"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Progressismo - Cardeal Siri - Parte IV

6. Tanto quanto possível acolher todas as várias filosofias e familiarizar-se com elas.

Outro apanágio que assegura a tão desejada classificação de “progressista”. Um princípio decantado de todos os modos pelo progressismo é o de acolher todo o pensamento como sendo fluente, procurar adequar a ele a mensagem cristã e, se necessário, fazer segundo ele, como que, uma reinterpretação da revelação divina.   

Quem não consente com este ponto de vista é um conservador inveterado, um velho rude inútil, em quem nenhuma pessoa culta acreditará mais.

Apresentamos o fato de forma absolutamente crua; muitos, que gostam de ser progressistas, do ponto de vista do gênero, gostam de apresentá-lo em doses variáveis, até mesmo homeopáticas, o que lhes permite sempre uma tempestiva retirada estratégica.

Tenhamos bem em mente este modo de agir.

- O pensamento humano muda, diz-se. Melhor: muda o pensamento acadêmico segundo os ídolos do momento. Fora da profissão filosófica e intelectual etiquetada, continua a viver bem ou mal o bom senso. É verdadeiro, porém, que os instrumentos da cultura se orientam segundo os ditames da moda e assim influenciam muitos espíritos e muitos acontecimentos, como acontece no nosso tempo com os métodos hegeliano e freudiano, ainda que os seus autores sejam desconhecidos para muitos e sejam, ademais, mortos.

- Aceitar qualquer pensamento humano, frequentemente contraditório, significa algo mais que mudar a cabeça, mas, sobretudo significa não acreditar na existência da verdade. Se esta hoje é branca, amanhã é negra, quer dizer que não existe. A consequência lógica é patente: se se deve ajustar sempre a Palavra de Deus a este cenário cambiante, se aceita que não existe a verdade, a Revelação, Deus. A consequência é tremenda, mas não lhe escapa. O mesmo vale para a reinterpretação do dogma.

O progressismo que aceita o relativismo. Que coisa pode mais defender na fé? Tudo é destruído. Não heresia, mas já apostasia!

Com tudo isso não se exclui, de fato, que as diversas e contraditórias manifestações do pensamento possam ter qualquer parte ou aspecto imune à sua lógica interna destrutiva e, portanto, aceitável; que tais aspectos cheguem a ser iluminados, que tais estímulos sejam aferentes. Tanto menos se exclui que a mensagem evangélica seja apresentada de modo compreensível aos homens do próprio tempo, usando com a devida cautela a sua linguagem e os seus meios expressivos.

O parentesco entre o progressismo e o relativismo, ou seja, o modernismo condenado, é um parentesco por demais vergonhoso para se gloriar.

7. A recusa da apologética.

Estamos sempre na bagagem que autoriza a ser progressista.

As premissas da Fé (apologética) não se demonstram mais. A razão? Já foi dita e deriva logicamente de suas premissas: vimos que o progressismo aceita o relativismo (mesmo quando o desmente, nos seus cultores mais pávidos e menos explícitos). Vimos que para este não existe verdade objetiva. Devemos deduzir que a questão da Fé é uma mera questão de fé devocional, insuflada pelo sentimento (modernismo); o que há, pois, para se demonstrar? Nada.

De fato, no campo bíblico se põe em dúvida ou o texto ou o significado que a Igreja (Magistério) sempre lhe atribuiu, se põe em dúvida a historicidade dos Evangelhos, da Ressurreição de Cristo... Não é preciso demonstrar estas coisas. A Fé vai bem e é professada; é inútil buscar os elementos de prova.

Não vale que nenhum livro histórico da antiguidade tenha demonstrações de crítica externa e interna, as têm os livros da Bíblia. Estas coisas não servem mais.

Vimos e veremos a toda hora tantas pessoas voltarem-se para Deus, somente porque é possível dar uma demonstração científica, por exemplo, do evangelho de Mateus. Mas é preciso renegar também esta honesta capacidade que o Evangelho de Mateus – como os outros – tem de se fazer preceder pela mais rigorosa documentação da sua autenticidade. Isto é o progressismo.

