"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mártires japoneses

Na edição de hoje do L’Osservatore Romano (original em italiano), o arcebispo de Nagasaki revela a alegria pela beatificação dos mártires japoneses e a triste realidade da atual decadência da Igreja japonesa: cai o número de católicos e de vocações sacerdotais.

 Um fator destacado pelo arcebispo: o bem-estar social trouxe queda de natalidade. Certemente não é a única causa.

 

Entrevista com o Arcebispo de Nagasaki Dom Joseph Mitsuaki Takami 

O Japão e o precioso tesouro dos mártires

por Francesco Ricupero

 Mais de trinta mil pessoas, desafiando a chuva e um vento gélido, participaram domingo passado da solene beatificação, presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para a Causa dos Santos, de 188 católicos japoneses, entre sacerdotes, religiosos e leigos, mortos entre 1603 e 1639 por causa de sua fé. “24 de novembro – fala ao L’Osservatore Romano Dom Joseph Mitsuaki Takami, arcebispo de Nagasaki – foi um dia de festa e de grande envolvimento emotivo para a Igreja no Japão. Um evento de extraordinária importância e de autêntica e infinita graça. A beatificação dos 188 mártires japoneses poderá ser uma ocasião para dar testemunho do amor de Deus e redescobrir a importância da fé”.

 Dom Takami, como a Igreja japonesa e particularmente a sua diocese vêem este importante evento?

 A comunidade cristã japonesa tem um profundo respeito e uma piedosa veneração pelos 188 mártires, 44 deles provenientes da diocese de Nagasaki. A população se sentiu envolvida pelas numerosas iniciativas da nossa diocese. Foram organizadas peregrinações, apresentados estudos e pesquisas sobre a vida dos mártires, organizada uma importante mostra sobre o passado deles em duas igrejas de Nagasaki. Não apenas, mas também as autoridades civis e alguns museus da cidade dedicaram uma interessante exposição de obras de arte. E ainda mais, houve um envolvimento das crianças, as quais fizeram desenhos e composições de cunho religioso.

Quantos cristãos sofreram o martírio no País do Sol Poente?

 Muitos. Para ser preciso, vinte e seis mártires em 1597 foram beatificados pelo Papa Urbano VIII e duas diferentes ocasiões, em 1627 e em 1629. Todos juntos foram canonizados pelo Papa Pio IX em 1862. Duzentos e cinqüenta pessoas, que sofreram o martírio entre 1617 e 1632, foram beatificadas pelo Papa Pio IX em 1867, enquanto 16 religiosos pertencentes à ordem dos dominicanos foram martirizados em Nishizaka e Nagasaki entre 1632 e 1637, beatificados em 1981 e canonizados em 1987 pelo servo do Deus João Paulo II. Entre 1868 e 1945, o cristianismo no Japão – que teve início exatamente em Nagasaki – cresceu e se desenvolveu muito graças aos missionários franceses e sucessivamente a outros missionários e congregações católicas, mas foi por força de coisas relacionadas ao imperialismo e ao militarismo japonês. Imediatamente depois da segunda guerra mundial, houve conversões em massa no Japão, mas em proporção ao desenvolvimento econômico e consumístico, a conversão tornou-se sempre mais lenta, tanto numérica quanto espiritualmente. Numerosas escolas católicas, hospitais e serviços sociais assistenciais tiveram sérias dificuldades para desenvolverem suas atividades, para eles é um grande desafio devido ao número reduzido de sacerdotes e religiosos. A este respeito, a Conferência Episcopal do Japão tomou a iniciativa, na convenção nacional de incentivas à evangelização em 1987 e em 1993, publicando a Doutrina da Igreja Católica e também o catecismo da Igreja, adaptado para o Japão em 2003. E ainda procurou responder às questões sociais publicando mensagens e documentos sobre a vida, a imigração, os direitos humanos, a guerra e a paz; por exemplo, “A Reverência da Vida”.

Segundo V. Exª, dos 188 mártires japoneses o que ficou como marca indelével na história da Igreja no Japão?

 Em particular, Pedro Kibe que foi a pé até Roma, passando pela Índia e Jerusalém, para ser ordenado sacerdote e retornar em 1630 para o Japão, sabendo que ali havia uma perseguição em curso. Nove anos depois foi martirizado em Edo, atual Tóquio. Foram diversas famílias japonesas como a Amasaku de Yonezawa, a Hashimoto de Kyoto ou a Ogasawara que nos transmitiram e ensinaram a importância da educação cristã em família e a unidade da família baseada na fé católica. Gaspar Genka Nishi e sua mulher tiveram um filho, Thomas, que foi canonizado em 1987. O casal Nishi e o seu primogênito foram decapitados. Padre Julian Nakaura, um dos quatro rapazes, o primeiro japonês a ter visitado a Europa e ser ordenado sacerdote, permaneceu no Japão mesmo depois da promulgação da proibição do cristianismo, cuidou dos cristão e foi martirizado. A presença do Cardeal Saraiva Martins foi para nós muito significativa. O purpurado não era conhecido dos japoneses antes da sua visita efetuada faz alguns meses no Japão. O cardeal, antes de presidir a solene celebração de beatificação, teve oportunidade de visitar alguns lugares sagrados de Japão e deu a sua bênção aos jovens que se puseram a cumprir um longo percurso de cinqüenta quilômetros a pé para tomar parte na beatificação dos 188 mártires.

 Quantos são os católicos no Japão e qual é seu envolvimento nas atividades pastorais?

