"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Lição de Dom Odilão para "oves et boves et universa pecora"

Mais uma lição de Dom Odilão Moura, extraída de seu livro “Idéias Católicas no Brasil” (que também recebi de presente do autor). Não tive o trabalho de transcrever, pois encontrei o trabalho pronto no blog Sal Terrae .

Dom Odilão lança luz sobre dois extremos que se tocam: o progressismo e o tradicionalismo, que ele chama de integrismo. Sinceramente, espero que sirva a jovens bem-intencionados que são orientados por tradicionalistas orgulhosos, os quais não raro se opõem ao Magistério do Papa e, em casos extremos, atribuem a si mesmos um magistério superior ao do Pontífice.

 “A posição integrista assemelha-se à farisaica dos tempos de Cristo. Não se veja, entretanto, neste relacionamento, conotação com a atitude moral dos fariseus, isto é, hipocrisia, mas somente sua posição interpretativa da lei, rígida e ininteligente,

O erro fundamental do integrismo é os seus sequazes não distinguirem entre o que é essencial e o que é acidental na doutrina, na liturgia e na pastoral. Falta-lhes a sensibilidade intelectual para perceber os diversos matizes das realidades espirituais. Aderem à religião sem grande perspicácia - não obstante haver entre eles teólogos de muita cultura e que raciocinam conforme as regras da lógica -, mais por um ato forte da vontade que por penetração intelectual. Por isso, são seguidores superfidelíssimos das normas morais, escrupulosos observadores das leis eclesiásticas, exemplos de vida religiosa mecanicamente vivida, razão por que sem embargo da retíssima intenção que lhes dirige as ações, parecem desumanos, não compassivos, duros, desagradáveis.

O defeito primeiro dos integristas não está na vontade em si, mas na vontade mal orientada por uma inteligência não lúcida. O defeito inicial é da inteligência.

Por isso, o integrismo não distingue entre tradição divina - a Palavra de Deus transmitida aos homens - e tradição eclesiástica, doutrinas teológicas, costumes dos católicos, ritos litúrgicos, etc., de origem humana e transmitida aos católicos. Enquanto a tradição divina é eterna, imutável, da qual o Magistério Eclesiástico é depositário, conservador, intérprete e esclarecedor, a tradição eclesiástica pode ser conservada ou abolida, modificada ou interpretada, e até criada, pelo mesmo Magistério. Entre os fariseus também as “tradições dos homens” identificavam-se com a Lei.

Da indistinção entre o essencial e o acidental, decorrem muitas teses e atitudes que, em geral, são defendidas pelos integristas: a Idade Média é a única civilização adequada ao Evangelho, a monarquia hereditária é o único regime cristão político, a batina é indispensável ao Padre, o celibato é intrínseco ao sacerdócio, a Missa de São Pio V é válida, tudo na sociedade atual é obra do demônio, o latim é a única língua que deve ser usada na Liturgia, os ritos dos sacramentos são imutáveis, o Concílio Vaticano II está carregado de erros, etc. (Destaquei as palavras que distinguem a posição tradicionalista da posição católica, como bem esclarece Dom Odilão)

(…)

Enquanto a atitude integrista é uma defesa pouco inteligente do sagrado, o progressismo é uma libertação tresloucada do mesmo. Naquela, o humano é confundido com o sobrenatural; nesta, o sobrenatural é anulado pelo humano. O imanentismo perpassa todas as idéias progressistas. É o império do Homem. Tudo existe em função do Homem. O próprio Deus. Deus seria uma espécie de assessor do Homem. Realizando-se o Homem no fluxo inflexível do tempo, na História, tudo subordina-se às aspirações e necessidades do Homem: o Dogma, a Liturgia, a estrutura essencial da Igreja, a moral e a própria verdade. O progressismo é, em geral, irenista e eclético.

Reagindo ao formalismo e ao ritualismo existentes em fase anterior à nossa, na Igreja, ao tradicionalismo rotineiro e cego, ao ensino da doutrina compendiada em livros repetidores de fórmulas escolásticas mal assimiladas, ele, na busca de uma libertação de tudo isso, saiu de órbita.

Não se satisfazendo com uma religião destituída de compreensão inteligente, os progressistas, na tentativa de esclarecimentos mais lúcidos para a fé, esquecendo ou desprezando a verdadeira tradição teológica da Igreja, buscam - bem intencionados ou não - as luzes para aquele esclarecimento, nas filosofias e ideologias mais sugestivas no momento, mesmo que elas contradigam a Fé.