Muitos anos atrás não conseguíamos entender porque um escritor de não muito peso não queria ouvir falar de “apologética”; agora entendemos. Mas não que ele o soubesse, não era capaz de tanto; era manobrado por quem, em silêncio, o sabia.

Muitos, que na mais perfeita boa fé, deram uma certa ordenação nova às matérias teológicas a serem estudadas, ordenação com a qual jamais consentimos, não sabiam que cumpriam um comando do modernismo latente sob as cinzas.

O silêncio, de fato, sobre a apologética, que se percebe em toda parte, o estupor sincero da parte de quem sempre considera necessária a apologética, o ato de fingir ignorar o seguimento lógico dos “porquês” da mente dos homens, indica até que ponto entrou o modernismo também em homens retos e honestos.

Observando-se bem e, sobretudo, deixando de lado a erudição inútil, usando a própria mente, e se verá que todo o progressismo está eivado de modernismo. Talvez a recusa da apologética seja a manifestação mais reveladora. Citar, sim; raciocinar, não! Porque a razão e o seu valor não pode ser acolhida pelo modernista. É necessário algo mais para compreendê-lo?

8. A reabilitação dos heréticos.

Aqui está a largueza de coração do progressismo.

Já recordamos no n. 3 a ideia brilhante de quem propôs a canonização de Lutero. Mas há outro: os atingidos pelos anátemas do passado granjearam uma notável simpatia e têm muitos advogados de defesa, ou pelo menos em busca de atenuantes. Giordano Bruno, por exemplo, em certas revistas, ressurge das cinzas com fôlego para dizer “me fizestes esperar quatro séculos, mas consegui”. Os escritos dos autores protestantes, de deveriam estar no Index, em força do cânon 1399 (CIC 1917), são citados habitualmente no lugar de Santo Agostinho e de Santo Tomás. A euforia mais entusiasta acolhe todos aqueles que foram atingidos por censuras canônicas, antes como hoje, merecidas.

Mas tudo isto é normal?

Os filhos que elogiam em casa aqueles que causaram a ruína dos pais, que estão alinhados com os perseguidores dos próprios pais, se chamam “degenerados”.

Evidentemente a capacidade lógica para distinguir entre a instituição divina da Igreja e os homens que a conduzem fazem toda a falta.

Mas o entendimento subjacente não é mais tão invisível. São exaltadas as pretensas vítimas do magistério eclesiástico, para atingir o magistério eclesiástico; são engrandecidos os destruidores da disciplina eclesiástica para humilhar a Hierarquia, que tutela a própria disciplina. Aos heréticos e aos rebeldes aconselharemos a não confiarem muito em tais tortos amigos.

Muitos erros são afirmados, defendidos, divulgados, não tanto por si mesmos, mas somente para desprezar alguém. Eles são simplesmente a desculpa para as mais infantis paixões humanas.

Tudo dá caldo e, elogiando um pouco os rebeldes, apoiando um pouco os desgarrados, remexendo as coisas de modo próprio, se consumam as vinganças, se manifestam as invejas, se tornam conhecidos os desapontamentos daqueles que creem não ter podido “chegar”;sobretudo, na grande feira, fazem como lhes agrada. Os piores!

Ainda há condenações, certamente, mas existem, em via histórica, para aqueles que no passado trabalharam duro e fizeram o seu dever e para aqueles que hoje, dando-se conta da confusão e do regresso espiritual, desejariam deter suas causas.

Dir-se-ia que os Santos pertencem ao passado e os heréticos ao futuro: é um perigoso paradoxo.

Continua...

O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri [in «Rivista Diocesana Genovese», janeiro de 1975, pp. 22-36]

Fonte: Pontifex

Tradução: OBLATVS

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Boff ataca novamente

Como eu previ, o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação foi o palco usado por Leonardo Boff para suas diatribes contra o Santo Padre. Aguardo um mea culpa do L’Osservatore Romano pela sua cobertura deste evento ignominioso. Um mea culpa ao Pontífice e aos leitores fiéis do quase sempre excelente jornal.