 Os católicos japoneses são cerca de 450.000, enquanto os não japoneses, imigrantes, são pouco mais de 5.000. A população católica de Nagasaki nos últimos quarenta anos tiveram uma leve queda. Na verdade, passaram de 76.000 em 1965 a 65.000 em 2007. Se bem que nas dioceses de Tóquio e Yokohama a população católica tenha aumentado, não podemos considerar um grande crescimento no número de católicos no Japão. Infelizmente, são poucas as crianças nas famílias e os anciãos aumentam sempre mais. O número de batismos diminuiu nos últimos dez anos. Os elementos culturais influem de maneira determinante assim como a queda da natalidade. Certamente devemos intensificar nossos esforços para evangelizar o povo japonês. O arcebispo Shimamoto, meu predecessor, tomou a iniciativa de reorganizar a pastoral diocesana e de preparar a criação de pequenas comunidades cristãs a fim de transformar a arquidiocese de Nagasaki em uma comunidade missionária. Estou procurando levar avante este importante projeto.

Nos últimos anos a crise vocacional tornou-se fonte de preocupação. Quais são os fatores determinantes desta queda e quais são as medidas que a Igreja nipônica está adotando para bloquear este fenômeno?

 De fato, o verdadeiro problema para a Igreja no Japão é a falta de vocações. Muitos sacerdotes de nossas paróquias são vietnamitas, coreanos ou filipinos. Em 1989 em todo o país havia 130 seminaristas menores e 97 maiores, enquanto em 2007 eram apenas 26 seminaristas menores e 76 maiores. Na nossa diocese temos um seminarista menor, o único em todo o Japão, enquanto em 1989 eram 82 seminaristas /menores/ (somente em Nagasaki) e agora são 21 (15 em Nagasaki). Tínhamos 36 seminaristas maiores em 1989, agora são 13. Não podemos esperar um aumento das vocações sacerdotais num futuro próximo, mas esperamos que o interesse suscitado pela beatificação dos mártires possa ajudar a nossa obra de evangelização.

Enchentes em Santa Catarina (e em Campos)

A tragédia que atinge o Estado de Santa Catarina foi notícia na edição de hoje do L’Osservatore Romano (original em italiano). As chuvas têm custado vidas humanas e enormes prejuízos materiais, particularmente aos mais pobres.

No último dia 25, celebramos o martírio de Santa Catarina de Alexandria (ícone acima), padroeira daquele estado. Confiamos à intercessão da megalomártir as vítimas, seus familiares e todos os catarinenses.

Atualização (2/12 às 9:50)

A enchente chegou a Campos, deixando 8.000 desabrigados, principalmente em Ururaí. No município de São Francisco do Itabapoana há desabrigados em Lagoa Feia e sérios riscos para a população que vive às margens do Rio Itabapoana. O Rio Paraíba foi contaminado e toneladas de peixes mortos podem ser vistos nas areias da Praia de Guaxindiba, dificultando a já difícil vida dos pescadores de toda a região.

Estamos rezando pelas vítimas na Novena da Imaculada Conceição e exortando os fiéis a atender às suas necessidades.


 

            Eis a nota do jornal do Papa:

 

Brasília, 27. As enchentes que atingiram o Sul do Brasil, em particular o Estado de Santa Catarina, podem ter provocado mais de cem mortes. Segundo o balanço oficial publicado ontem pela defesa civil brasileira, foram confirmadas 84 vítimas até o momento, mas pelo mais outras 30 pessoas continuam desaparecidas nos soterramentos provocados pelas chuvas que continuam a cair ininterruptamente há seis dias.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ontem sobrevoou os lugares do desastre, em particular sobre o vale de Itajaí, com a cidade de Blumenau, assinou um decreto para alocação de fundos destinados às áreas inundadas. Fontes da presidência especificaram que a cifra alocada é equivalente a mais de 280 milhões de Euros. “O Governo federal fará todos os esforços necessários para reduzir as conseqüências da inundação” afirmou a chefe da casa civil da presidência, Dilma Rousseff.

Os habitantes do Estado de Santa Catarina obrigados a abandonar as próprias casas são mais de 54 mil. Energia elétrica e fornecimento de gás estão suspensos em mais de cem localidades. Muitas cidades e estradas estão inundadas. Sete municípios ainda estão isolados. O exército mandou para Blumenau 500 homens e quatro helicópteros. A cidade – a maioria da população é de origem italiana e alemã – está isolada por via terrestre devido às muitas inundações que atingiram as principais estradas de acesso. Até o principal hospital de Blumenau, o Marieta Konder Bornhausen, teve o primeiro andar inundado e por isso ficando inutilizadas as cozinhas e o estoque de alimentos.

Faz dois meses que a cidade estava repleta de quase um milhão de turistas que participavam da Octoberfest, um evento paralelo à análoga festa da cerveja de Munique na Baviera.


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ecologismo e Pacifismo

As críticas feitas por Messori ao ecologismo e ao pacifismo dos franciscanos podem chocar alguns de meus leitores. Ele derruba o mito de um São Francisco ecologista e pacifista. A verdade é que São Francisco amava a natureza como quem ama a criação de Deus, e não como um servo que fita submissamente sua senhora; era um homem pacífico, promotor da verdadeira paz, e jamais um contemporizador cúmplice e covarde.

Ocorreram-me as palavras de Chesterton, em Ortodoxia:

“Continua a vir-me à mente uma lembrança obstinada: apenas o sobrenatural tem uma visão sã da natureza. A essência de todo panteísmo, do evolucionismo e da moderna religião cósmica está, realmente, nesta afirmação: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente, se olharmos a natureza como mãe, descobriremos que ela é uma madrasta. A questão principal do cristianismo era esta: a Natureza não é nossa mãe; a natureza é nossa irmã. Podemos orgulhar-nos de sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la.”

