras; tinha a peito a instrução das crianças; fundava confrarias e chamava os leigos para colaborar com ele.

O seu exemplo induz-me a evidenciar os espaços de colaboração que é imperioso estender cada vez mais aos fiéis leigos, com os quais os presbíteros formam um único povo sacerdotal9 e no meio dos quais, em virtude do sacerdócio ministerial, se encontram «para os levar todos à unidade, “amando-se uns aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros por mais dignos” (Rm 12, 10)».10 Neste contexto, há que recordar o caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano II aos presbíteros para que «reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da actividade humana, para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os sinais dos tempos».11

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia.12«Para rezar bem – explicava-lhes o Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a melhor oração».13 E exortava: «Vinde à comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com Ele».14«É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!».15 Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a comunhão adquiria um eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia afirmava que «não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. (...) Contemplava a Hóstia amorosamente».16 Dizia ele: «Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas são obra de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus».17 Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: «A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse um coisa ordinária!».18E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: «Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!».19

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por um único movimento interior – do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este sacramento. Na França, no tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística. Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado «o grande hospital das almas».20«A graça que ele obtinha [para a conversão dos pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem lhes deixar um momento de trégua!»: diz o primeiro biógrafo.21 E assim o pensava o Santo Cura d’Ars, quando afirmava: «Não é o pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele».22«Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura por todo o lado».23

Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente estas palavras que ele colocava na boca de Cristo: «Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita».24 Do Santo Cura d’Ars, nós, sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível confiança no sacramento da Penitência que nos instigue a colocá-lo no centro das nossas preocupações pastorais, mas também o método do «diálogo de salvação» que nele se deve realizar. O Cura d’Ars tinha maneiras diversas de comportar-se segundo os vários penitentes. Quem vinha ao seu confessionário atraído por uma íntima e humilde necessidade do perdão de Deus, encontrava nele o encorajamento para mergulhar na «torrente da misericórdia divina» que, no seu ímpeto, tudo arrasta e depura. E se aparecia alguém angustiado com o pensamento da sua debilidade e inconstância, temeroso por futuras quedas, o Cura d’Ars revelava-lhe o segredo de Deus com um discurso de comovente beleza: «O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que voltareis a pecar e todavia perdoa-vos. Como é grande o amor do nosso Deus, que vai até ao ponto de esquecer voluntariamente o futuro, só para poder perdoar-nos!».25 Diversamente, a quem se acusava de forma tíbia e quase indiferente, expunha, através das suas próprias lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão «abominável» fosse aquele comportamento. «Choro, porque vós não chorais»:26 exclamava ele. «Se ao menos o Senhor não fosse assim tão bom! Mas é assim bom! Só um bárbaro poderia comportar-se assim diante de um Pai tão bom!».27 Fazia brotar o arrependimento no coração dos tíbios, forçando-os a verem com os próprios olhos o sofrimento de Deus, causado pelos pecados, quase «encarnado» no rosto do padre que os atendia de confissão. Entretanto a quem se apresentava já desejoso e capaz de uma vida espiritual mais profunda, abria-lhe de par em par as profundidades do amor, explicando a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na sua presença: «Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus. (...) Como é belo!»28E ensinava-lhes a rezar assim: «Meu Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto quanto é possível que eu Vos ame!».29

No seu tempo, o Cura d’Ars soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor. Também hoje é urgente igual anúncio e testemunho da verdade do Amor: Deus caritas est (1 Jo 4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu Jesus, João Maria Vianney sabia instruir o seu povo, ainda que frequentemente suspirava convencido da sua pessoal inaptidão a ponto de ter desejado diversas vezes subtrair-se às responsabilidades do ministério paroquial de que se sentia indigno. Mas, com exemplar obediência, ficou sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão apostólica pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à própria vocação e missão por meio de uma severa ascese: «Para nós, párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é entorpecer-se a alma»,30 entendendo, com isso, o perigo de o pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em que vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns, punha freio ao corpo, para evitar que opusesse resistência à sua alma sacerdotal. E não se esquivava a mortificar-se a si mesmo para bem das almas que lhe estavam confiadas e para contribuir para a expiação dos muitos pecados ouvidos em confissão. Explicava a um colega sacerdote: «Dir-vos-ei qual é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência pequena e o resto faço-o eu no lugar deles».31 Independentemente das penitências concretas a que se sujeitava o Cura d’Ars, continua válido para todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de Cristo e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o «alto preço» da redenção.

No mundo actual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e acção, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico. Observou, justamente, Paulo VI que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas».32 Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: «Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?».33 Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.34

Foi precisamente a adesão sem reservas a este «novo estilo de vida» que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d’Ars. O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri primordia – publicada em 1959, centenário da morte de S. João Maria Vianney –, apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial ao tema dos «três conselhos evangélicos», considerados necessários também para os presbíteros: «Embora, para alcançar esta santidade de vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da santificação cristã».35 O Cura d’Ars soube viver os «conselhos evangélicos» segundo modalidades apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, a sua pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre: embora manejasse com muito dinheiro (dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua «Providence»,36 as suas famílias mais indigentes. Por isso, ele «era rico para dar aos outros e era muito pobre para si mesmo».37 Explicava: «O meu segredo é simples: dar tudo e não guardar nada».38 Quando se encontrava com as mãos vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: «Hoje sou pobre como vós, sou um dos vossos».39 Deste modo pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade: «Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamar-me quando quiser!».40 Também a sua castidade era aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis. Dele se dizia que «a castidade brilhava no seu olhar», e os fiéis apercebiam-se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o com os olhos de um enamorado.41 Também a obediência de S. João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o desejo que tinha de fugir «para chorar a sua pobre vida, na solidão».42 Somente a obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si próprio e aos seus fiéis explicava: «Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido».43 A regra de ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta: «Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus».44

No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja, através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas Comunidades. «O Espírito é multiforme nos seus dons. (…) Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e segundo formas precedentemente inimagináveis (…); mas demonstra-nos também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único Corpo».45 A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais altos».46 Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar «um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo».47 Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobis do Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical «forma comunitária» e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo.48É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efectiva e afectiva.49 Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho.

O Ano Paulino, que está a chegar ao fim, encaminha o nosso pensamento também para o Apóstolo das nações, em quem refulge aos nossos olhos um modelo esplêndido de sacerdote, totalmente «doado» ao seu ministério. «O amor de Cristo nos impele – escrevia ele –, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram» (2 Cor 5, 14). E acrescenta: Ele «morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor 5, 15). Que programa melhor do que este poderia ser proposto a um sacerdote empenhado a avançar pela estrada da perfeição cristã?

Amados sacerdotes, a celebração dos cento e cinquenta anos da morte de S. João Maria Vianney (1859) segue-se imediatamente às celebrações há pouco encerradas dos cento e cinquenta anos das aparições de Lourdes (1858). Já em 1959, o Beato Papa João XXIII anotara: «Pouco antes que o Cura d’Ars concluísse a sua longa carreira cheia de méritos, a Virgem Imaculada aparecera, noutra região da França, a uma menina humilde e pura para lhe transmitir uma mensagem de oração e penitência, cuja imensa ressonância espiritual há um século que é bem conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de Massabielle. Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma vivíssima devoção, ele que, em 1836, tinha consagrado a sua paróquia a Maria concebida sem pecado e havia de acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854».50 O Santo Cura d’Ars sempre recordava aos seus fiéis que «Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo que nos podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe».51

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a acção do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre actual a palavra de Cristo aos seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro. Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo actual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.

Com a minha bênção.

Vaticano, 16 de Junho de 2009.

BENEDICTUS PP.XVI

Fonte: Santa Sé

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