Não tenho ganas de traduzir as bobagens ditas por Boff, mas podem ler no Blog do Padre Z a matéria original da ANSA (em italiano).

O sumário feito pelo Padre Zuhlsdorf das últimas idiotices do ex-católico:

- A concessão da remissão (das excomunhões) é surpreendente, até mesmo escandalosa!

- É parte do ponto de vista conservador do Papa que está se distanciando do Vaticano II.

- O Papa tenta criar uma unidade mono-política na Igreja que não é aberta ao diálogo.

- Ele foi condenado pela sua teologia quando Ratzinger era Prefeito da CDF e agora esta!

- O Papa está tentando revisar o Concílio.

- Não foi uma medida pastoral (retirada das excomunhões). Um pastor deve ser mais prudente.

- Ele está enfraquecendo um consenso criado em torno do Concílio.

- Ele defendeu, porém, o Papa na questão de Williamson, que é uma voz isolada, sem importância fora de seu próprio mundo fundamentalista.

- Williamson não deveria ter impacto na Igreja, exceto pelo que lhe dá a mídia.

- Ele gosta do Presidente Obama e acha que o Presidente Bush deveria ser condenado por crimes de guerra.

- Blá, Blá, Blá. 

Acrescento apenas que, na entrevista, Boff faz mais uma ameaça de cisma dos católicos "progressistas". 

Entrevista exclusiva do Arcebispo Raymond Burke

Por Hillary White, correspondente em Roma

Roma, 28 de janeiro de 2009 (LifeSiteNews.com) – Um documento dos Bispos Católicos dos EUA é parcialmente culpado pela desconsideração dos ensinamentos católicos pró-vida pelos eleitores católicos e pela eleição do “presidente mais pró-aborto” na história dos EUA, disse numa entrevista ao LifeSiteNews.com um dos mais importantes oficiais do Vaticano.

O arcebispo Dom Raymond Burke, prefeito da Signatura Apostólica, mencionou um documento sobre a eleição preparado pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA que, segundo ele, “produziu confusão” entre os fiéis e conduziu, em última instância, ao apoio maciço dos católicos a Barack Obama.

O documento dos bispos americanos, Forming Consciences for Faithful Citizenship, ensina que, em certas circunstâncias, um católico poderia em boa consciência votar em um candidato que apóia o aborto motivado por “outras graves razões”, desde que ele (o eleitor católico) não pretenda apoiar aquela posição pró-aborto.

Dom Burke, Arcebispo-Emérito de Saint Louis, Missouri, e recentemente nomeado chefe da mais alta corte eclesiástica da Igreja Católica, disse ao LifeSiteNews.com que, embora “tenha havido um grande número de bispos que se pronunciaram clara e firmemente, houve outros que não o fizeram”.

Porém mais prejudicial, ele disse, foi o documento Faithful Citizenship que “produziu confusão” entre os eleitores católicos.

“Ao mesmo tempo em que ensina que a questão da vida era o primeiro e mais importante dos temas, entrou em certas áreas específicas para dizer ‘mas há outras questões’ que são de importância comparável, sem fazer as distinções necessárias”.

Dom Burke, citando um artigo de Mons. Kevin McMahon (sacerdote e especialista em ética da arquidiocese de Saint Louis), chamou sua proposta “um tipo de pensamento falso, que diz ‘é mal eliminar a vida de um ser humano inocente e indefeso, mas há outros males e eles são dignos de igual consideração’. Mas eles não são. A situação econômica, ou a oposição à guerra no Iraque, ou o que quer que seja, coisas que não estão no mesmo nível de algo que é mau sempre e em toda parte, ou seja, o assassinato de vida humana inocente e indefesa”.

O arcebispo Dom Burke também citou o trabalho da agência oficial de notícias da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, objeto da reclamação de muitos observadores pró-vida devido ao seu tratamento quase complacente com a oposição do recém-eleito presidente à moralidade tradicional.

“Os bispos precisam também estar atentos ao nosso Catholic News Service (CNS), precisam rever sua cobertura de todo o processo e dar alguma nova direção, no meu julgamento”, disse Dom Burke.