Chesterton antecipou em décadas o surgimento da loucura ecologista, em sua crítica ao determinismo evolucionista. Dizia jocosa e acertadamente que tratar racionalmente um tigre é “admirar-lhe as listas e evitar-lhe as garras”.

O ecologismo militante é uma idolatria da natureza, da qual o homem se torna escravo. Os atuais ecologistas são, no mais das vezes, contraditórios inimigos da humanidade, fervorosos defensores dos “micos-leões dourados”, os quais julgam familiares dos homens, e promotores do aborto de bebês não-nascidos, nos quais não reconhecem traços de humanidade.

É urgente, entretanto, a fundação de um movimento ecológico cristão. O impacto causado pela intervenção do ser humano sobre a natureza criada precisa ser regulado pelo conceito de “submissão racional” do homem sobre a natureza, para auferir os benefícios que ela pode lhe proporcionar, conforme o plano desenhado por Deus. Não pode exaurir seus recursos em detrimento das gerações futuras. Os cristãos não podem se omitir, devem assumir seu protagonismo como defensores da criação.

São Francisco definitivamente não pode ser padroeiro da ecologia romântica, panteísta ou materialista. Seu respeito pelas criaturas era conseqüência de sua adoração ao Criador.

Ao refletir sobre o pacifismo lembrei-me novamente de Chesterton, afinal “as pessoas não conhecem a fundo o mundo em que vivem e, por essa razão, acreditam cegamente em meia dúzia de máximas cínicas que estão longe de ser a expressão da verdade”.

O atual movimento pacifista de inspiração socialista é cúmplice do genocídio de milhões de pessoas. Na Inglaterra e na França da década de 30, os pacifistas se opunham a uma guerra contra Hitler, mesmo depois que este invadiu a Áustria, a Tchecoslováquia e a Polônia. Os americanos demoraram a admitir a intervenção no conflito europeu, em razão de sua política isolacionista e por instigação do movimento pacifista. Quem hoje, com as lições da história, se oporia à guerra contra Hitler. Há guerras não só legítimas, mas necessárias. Os responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, inclusive dos judeus, são Chamberlain e Daladier e seus pacifistas.

São Francisco não é do tipo pacifista de passeatas, palavras de ordem e campanhas publicitárias. Ele promovia a paz verdadeira, dom do alto e fruto da justiça.

Ecologismo e pacifismo são excentricidades que só impressionam a nós, “pessoas comuns, e não impressionam os excêntricos”. Passatempos que têm custado caro à humanidade, tanto quanto custam as guerras desnecessárias e injustas.

Diálogo inter-religioso: antecedentes criminais

No primeiro ano de seu pontificado, mais precisamente em 19 de novembro de 2005, o Papa Bento XVI determinou algumas modificações no estatuto jurídico das Basílicas de São Francisco e de Santa Maria dos Anjos, em Assis. O Bispo de Assis passa a ter jurisdição sobre as atividades pastorais dos religiosos, que até então gozavam de uma problemática autonomia.

A entrevista de Don Baget Bozo com Vittorio Messori situa-se neste contexto. Segundo o prestigiado escritor, amigo de João Paulo II e de Bento XVI, a decisão foi motivada pela inaceitável autonomia dos franciscanos em relação à Diocese de Assis e pelos abusos cometidos por eles na jornada mundial de oração de 1986. Aqueles eventos traumáticos teriam convencido o então Cardeal Ratzinger da necessidade de medidas corretivas.

O assunto de fundo é o diálogo inter-religioso que, em sentido estrito, foi descartado pelo Papa Bento XVI.


La Stampa, entrevista. 21 de novembro de 2005

“A Igreja tem boa memória”. Joseph Ratzinger tinha contas a acertar com os frades de Assis devido ao encontro inter-religioso de 1986. Agora as coisas estão no seu lugar”.

Vittorio Messori, o escritor italiano mais lido no mundo (único a ter escrito um livro com os últimos dois Papas) revela o que está por trás do “comissariamento” pontifício do Sacro Convento e recorda quando o futuro Bento XVI se indignou com os sacrifícios pagãos realizados sobre o altar de Santa Clara, atrás da cripta gótica que conserva os restos mortais da fundadora da ordem das Clarissas.

Sacrifícios pagãos em Assis?

“Ratzinger não desculpou à comunidade franciscana os excessos da primeira jornada de oração de líderes religiosos com Karol Wojtyla. Uma carnaval, nas palavras de muitos, que forçou a mão do Papa (se refere a decisão de colocar os franciscanos sob a tutela do bispo diocesano de Assis) e foram exatamente os frades que mais se distanciaram dos acordos feitos. Permitiram inclusive aos animistas africanos sacrificar duas galinhas sobre o altar de Santa Clara e aos índios nativos americanos dançar na igreja (no Brasil já estamos habituados). Ratzinger tinha fortíssimas restrições desde o início, não quis ir a Assis e suas reservas limitaram os danos.”

De que maneira?

“Na noite anterior ao encontro poliu o texto do discurso freando João Paulo II. E tornou-se nítido em sua mente que o enclave (todo o conjunto de Assis) franciscano, isento de qualquer ligação com o bispo de Assis, era uma anomalia a ser sanada. Foi limitada e submetida ao pleno controle jurídico da Igreja. A conta, por terem sido cedidas aquelas basílicas cristãs aos cultos pagãos, foi paga 19 anos depois”.