O modernismo, que pretendeu explicar a fé pela metafísisa kantiana ou bergsoniana; a nova teologia, que visava encontrar aquela explicação pelas idéias existencialistas; o teilhardismo; as correntes atuais conciliadoras dos princípios cristãos com as elucubrações de Heidegger e com o marxismo - são correntes progressistas.

O progressismo, como o integrismo, deriva de uma corrupção intelectual. Enquanto naquele essa deturpação leva a uma visão limitada da Igreja e das suas exigências, neste, no progressismo, há uma visão exorbitante. Para o progressista, não há normas: nem para o raciocínio, nem para a moral, nem para a sociedade. É o império da arbitrariedade.

As duas correntes - a integrista e a progressista - estão aqui descritas em suas formas puras. Há, certamente, entre essas duas formas opostas e antagônicas de catolicismo disvirtuado, muitas correntes que se aproximam mais ou menos de uma ou de outra."

 FONTE: Idéias católicas no Brasil: Direções do pensamento católico do Brasil no século XX. Editora Convívio, São Paulo, 1978, pp. 205-207.

Comunhão dos Santos e Dom Odilão Moura


No próximo sábado, 1º de novembro, a Santa Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos. Excelente oportunidade de ler o comentário de Santo Tomás de Aquino sobre o 10º artigo do Credo Apostólico: “Creio na Comunhão dos Santos”.

O livro “Exposição sobre o Credo” foi publicado pela Edições Loyola, traduzido e anotado por Dom Odilão Moura, OSB. Pode ser encontrada uma edição eletrônica aqui (em PDF). O comentário ao 10º artigo se encontra nas páginas 79-85.  

Fui presenteado com o livro (e muitos outros) pelo próprio tradutor, meu professor de Lógica e conselheiro durante os anos de seminário. Autoridade na filosofia e teologia do Aquinate, dedicou seus últimos anos de atividade às obras de Pe. Maurílio T.-L Penido. Atualmente a idade avançada não lhe permite outra atividade senão a oração silenciosa e a união do próprio sofrimento ao do Redentor.

Ainda me recordo das tardes, sentados no banquinho de pedra à esquerda da entrada da Igreja do Mosteiro (Alpendre), ou em Emaús, em que conversávamos longamente sobre filosofia, teologia, história da Igreja, espiritualidade beneditina e outros assuntos mais comezinhos. Um detalhe interessante sobre sua biografia é a atividade missionária que desenvolveu no antigo Território Federal do Rio Branco, atual Estado de Roraima – a exemplo de Santo Agostinho de Cantuária, São Bonifácio e outros monges missionários.

Como lhe sou grato!


Dia da Reforma?

Lutero fala na Dieta de Worms em 1521

No dia 31 de outubro de 1517, o perturbado monge agostianiano Martinho Lutero afixou 95 teses na porta da Schlosskirche (Igreja do Castelo) em Wittenberg. Foi advertido a respeito dos erros em que incorrera e lhe foram dadas chances de correção. Não se submeteu e foi excomungado em 1521.

Hoje a minoria dos protestantes são luteranos. A rebelião do monge alemão iniciou o processo de divisão na Cristandade Ocidental, e suas doutrinas heréticas foram levadas a extremos inimagináveis. Nele, porém, já se acham os princípios geradores do caos atual. Mesmo as seitas protestantes históricas (metodista, presbiteriana, batista, etc) assistem apavoradas à fragmentação e multiplicação em suas hostes.

Como chamar reforma ao movimento iniciado por Martinho Lutero? É hoje o aniversário do triste dia da rebelião, da destruição, da confusão... 

O melhor serviço que podemos prestar aos protestantes é anunciar a Verdade na sua integridade, sem fórmulas de compromisso, indiferentismo ou relativismo.

Aproveitemos a ocasião para rezar pela conversão dos protestantes à fé católica, especialmente a de nossos familiares, amigos e vizinhos. A Igreja fundada por Nosso Senhor e Salvador os receberá "como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas" (Lc 13,34).

Para você avaliar as mentiras do protestantismo e encontrar  respostas para elas, sugiro o blog Cai a farsa

P.S. Gostaria de sugerir aos historiadores uma releitura dos textos de Lutero relativos aos judeus. É surpreendente o que o "reformador" tem a ensinar. Era considerado uma das três personalidades mais importantes da Alemanha por Hitler. 




quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Leitorato para mulheres

Nossos amigos do blog La Buhardilla de Jerónimo fizeram uma contraproposta relacionada à Proposição 17 do último Sínodo dos Bispos.