Corajosa tomada de posição de um bispo contra uma Conferência episcopal. Podemos atribuir às palavras de Dom Burke o pensamento de alguém mais importante. Faz tempo, desde a época em que presidia a CDF, o Papa Bento XVI se irrita com a conferência americana. Embora sua configuração esteja mudando, nela ainda predominam os bispos liberais. Espanta ainda o poder desproporcional da conferência americana, pois com 16 cardeais nos seus quadros têm o dobro da CNBB. Não digo com isso que nossa conferência esteja em melhor situação, embora também aqui os sinais de mudança já começam a ser percebidos. Vejamos se haverá um cardeal brasileiro em Roma ou na pátria com a mesma coragem quando se avizinharem as eleições de 2010.

Fonte: LifeSiteNews.com

Tradução: OBLATVS

Anglicanos Tradicionais estão para ser recebidos na Igreja Católica

“Endireitando as linhas tortas da Reforma” é o título de um artigo do site australiano The Record. Segundo Anthony Barich, Roma está para receber os 400 mil fiéis da Traditional Anglican Communion (TAC).

Ainda segundo o jornal online, a Congregação para a Doutrina da Fé, dicastério que trata da questão, recomendou que fosse criada uma Prelazia Pessoal para os féis da Comunhão Anglicana Tradicional, caso as conversações cheguem a bom termo. Em outubro passado, o caso da TAC avançou alguns passos com a decisão da CDF de não recomendar a criação de um rito anglicano distinto, mas sim uma prelazia pessoal, com seus fiéis e clero próprios. A recepção dos anglicanos tradicionais poderia ser anunciada logo após a Páscoa deste ano.

O primaz da TAC, “arcebispo” John Hepworth, disse ao The Record que informou à Santa Sé que pretende levar todos os “bispos” da TAC a Roma para a beatificação do Cardeal Newman. O que causa estranheza na declaração do “arcebispo” é que ainda não há notícias acerca de uma beatificação iminente de Newman.

Em abril de 2007, Hepworth escreveu pessoalmente a Bento XVI informando-o de um encontro de “bispos” da TAC em que eles unanimemente assinariam uma cópia do Catecismo da Igreja Católica, como sinal de sua decisão de chegar à plena comunhão com a Igreja Católica.

Um dos maiores obstáculos para a Santa Sé é a situação dos bispos da TAC, muitos dos quais são casados. Nem a Igreja Católica, nem os ortodoxos permitem bispos casados. Os “bispos” anglicanos que se convertem ao catolicismo são, em geral, ordenados padres, uma vez que a Igreja Católica não reconhece a validade das “ordens anglicanas”. A Igreja Católica admite, obviamente, a possibilidade de conferir o sacerdócio a homens casados, mesmo no rito latino, quando estes são convertidos oriundos do protestantismo. Em 1980, o Papa João Paulo II chegou a criar uma Provisão Pastoral (Pastoral Provision) para receber o clero e fiéis da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, com um “rito” próprio, clero casado e paróquias pessoais. Mas entre eles não há bispos.

O caso mais notório é o do “bispo” anglicano de Londres, Graham Leonard, convertido ao catolicismo em 23 de abril de 1994 e, posteriormente, ordenado sacerdote católico. O Papa João Paulo II conferiu-lhe o título de Prelado de Honra, em 2000. Mons. Leonard e sua esposa têm dois filhos.

Li em outras reportagens que alguns “bispos” da TAC estariam dispostos a renunciar ao episcopado se isto lhes fosse exigido pela Santa Sé. Não será uma decisão fácil, assim como outras mudanças necessárias, tanto para o clero quanto para os fiéis.

A TAC não impôs pré-condições em suas tratativas com Roma, mas decidiu submeter-se de antemão às decisões que a Santa Sé viesse a tomar. Tal atitude humilde não deixou, certamente, de encontrar acolhida no coração do Papa. Quando ainda Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI iniciou as conversações com os “bispos” da TAC. Foram estes “bispos” que sabiamente preferiram a CDF e seu cardeal-prefeito ao Conselho para o Ecumenismo do cardeal Kasper.