Autonomia excessiva?


“Os frades tinham abusado do assim chamado espírito de Assis. Na realidade eles veneram e difundem um santinho romântico e de derivação protestante, ou seja, o São Francisco do mito, um camponês estúpido que fala com lobos e passarinhos, dá tapinhas nas costas de todos. Uma falsificação popularesca, que lhe corrompe a mensagem. O Francisco da história, na verdade, é o filho mais autêntico da Igreja das cruzadas”.

Não era pacifista?

“Absolutamente, não era. São Francisco participou da quinta cruzada como capelão das tropas, nada de pacifista. Procurou de todas as formas o martírio para reconquistar a Terra Santa e cai em depressão quando os cruzados são derrotados. Não foi até o sultão para dialogar, mas para convertê-lo, e o desafiou a caminhar sobre brasas ardentes para verificar quem fosse mais poderoso, Cristo ou Maomé. E não era nem mesmo “animalista” (falta uma palavra na língua portuguesa para esta classe de defensores românticos de animais). No Cântico das criaturas os animais não são sequer mencionados. E além do mais, de jeito algum era um ecologista! Opõe-se aos seus seguidores que desejavam tornar-se uma comunidade vegetariana”.

Ora, então o Pontífice quer restabelecer a ortodoxia?

“Exatamente. Também em San Giovanni Rotondo (o convento do Padre Pio) tinham subtraído o santuário ao controle da diocese. Agora, tanto ali como em Assis, as iniciativas dos frades estarão de acordo com o episcopado. E é igualmente um bem para o Sacro Convento, assim porão fim à demagogia do politicamente e teologicamente correto. Basta com o engodo de paz, ecologia, ecumenismo e com a pretensão pseudocorajosa, para depois apertar as mãos dos ditadores e violar as Igrejas”. 

O Pontífice “põe ordem”?

“O espírito de Assis não é o que entenderam os frades do Sacro Convento e Joseph Ratzinger está plenamente consciente do colossal erro da jornada mundial de oração de 1986. Tanto que, faz três anos, conseguiu atenuar a conseqüência sincretista do último encontro inter-religioso de Assis. A traição da figura histórica de Francisco foi corrigida. E é desconcertante que até então o bispo de Assis soubesse das iniciativas dos frades apenas pelos jornais”.

É o fim daquela capital mundial do ecumenismo?

“Os Santuários devem se coordenar com os bispos. A intervenção de Ratzinger é inatacável. O Pontífice seguiu o seu estilo, agindo de maneira respeitosa, porque não interfere na vida da ordem religiosa, mas decidida, de modo que sirva de advertência para todos. Não são mais admitidas realidades eclesiais alheias às leis da Igreja. É uma escolha que se inclui plenamente na estratégia pastoral de Bento XVI. Atingirá também a outros. Ninguém pode ser “legibus solutus” (isento da lei).


Fonte: Blog da Rafaela, em italiano



terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Diálogo Inter-religioso é impossível

No dia 23 de novembro, o jornal italiano Corriere della Sera publicou a carta-prefácio do Santo Padre ao livro “Perché dobbiamo dirci cristiani” do Senador Marcello Pera (original). Desnecessário dizer que livro não ganhará uma edição brasileira.

Traduzi a carta e a publico abaixo. O comentário que faço em seguida é apenas uma reflexão inicial. Espero ler o livro o quanto antes e, sobretudo, acompanhar as recorrentes intervenções do Santo Padre sobre a matéria.

 

Caro Senador Pera,

 nestes dias pude ler seu novo livro “Porque devemos nos dizer cristãos”. Foi para mim uma leitura fascinante. Com um conhecimento estupendo das fontes e com uma lógica cogente, o senhor analisa a essência do liberalismo a partir dos seus fundamentos, mostrando que à essência do liberalismo pertence o seu embasamento na imagem cristã de Deus: a sua relação com Deus, da qual o homem é imagem e do qual recebemos o dom da liberdade. Com uma lógica irrefutável o senhor nos faz ver que o liberalismo perde sua base e destrói a si mesmo se abandona este fundamento. Não menos impressionado fiquei pela sua análise da liberdade e pela análise da multiculturalidade, em que o senhor mostra a contradição interna deste conceito e, portanto, sua impossibilidade política e cultural. De importância fundamental é a sua análise do que podem ser a Europa e uma Constituição européia, na qual a Europa não se transforme em uma realidade cosmopolita, mas encontre, a partir de seu fundamento cristão-liberal, a sua própria identidade. Particularmente significativa é para mim também a sua análise dos conceitos de diálogo inter-religioso e intercultural.

 O senhor explica com grande clareza que um diálogo inter-religioso, no sentido estrito da palavra, não é possível, enquanto urge tanto mais o diálogo intercultural que aprofunde as conseqüências culturais da decisão religiosa de fundo. Enquanto sobre esta última um verdadeiro diálogo não é possível sem pôr entre parênteses a própria fé, é necessário enfrentar na seara pública as conseqüências culturais das decisões religiosas de fundo. Que o diálogo e uma mútua correção e um enriquecimento recíproco são possíveis e necessários. Da contribuição acerca do significado de tudo isto para a crise contemporânea da ética, acho importante aquilo que o senhor diz sobre a parábola da ética liberal. O senhor mostra que o liberalismo, sem deixar de ser liberalismo mas, ao contrário, para ser fiel a si mesmo, pode coligar-se com uma doutrina do bem, em particular com a cristã, que lhe é congênere, oferecendo assim verdadeiramente uma contribuição para a superação da crise. Com a sua sóbria racionalidade, sua ampla informação filosófica e a força da sua argumentação, o presente livro é, a meu ver, de fundamental importância nesta hora da Europa e do mundo. Espero que encontre ampla acolhida e ajude a dar ao debate político, além dos problemas urgentes, o aprofundamento sem o qual não poderíamos superar o desafio do nosso momento histórico. Grato pela sua obra, lhe auguro de coração a bênção de Deus.

 Bento XVI

 

O Papa oferece, em poucas palavras, as linhas fundamentais de seu pensamento e indica o caminho que o mundo, especialmente o Ocidente, deve tomar para superar a crise profunda que se lhe abateu.

 Na crítica do conceito de liberalismo, o Pontífice rejeita aquilo que o Magistério já havia rejeitado, mas não se furta a utilizar o termo tal como o considera legítimo, ou seja, radicando-o no próprio conceito cristão de liberdade. O bispo cismático Dom Fellay recentemente chamou o Papa de “um perfeito liberal”, no único sentido que os integristas o conhecem. O Papa, com a mesma autoridade de seus antecessores, em virtude de seu magistério, enxerga possibilidades na reavaliação do conceito. Também nesta linha se situam os recentes discursos acerca da laicidade compatível com a doutrina católica.

 O ponto crucial desta carta-prefácio é a afirmação explícita de que o diálogo inter-religioso, estritamente considerado, é impossível. Afirmar o contrário é por em risco a integridade da fé cristã. A pretensão de extrair benefícios do diálogo, no nível da fé, com as religiões não-cristãs é fruto do relativismo, do agnosticismo e do niilismo de nosso tempo. Por outro lado, pode-se encontrar uma alternativa legítima no diálogo intercultural, possível e necessário num mundo sempre mais globalizado, onde povos de variadas culturas coexistem. Portanto, que ninguém conclua que o Santo Padre está pondo obstáculos ao entendimento e à coexistência entre as civilizações.

 A necessária conseqüência da necessidade de um diálogo intercultural é a condenação do conceito de multiculturalismo, termo tão caro a certos círculos intelectuais. Ele tem sido, na prática, a causa da confusão e da crise de identidade do Ocidente, que já não mais reconhece suas origens fundacionais.

 A Igreja, por seu turno, deve oferecer a mesma verdade que, acolhida na fé, formou outrora uma cultura ocidental que se edificou sobre os escombros do paganismo. Em circunstâncias diversas, como neste início de milênio, é urgente a redescoberta da força criadora e renovadora do cristianismo, sem que tenhamos de voltar às realizações concretas do passado, pois o cristianismo não pode se limitar a alguns tempos e lugares. A fé cristã transcende às várias culturas cristãs realizadas na história da humanidade, e por isso, é sempre uma novidade a ser anunciada aos povos de todos os tempos e lugares. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Catedrais (IV)

 Cathedral of Our Lady of the Angels
Archdiocese of Los Angeles / California

Cathedral of Christ the Light
Diocese of Oakland / California 

Cathedral of Saint Mary of the Assumption
Archdiocese of San Francisco / California


Cathedral of Saint Peter
Eparchy of Our Lady of Lebanon of Los Angeles / California
Maronite Catholic Church

Abusos litúrgicos no...

“O povo, numa falsa interpretação da fé, tinha feito da missa o mais poderoso meio ‘exorcístico-liberatório’ para conseguir, mais rápida e seguramente possível, a libertação própria e a dos outros do sofrimento e de toda forma de tribulação. O clero, por seu lado, sustentava-o nesta busca supersticiosa, inventando e propagando, com narrações de visões e prodígios, séries de missas cada vez mais eficazes para o atendimento de seus desejos.

Deste modo, a celebração como tal, isto é, no seu significado de participação santificadora no mistério de Cristo, tinha perdido o seu real valor; o povo nunca participava dela sacramentalmente e, na maior parte dos casos, nem com uma devota presença de oração.”

“Muitas foram as vozes que se levantaram continuamente na Igreja contra esta situação dolorosa. Mas o povo, na falta de instrução adequada, dificilmente aceitava tais protestos. E muitos do clero não os ouviam, satisfeitos por encontrarem justamente na fé supersticiosa do povo uma base mais ampla para sua subsistência econômica.”

 Errou quem viu no texto acima alguma referência às atuais “missas de cura e libertação”, ou assemelhadas disfarçadas com outros nomes. Qualquer semelhança é mera coincidência. O autor, entusiasta da reforma litúrgica e portanto insuspeito, é o monge beneditino Dom Salvatore Marsili. Os parágrafos acima fazem parte da Coleção Anámnesis (Excurso I, Vol. 3, páginas 98 e 99; Paulus, 1986). Ele conclui o excurso, dizendo:

 “O fato de esta situação ter sido favorável aos protestantes não diminui a sua gravidade, nem deixa de ser sinal – que devia ser considerado como tal – de uma chaga profunda no corpo espiritual da Igreja. Esta chaga o Concílio de Trento era chamado a curar!”

 Dom Marsili descreve, portanto, a situação caótica em que se encontrava a liturgia nos anos que antecederam o Concílio do Trento, e que se assemelha a certas práticas “litúrgicas” atuais. Os defensores destas “adaptações” pastorais alegam que estas seriam uma resposta ao avanço das seitas e que atendem aos legítimos anseios do povo. Nem toda resposta, convenhamos, é a resposta certa; e nem todo anseio do povo é legítimo.