Leia ainda:

Healing the Reformation fault lines , The Record, 29/01/2009

Para entender melhor , do site da TAC, em inglês (PDF)

Entrevista com Mons. Leonard sobre sua conversão , em inglês

Pastoral Provision , site oficial em inglês

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Entrevista com o Cardeal Cañizares

Chamo a atenção para a entrevista do novo Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Antonio Cañizares Llovera, na edição de hoje do L’Osservatore Romano (aqui, em italiano).

Certamente estará disponível, em breve, a tradução em espanhol ou em português, nos excelentes blogues listados em OBLATVS.

Empenhar-me-ei para fazer a tradução portuguesa, se tiver tempo, ainda hoje à noite. Devo ir ter com minha mãe que se submeterá a uma cirurgia oncológica, para quem peço missas e orações.

Atualização
Nossos amigos de La Buhardilla de Jerónimo já têm uma tradução em espanhol.

L'Osservatore Romano tem outro pileque

O jornal do Papa volta a noticiar o Fórum Social Mundial que se realiza em Belém do Pará, de 23 a 28 de janeiro. Desta vez ninguém assinou a matéria laudatória, e na falta de assinatura a ponho na conta do editor. Não há mal algum em noticiar um evento de abrangência mundial, o problema está em tecer loas a um evento de natureza nitidamente marxista.

Não perderei meu tempo traduzindo o infeliz artigo, mas para que todos saibam que o responsável reincidente não é inocente, faço duas pequenas observações.

No primeiro parágrafo, o autor faz referência ao Fórum Mundial de Teologia e Libertação que aconteceu na mesma cidade, dos dias 21 a 25 de janeiro. Numa recente publicação teci algumas considerações sobre o evento e seus participantes, e mesmo não sendo leitor do OBLATVS, devo supor que o editor do L’Osservatore tenha ciência daqueles fatos.

A matéria elenca os Chefes de Estado que confirmaram presença: Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, Evo Morales da Bolívia, Hugo Chávez da Venezuela, Rafael Correa Delgado do Equador e Fernando Lugo do Paraguai.  Só faltou Barack Hussein Obama para completar a constelação das estrelas vermelhas. Uma simples consulta ao episcopado daqueles países, excetuada a CNBB, seria o suficiente para saber que os excelentíssimos senhores não receberiam dos bispos sequer uma carta de recomendação de trabalho.

Lamento, uma vez mais, que o a autoridade do jornal sirva para legitimar dois eventos que, por sua natureza, se opõem à razão e à fé católica.

Leia ainda:

Al Forum sociale di Belém  - le Chiese per um mondo più equo , L’Osservatore Romano, 28/01/2009, matéria em questão (em italiano).

Solidariedade ao Cardeal Urosa Sabino , OBLATVS, 1º/01/2009, para entender a situação na Venezuela.

L’Osservatore tem ressaca de Réveillon , OBLATVS, 1º/01/2009, a 1ª matéria laudatória do jornal ao FSM.

III Fórum Mundial de Teologia e Libertação , OBLATVS, 3/01/2009, para conhecer a natureza da “teologia” e da “libertação” do fórum.

Segue a Carta de Princípios do tal Fórum de "teologia" em português, inglês, francês e espanhol:

Carta de princípios do FMTL

Charter of principles of the WFTL

Charte de principes du FMTL

Carta de principios del FMTL

Teologia Bolivariana e Marxista de Juan Tamayo , OBLATVS, 3/01/2009, “animador” do Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que na companhia de Leonardo Boff terá muito a dizer sobre o Papa Bento XVI.

Evo Morales ataca a Igreja , OBLATVS, 6/01/2009, para entender a situação na Bolívia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Entrevista do Patriarca Kirill

Entrevista com o então Metropolita Kirill, Patriarca-eleito de Moscou e de toda a Rússia, dada ao L’Osservatore Romano em 1º de novembro de 2007.

 

“É o tempo do degelo”

por Giampaolo Mattei

 

“O grande frio não existe mais, é o tempo do degelo” que prepara e anuncia a primavera. É com tons de grande esperança que o Metropolita Kirill, presidente do departamento para as relações eclesiásticas externas do patriarcado de Moscou, comenta a nomeação do novo arcebispo católico de Moscou, o italiano Paolo Pezzi, que sábado, 27 de outubro, recebeu a ordenação episcopal. Diz o metropolita: “Na oração desejo que juntos possamos contribuir para superar as dificuldades que infelizmente existem ainda hoje entre católicos e ortodoxos na Rússia”. Eis a entrevista com Kirill, 61 anos, metropolita de Smolensk e Kaliningrad, segunda autoridade do patriarcado ortodoxo de Moscou.

Como a Igreja ortodoxa russa acolheu a nomeação do novo arcebispo da Mãe de Deus em Moscou?

Em primeiro lugar desejo repetir as elevadas palavras que o patriarca dirigiu, na sua mensagem oficial, a Mons. Pezzi, por ocasião de sua ordenação episcopal. Palavras fraternas. O patriarca desejou que a obediência a Bento XVI, que o novo arcebispo é chamado a exercer em um país como a Rússia, onde convivem mais denominações cristãs, ocorra em uma continuidade de diálogo.

Concretamente o que significa?

É bastante evidente que a Igreja católica e a Igreja ortodoxa russa têm sempre maior consciência de serem aliadas no que diz respeito a muitíssimos problemas que hoje interpelam a humanidade. Também por esta razão se cria, eu diria, naturalmente uma certa solidariedade nas relações recíprocas, seja a nível de organizações internacionais, seja no diálogo com o mundo secularizado. E é ainda mais claro que todos assistimos a uma dinâmica sempre mais positiva nestas relações, tendo em conta que, como cristãos, temos os mesmos valores espirituais e morais sobre os quais não existem certamente divisões ou incompreensões.

A respeito da realidade da Rússia, quais são as expectativas depois da nomeação do novo arcebispo católico?

Aquilo que mais devo dizer, o que está mais está no meu coração, é um auspício, uma grande esperança: que os católicos russos vivam sempre em paz com os ortodoxos russos. Juntos podemos e devemos fraternalmente colaborar. Estou convencido que também a longa experiência pessoal realizada, neste campo, pelo novo arcebispo Paolo Pezzi seja de grandíssima ajuda para um futuro melhor nas nossas relações recíprocas. Ele conheceu muito bem, nestes anos, a realidade da Igreja ortodoxa, no seu íntimo, se assim se pode dizer.

Foi significativa a presença de um representante da Igreja ortodoxa russa na celebração da ordenação episcopal de Mons. Pezzi.

É verdade, desejamos que na celebração da ordenação episcopal de Mons. Pezzi a Igreja ortodoxa russa fosse representada pelo meu primeiro e direto colaborador, que levou a mensagem de congratulação do Patriarca Alexy e também minha mensagem pessoal. Foi seguramente um dia de festa para todos os cristãos da Rússia.

Nós conhecemos muito bem o serviço desenvolvido por Mons. Pezzi no nosso país. Conhecemos sua formação sacerdotal e espiritual. Apreciamos muito tudo aquilo que ele fez e estamos muito felizes por termos já colaborado com ele. Juntos encontraremos novos caminhos de diálogo e colaboração. Penso em seu trabalho como docente e reitor do seminário e também em seu serviço cultural, onde demonstrou querer dialogar com todos.


Tradução: OBLATVS

Novo Patriarca de Moscou

O Papa e o novo Patriarca de Moscou

A Igreja Ortodoxa Russa elegeu Kirill, Metropolita de Smolensk e Kaliningrad, como sucessor do Patriarca Aleksy II, falecido em dezembro passado. O novo Patriarca, 62 anos, era o diretor do departamento de relações exteriores do patriarcado, e nesta condição manteve contatos frequentes com o Papa Bento XVI. Dele se espera uma atitude mais positiva nos contatos com a Igreja Católica.

Ele venceu a eleição com 508 votos do Concílio, colégio eleitoral formado pelos bispos, monges, clérigos e leigos. O segundo votado, Metropolita Kliment, obteve 169 votos.