 O herege Loisy dizia que "Jesus anunciou o reino e, em lugar deste, veio a Igreja". Sem querer imitá-lo, somente parafraseando-o, diria que hoje alguns anunciam a renovação mas, em lugar dela, só voltam os velhos abusos.

Recomendo a leitura de um documento do magistério já publicado aqui

Católicos Vietnamitas resistem

“A raposa muda de pêlo, mas não de costumes”. Antiga máxima que encontra sua melhor realização nas táticas usadas pelos comunistas para vencer o Invencível. Recomendo sempre a leitura de Apocalipse 12 aos que se intimidam diante do Dragão. Mas não podemos nos furtar a combatê-lo, especialmente quando ele é menos explícito e mais se parece um “anjinho de luz”, seduzindo os jovens idealistas.
Dê uma lida na notícia abaixo, que traduzi do AsiaNews (original inglês).


Encontro do comitê vietnamita de “católicos governistas” termina em desastre
por J. B. An Dang

O encontro, adiado por três anos, foi anunciado pela imprensa, mas o relatório final deixa de mencionar o número de participantes. O organismo mudou de nome pela terceira vez, mas continua carecendo de apoio entre os fiéis.

Hanói (AsiaNews) – O quinto encontro do Comitê Vietnamita para a Solidariedade dos Católicos (CVSC) foi um fracasso. Este encontro representa a mais recente tentativa do governo vietnamita para criar uma Igreja patriótica ao estilo chinês.
Programado para 2005, após numerosos adiamentos, o CVSC finalmente reuniu-se em Hanói em 19 e 20 de novembro. No relatório da agência de notícias governamental VNA, é alegada a presença de “425 delegados, incluindo 145 padres”. Mas as coisas podem não ter ocorrido exatamente assim, uma vez que o relatório publicado ao fim do encontro pelo VietNamNet, outra agência de notícias estatal, não dá o número de participantes, e afirma que 128 membros foram eleitos, incluindo 74 padres. Estes representariam menos de 3% dos aproximadamente 2.800 sacerdotes vietnamitas.
A tentativa do governo de criar uma Igreja Católica fiel ao partido comunista, e não ao papa, faliu. Um “Comitê de ligação para Católicos Patrióticos e Pacifistas” foi criado em março de 1955. Tinha os mesmos objetivos que os organismos similares estabelecidos para dividir os seguidores das várias religiões, especialmente os budistas, hoje divididos entre a Igreja Budista Vietnamita – uma organização “aprovada” pelo governo – e a Igreja Budista Unificada.
A operação, mesmo naquele tempo, não conseguiu muita coisa, então o governo mudou de tática, tentando erradicar a Igreja ao bloquear a nomeação dos bispos, fechar quase completamente os seminários e confiscar propriedades da Igreja. As coisas pareciam favorecer o regime após a unificação do país em 1975, com o “Comitê para a Solidariedade dos Católicos Vietnamitas” (CSCV), o qual, no início, obteve a participação de muitos católicos. Mas também esta situação reverteu-se devido ao aprisionamento de muitos padres e leigos católicos, começando pelo bispo auxiliar de Saigon, o futuro Cardeal Francis Nguyen Van Thuan, e também devido à chocante celebração religiosa do primeiro congresso do CSCV: os padres eliminaram completamente a oração pelo papa, indicando o posicionamento que levaria à saída dos poucos membros remanescentes.
O destino do CSVC foi selado em 1985, com a admoestação da Santa Sé contra a participação dos clérigos no comitê.
Hoje parece que, ao menos em parte, não há intenção de retornar à prática política de confisco de propriedade e de ataque a bispos e padres.

Saudação de Bento XVI a Aram I

Conforme eu havia publicado, o Catholicós de Cilícia dos Armenos está cumprindo uma visita oficial ao Papa Bento XVI e realizando uma série de encontros de caráter ecumênico.

Trata-se de uma verdadeira Igreja, com verdadeiros sacramentos, que lamentavelmente separou-se da Comunhão Católica no século V. A solidez da tradição apostólica conservou íntegra a fé, a liturgia e a prática cristã do povo armeno. Por esta razão, mesmo passados 1500 anos, são relativamente pequenas as diferenças teológicas, e se pode esperar (como demonstra o Papa em seu discurso) que sejam superadas. Mais difícil é ultrapassar as barreiras humanas, erguidas pelos séculos, em especial a mentalidade cismática multissecular. Mas nada é impossível aos que têm em comum a Santíssima Eucaristia e a devoção profunda à Virgem Maria, Puríssima Mãe de Deus.

O boletim eletrônico da Sala de Imprensa da Santa Sé publicou o discurso do Santo Padre (original em inglês). Minha tradução abaixo:

 Nesta manhã, ao término do encontro na Sala dos Papas, Sua Santidade Bento XVI e Sua Santidade Aram I, Catholicós de Cilícia dos Armenos, presidiram uma Celebração ecumênica na Capela “Redemptoris Mater” do Palácio Apostólico Vaticano.

Publicamos a seguir a saudação que o Papa dirigiu ao Catholicós de Cilícia dos Armenos e à sua Delegação:

 SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE

Santidade,

Com cordial afeição no Senhor, Eu o saúdo e aos distintos membros de sua delegação por ocasião de sua visita à Igreja de Roma. Nosso encontro hodierno dá continuidade à visita que o senhor fez ao meu amado predecessor, Papa João Paulo II, em janeiro de 1997, e a muitos outros contatos e visitas mútuas, os quais, pela graça de Deus, conduziram nos anos recentes a relações mais estreitas entre a Igreja Católica e a Igreja Apostólica Armena.