“Tendo recebido de vossas mãos esta manifestação da vontade de Deus, suplico indulgência para minhas fraquezas. Peço-vos que me ajudeis com vosso sábio conselho. Peço que estejais ao meu lado enquanto eu desempenhar minhas obrigações de patriarca. Mas, acima de qualquer coisa, peço vossas orações”, disse o novo Patriarca.

Será entronizado no dia 1º de fevereiro como 16º Patriarca de Moscou e de toda a Rússia.

O Método de Santo Tomás de Aquino


O método de São Tomás de Aquino

Se se trata da verdade não importa quem a diz

de Inos Biffi 

Não raramente se ouve afirmar que Tomás de Aquino foi um modelo de diálogo com as culturas de seu tempo. E é verdade, mas antes seria necessário precisar – o que não se faz quase nunca – o que se entende por diálogo. A palavra diálogo é repetida hoje até a exaustão para os campos mais variados, mas se a deixa habitualmente na vaga de um significado genérico, onde frequentemente uma obviedade improdutiva corre o risco de se aproximar da banalidade.

Mas voltemos a Tomás de Aquino. Ele entrou certamente em contato com a cultura do seu tempo, representada especialmente por Aristóteles que já se encontrava – como diria Congar – na sua terceira entrada no Ocidente, a do conteúdo, depois da entrada relativa a Logica vetus, com Boécio, e a Logica nova.

O comentário, mesmo analítico, às obras do filósofo não é seguramente uma iniciativa original de Tomás, mas é surpreendente que ele, “mestre na Sagrada Página”, tenha dedicado tanto tempo e empenho à análise dos textos aristotélicos. Ou talvez melhor, não surpreende, se se tem presente que o seu estudo particularizado tinha como escopo o de colocar a verdade que colhia nele a serviço de sua profissão de teólogo e, portanto, a serviço da sacra doctrina.

Esta sua atividade de comentador – que não se limitava a Aristóteles, ele comentou também o Liber de causis, do qual pôs em relevo a matriz platônica – não passava, em todo caso, sem a atenção e a estima dos mestres da Faculdade de artes. Quando Tomás partiu de Paris na primavera de 1272, prometeu a estes que haveria de lhes enviar alguns comentários de obras filosóficas, e eles de fato lhe recordaram e os solicitavam, juntamente com as relíquias de Tomás, em uma carta de maio de 1274 ao capítulo geral de Lião.

Mas, além destas anotações históricas, é esclarecedor destacar o método de Tomás no diálogo com a cultura do seu tempo. Antes de mais nada, se nota o princípio fundamental de sua pesquisa ou de sua “ética mental”, expresso nestes termos e por ele atribuído a Santo Ambrósio: “No princípio de toda verdade, quem quer que seja que a professe, está o Espírito Santo” (omne verum, a quocumque dicatur a Spiritu sancto est)" (Super evangelium Joannis, cap. 1, lectio 3). Ao Angélico importa a verdade, não a sua proveniência, e lá onde esta esteja presente recebe dele todo o seu reconhecimento. E é exatamente isto que ele procurava em Aristóteles: a verdade, embora bem consciente do quanto, sem a Revelação, mesmo as mentes mais elevadas devessem trabalhar duro para encontrar qual fosse o fim último do homem: satis apparet quantam angustiam patiebantur hinc inde eorum praeclara ingenia (Summa contra gentiles, 3, 48). 

Tomás tinha uma confiança absoluta na verdade, a ponto de afirmar no Comentário ao livro de Jó (13,19), que a “verdade não varia segundo a diversidade das pessoas, razão pela qual, quando alguém diz a verdade, qualquer que seja a pessoa com a qual disputa, não pode ser vencido” (veritas ex diversitate personarum non variatur, unde cum aliquis veritatem loquitur vinci non potest cum quocumque disputet), mesmo quando se trata de Deus.

Com esta sua sensibilidade não surpreende que, quando comenta um autor, não lhe importa tanto a reconstrução histórica – na medida, entretanto em que lhe fosse possível – quanto o esforço para que, segundo a objetiva coerência aos seus próprios princípios, venha a alcançar a verdade.