Neste ano de São Paulo, o senhor visitará o túmulo do Apóstolo dos Gentios e rezará com a comunidade monástica na basílica erguida em sua memória. Nesta oração, o senhor estará unido à grande multidão dos santos e mártires armenos, mestres e teólogos, cujo legado de ensino, santidade e fecundidade missionária são parte do patrimônio de toda a Igreja. Nós pensamos em São Nerses Shnorkhali e São Nerses de Lambon, que como Bispo de Tarso, era conhecido como “segundo Paulo de Tarso”. Aquele testemunho alcançou seu ápice no século vinte, que se mostrou um tempo de indizível sofrimento para seu povo. A fé e devoção do povo armeno tem sido constantemente sustentado pela memória de muitos mártires que deram testemunho do Evangelho ao longo dos séculos. Possa a graça de este testemunho forjar continuamente a cultura de sua nação e inspirar os seguidores de Cristo uma confiança ainda maior no poder salvador e vivificador da Cruz.

A Sé de Cilícia está envolvida em contatos ecumênicos encorajadores e positivos entre as Igrejas. De fato, o diálogo entre as Igrejas Orientais Ortodoxas e a Igreja Católica beneficia-se significativamente da presença dos delegados armênios. Nós devemos ser esperançosos de que este diálogo progredirá, uma vez que ele promete esclarecer questões teológicas que nos dividiram no passado, mas que agora parecem abertas a um maior consenso. Estou confiante de que o atual trabalho da Comissão Internacional – dedicado ao tema: “Natureza, Constituição e Missão da Igreja” – possibilitará que muitas questões específicas de nosso diálogo teológico encontrem seu próprio contexto e resolução.

Certamente o progresso na compreensão, respeito e colaboração que emergiu do diálogo ecumênico promete muito em prol da proclamação do Evangelho em nosso tempo. Ao redor do mundo, os armenos vivem lado a lado com os fiéis da Igreja Católica. Uma compreensão e apreciação aprofundadas da tradição apostólica que compartilhamos contribuirá ainda mais efetivamente para um testemunho comum dos valores morais e espirituais sem os quais uma ordem verdadeiramente humana e justa não pode existir. Por esta razão, acredito que instrumentos novos e práticos serão encontrados para dar expressão às declarações comuns que já assinamos.

Santidade, não posso deixar de garantir-lhe minhas orações diárias e profunda solicitude pelo povo do Líbano e do Oriente Médio. Como não sofrer com as tensões e conflitos que continuam frustrando todos os esforços de reconciliação e paz nos vários níveis da vida civil e política na região? Mais recentemente, todos nós nos entristecemos pela escalada de perseguição e violência contra os cristãos em partes do Oriente Médio e alhures. Apenas quando os países envolvidos podem determinar o próprio destino, e os vários grupos étnicos e comunidades religiosas aceitar e respeitar uns aos outros plenamente, a paz será construída sobre bases sólidas de solidariedade, justiça e respeito aos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos.

Com estes sentimentos e com afeição no Senhor, agradeço a visita de Vossa Santidade, e expresso minha esperança de que estes dias passados em Roma sejam fontes de graça para o senhor e para todos aqueles confiados ao seu cuidado pastoral. Sobre o senhor e todos os fiéis da Igreja Apostólica Armena invoco a abundância da alegria e a paz no Senhor."

sábado, 22 de novembro de 2008

Informações sobre a Armênia

A Armênia se localiza ao sul do Cáucaso, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, fazendo fronteira ao leste com a Turquia. Com uma área de 29.800 Km2 e população de 3.231.000 (área e população similares a do estado de Alagoas), existe como reino desde os anos 600 a.C.

 No ano 301 da nossa era, tornou-se o primeiro país a adotar o cristianismo como religião oficial do Estado (90 anos antes de Teodósio torná-la religião oficial do Império Romano), com a conversão do Rei Tiridates III sob influência de São Gregório, o Iluminador (ícone acima à esquerda).

Durante a I Guerra Mundial, os turcos foram responsáveis pelo massagre de quase 1 milhão de armênios, o que ficou conhecido como Genocídio Armeno, tradicionalmente comemorado em 24 de abril como o Dia do Martírio Armeno.

 Em 1922, a Armênia foi incorporada à União Soviética e somente se libertou do jugo imperialista com a queda do comunismo em 1991, declarando-se independente em 23 de agosto.

 A história do Cristianismo na Armênia remonta aos Apóstolos São Judas Tadeu e São Bartolomeu, considerados os fundadores da Igreja Armena, sendo São Gregório, o Iluminador, apenas o primeiro Catholicós.

 A Igreja Armena rejeitou as decisões do Concílio de Calcedônia (451) que condenou o monofisismo. Entretanto, somente em 554 rompeu oficialmente a comunhão com as Igrejas de Roma e de Constantinopla, configurando o cisma formal.

Os fiéis armenos estão espalhados por todo o mundo, razão pela qual a Igreja conta com jurisdições no Líbano, na Turquia, na Jordânia, nos Estados Unidos e em outros países do Ocidente.

Atual situação eclesial do povo armeno:

 1. Igreja Armena Apostólica 

(não tem comunhão com o Papa)

 Conta com aproximadamente 9 milhões de armênios, a maioria na diáspora. Na Armênia tem a adesão de 95% da população.

 O chefe supremo da Igreja é S. S. Karekim II, Supremo Patriarca e Catholicós de Todos os Armênios, cuja sede é Etchmiadzin, na Armênia.

Karekin II

O segundo hierarca é S. S. Aram I, Catholicós de Cilícia dos Armenos, cuja sede é em Beirute no Líbano. É quem visitará o Papa esta semana.

Aram I

Há uma Diocese da Igreja Apostólica Armena no Brasil, com sede em São Paulo.

2. Igreja Armena Católica 

(em comunhão com o Papa)

 Em 1741, o Papa Bento XIV formalmente estabeleceu a Igreja Armena Católica, após infrutíferas tentativas no passado, com a eleição de Abraham-Pierre I Ardzivian como Patriarca. Desde então, os armênios católicos estão espalhados pela Armênia (apenas 4% da população), Líbano, Síria, Turquia, Estados Unidos e América Latina.

 É governada por Sua Beatitude Nerses Bedros XIX, Catholicós-Patriarca da Cilícia dos Armenos Católicos, com sede em Beiture, no Líbano. Aqui pode ser lida sua intervenção no último Sínodo dos Bispos.


Nerses Bedros XIX

Os armenos católicos no Brasil formam o Exarcado Apostólico da América Latina e México, tendo como Exarca (Bispo), S. Exª Dom Vartan Waldir Boghossian, com sede em São Paulo.

Dom Vartan Boghossian

As duas Igrejas usam o Rito  e língua Armenos e seus costumes litúrgicos são similares aos do Rito Romano.

Visita de Aram I ao Papa

A edição italiana de hoje do L’Osservatore Romano (o jornal do Papa) noticia a visita oficial do Catholicós (lê-se “cassolicós”) armeno ao Papa Bento XVI.

 O Catholicós é o patriarca desta antiga Igreja oriental, separada de Roma e das demais Igrejas ortodoxas desde o Concílio de Calcedônia (451), por divergências cristológicas. Esta venerável Igreja está em cisma com todas as demais Igrejas apostólicas, reconhecendo apenas os três primeiros concílios. Por outro lado, por faltarem aqueles elementos históricos complicadores, tão abundantes nas relações com os demais ortodoxos, a relação entre as Igreja Apostólica Armena e a Igreja Católica é promissora, especialmente tendo sido superada a antiga divergência teológica.

 Abaixo, minha tradução da notícia do L’Osservatore:

 O Catholicós de Cilícia dos Armenos, Aram I, estará em Roma de domingo a quinta-feira (23 a 27 de novembro) para encontrar-se com Bento XVI. Realiza-se pois “mais um importante encontro ecumênico” como explica Mons. Eleuterio Francesco Fortino, subsecretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em uma declaração ao L’Osservatore Romano. “Esta visita oficial ao Papa e à Igreja de Roma – afirma – tende a intensificar as relações com a Igreja armena. Ocorre em um contexto de boas relações, confirmadas também pelas numerosas visitas dos Catholicós (uma imprecisão, pois o plural deveria ser Catholicoi) tanto de Etchmiadzin quanto do Cilícia. O próprio Aram I esteve em Roma de 23 a 26 de janeiro de 1997 para encontrar João Paulo II. É necessário recordar que a  Igreja armena é (canonicamente) dividida em dois Catholicossatos, o de Etchmiadzin e o de Cilícia. Uma divisão devida a motivos históricos, mas todos os armenos constituem uma só Igreja”.

 “O diálogo entre armenos e católicos está atualmente concentrado sobre o tema da comunhão eclesial – explica Mons. Fortino. É um diálogo que caminha lentamente, mas com orientações positivas. Os dois Catholicossatos, de resto, tomam parte no diálogo que a Igreja Católica estabeleceu com as antigas Igrejas ortodoxas do Oriente. Depois que importantes declarações foram atingidas se pode reafirmar que o problema cristológico já foi superado: é a maior aquisição teológico nas relações com estas Igrejas”.

 O programa da visita, Mons. Martino dá detalhes, prevê significativos momentos de oração. Bento XVI e Aram I se encontrarão duas vezes. Às 11h 45min de segunda-feira, 24 de novembro, no Palácio Apostólico, o Papa receberá o Catholicós “com fraternidade e cordialidade”: depois da troca de discursos e de presentes, realizarão uma oração comum na capela Redemptoris Mater. Pouco antes, às 9h 30min, Aram I visitará a Basílica Vaticana, rezará diante do túmulo de João Paulo II e depois diante da estátua de São Gregório, o Iluminador, que se encontra em um nicho externo da basílica. O segundo encontro acontecerá quarta-feira, 26, às 10h 30min, por ocasião da audiência geral.

 Segunda (24) às 17h, Aram I estará na Basílica de São Paulo Fora dos Muros para uma breve liturgia. Terça (25) participará, às 19h 30min, das Vésperas na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, memorial dos mártires do século XX, e de um encontro de oração em Santa Maria no Transtevere.

 No quadro da visita estão previstas conversações com o Cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o secretário, o subsecretário e os oficiais das seções orientais do Dicastério. O Catholicós será ainda recebido pelo Cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado, e pelo Cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso.

Um evento de relevo, ainda, será a visita à Pontifícia Universidade Urbaniana onde, terça-feira às 11h, Aram I proferirá a lectio magistralis (aula magna) sobre o tema: “The Christians in the Middle East” (Os cristãos no Oriente Médio).

 O Catholicós será acompanhado de uma delegação composta de seis arcebispos, dois bispos e três assistentes. Eles são, em particular, os arcebispos do Kuwait e dos Emirados Árabes, do Líbano, de Teerã, de Chipre, dos Estados Unidos da América e do Canadá. Dos vários encontros participará também um grupo de cinqüenta fiéis armênios.

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