Assim, mais ou menos consciente disto, acontece quando ele analisa as obras de Aristóteles. Não faltaram, de fato, críticas à sua exegese concernente à fidelidade ao texto do filósofo. De fato, no seu diálogo com ele sobre esta fidelidade textual prevalece a verificação com a verdade. Por outro lado, ele teorizou de certo modo o seu método dialógico.

No De caelo et mundo afirma: “O estudo da filosofia não visa a conhecer o que os homens pensaram, mas qual seja a verdade” (studium philosophiae non est ad hoc quod sciatur quid homines senserint, sed qualiter se habeat veritas rerum)" (i, 22, 8). Ora, este primeiro momento, dedicado ao conhecimento do pensamento humano e que poderíamos chamar de pesquisa histórica, não só não falta mas está largamente presente em Tomás, e o prova a sua vasta e contínua atenção cultural também em campo profano, e em primeiro lugar na área da cultura aristotélica, sem falar de outros autores de quem conhece o pensamente e o utilizou, entre outros Boécio, Avicena, Averróis, Maimônides.

Este primeiro momento, porém, não lhe é suficiente. Tomás visa, como método, a ultrapassá-lo, e o faz no segundo momento do seu itinerário científico, quando se dedica a indagar a intenção objetiva – a intentio profundior – que anima a expressão de um autor e que a ela subjaz, para além da consciência do próprio autor. Ele se empenha, assim, a “perscrutar com maior profundidade a intenção de Agostinho” (profundius intentionem Augustini scrutemur) (De spiritualibus creaturis, 10, 8).

Sobre a relação entre expressão e intenção, particularmente aplicada a Santo Tomás, e sobre o atraso da primeira em relação à segunda, dedicou-se com singular refinamento André Hayen, jesuíta de Lovaina, um dos mais agudos intérpretes do Angélico, cujas obras conservam intacto o seu valor. E, todavia, também esta segunda etapa não basta a Santo Tomás. Em ambos os textos citados, ele afirma que não importam nem a história nem a intenção profunda: o estudo da filosofia deve ter como seu fim não o conhecimento do que os filósofos escreveram, mas qual seja a veritas rerum; e no que concerne a Agostinho, o ponto de chegada não é saber qual foi sua intenção, mas uma vez ainda o que é verdadeiro: quomodo se habeat veritas circa hoc.

Nenhuma dúvida que Santo Tomás tenha transcorrido a sua vida laboriosa de teólogo em diálogo cultural, mas não por um simples conhecer-se recíproco, por um admirar-se recíproco ou para simplesmente agir como historiador, mas sim com o espírito crítico e exigente de quem se propõe a discernir o verdadeiro do falso e a atingir a meta libertadora da verdade: daquela mesma verdade que os princípios de um autor incluíam, mesmo que estes incoerentemente se detivessem como se diante de uma passagem interrompida. Tal método, indubitavelmente, não poderia ser praticado por quem fosse indiferente ao discurso da verdade, ao qual Tomás era sensibilíssimo, e que unicamente ao fim lhe interessava.

Voltando, em particular, aos seus comentários a Aristóteles, está fora de dúvidas que ele excedeu o texto do filósofo, que o prolongou. A Tomás não importava por si mesma a “reconstrução historicamente exata do pensamento de Aristóteles” (Jean-Pierre Torrell), razão pela qual fez o filósofo dizer coisas que o mesmo “não havia sequer pensado”. Mas é próprio do perfil desta intenção, deste amor audaz pela verdade que Tomás não cessa de ser um modelo de um diálogo que não se resigna a ser estéril e vazio.

Em todo caso, é graças a este seu método que ele pode deixar uma admirável suma de teologia, onde se inclui uma “verdadeira” filosofia – historicamente e não historicamente aristotélica – de certo modo transfigurada pela fé, mais que sua “serva” e não por isto menos filosofia.

Que é pois a função própria de todo aquele que, como ele, deseja ser “mestre em Sagrada Página”: ler, interpretar e propor integralmente o Mistério, na sua verdade e na sua beleza, que podem aparecer somente ao crente, e não se desesperar diante dos fins inconclusivos.

Fonte: L’Osservatore Romano

Tradução: OBLATVS
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