Os Padres Sinodais sugeriram que as mulheres pudessem ser instituídas no Ministério do Leitorato, como reconhecimento de seu papel de anunciadoras da Palavra. É bom lembrar que as mulheres já o exercem, sem que tenham sido instituídas para tal fim. 

A contraproposta sugere uma revisão mais ampla do Motu Proprio Ministeria Quaedam de 1972. Nele, Paulo VI determina que apenas homens sejam admitidos aos ministérios, "segundo venerável tradição da Igreja". Já que deveria ser derrogado, para atender à sugestão dos bispos, por que não ab-rogar o Motu Proprio e estabelecer novas disposições mais abrangentes? É a pergunta de fundo da contraproposta.

Vou resumi-la da seguinte maneira:

Ficam caracterizados como ministérios leigos, não necessariamente instituídos, conferidos a homens e a mulheres:
1. Ostiarato - ostiários (semelhante aos nossos ministérios de acolhida);
2. Leitorato - leitores


Seriam restabelecidos ad ordinem sacrum, ou seja, em previsão do Sacramento da Ordem, os Ministérios instituídos:
1. Exorcistato - exorcistas;
2. Acolitato - acólitos;
3. Subdiaconato - subdiáconos;

A contraproposta é interessante, mas aguardemos as discussões que se seguirão à Proposição 17, a solução que o Papa dará e os aprofundamentos da reforma beneditina. Uma mudança radical não parece ser a opção do Papa Bento XVI.

Islã, extremismo e terrorismo segundo Magdi Cristiano

As agências de notícias trouxeram hoje uma informação bombástica, embora não de todo imprevisível. Segundo a Catholic News Service, o jornalista Magdi Cristiano Allan, convertido do islamismo e batizado pelo Papa Bento XVI, escreveu uma carta aberta ao Pontífice, na qual critica as declarações do Cardeal Jean-Louis Tauran sobre o islamismo.

O Cardeal, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, havia afirmado numa conferência em agosto que o Islam promove a paz mas que "alguns fiéis traíram sua fé", tomando-a como pretexto para violência.

Magdi Cristiano diz se preocupar com o "sério desvio religioso e ético que se infiltrou e se espalhou no coração da Igreja", e rebate as declarações do Cardeal: "A realidade objetiva, digo-lhe com toda sinceridade e animado por uma intenção construtiva, é exatamente o oposto do que o Cardeal Tauran imagina. O extremismo e o terrorismo islâmicos são o fruto maduro" do seguimento  "das palavras do Corão e do pensamento e da ação de Maomé".

Procurei a carta na página do Corriere della Serra e não a encontrei, tendo de me contentar com fragmentos recolhidos na rede. Se alguém tiver o endereço, mande-me por obséquio, pois gostaria de ler todos os argumentos do autor. É muito difícil aquilatar a correteza de uma afirmação tão abrangente, no tempo e no espaço. De toda forma, é um convite ao debate.

O problema, posto como foi por Magdi Cristiano, não envolve apenas a natureza do islamismo, mas também a visão que dele tem a Igreja Católica. Ele pede ao Papa que faça um pronunciamento definitivo sobre a questão.

Parece-me que a questão já está respondida pela doutrina cristã: o islamismo é uma falsa religião, o corão é um livro comum e Maomé não é profeta, nem aqui nem na China. Outra coisa é exigir uma mudança de avaliação dos "aspectos positivos" do islamismo tal como encontrados na Declaração conciliar Nostra Aetate 3. Ainda que julguemos a declaração parcial e ingênua, considerando os acontecimentos dos últimos anos, não seria prudente deferir-lhe o golpe mortal. Há outros meios menos traumáticos, e me parece que o Papa já escolheu os seus.

Acho difícil que o Papa enfrente a questão sob o aspecto religioso, preferindo situá-la no âmbito da relação entre as culturas. É uma maneira diferente de estabelecer relações com o mundo muçulmano, sem obscurecer a doutrina e a missão da Igreja. Seu discurso em Regensburg é só o começo.



segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Poesia Completa - Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Viagem Apostólica à África

Ao fim da Santa Missa conclusiva da XII Assembléia do Sínodo dos Bispos, ontem pela manhã, o Santo Padre surpreendeu a todos com o anúncio de sua Viagem Apostólica à África. Assim se expressou o Sumo Pontífice:

“É minha intenção viajar em março para a apresentação nos Camarões do Instrumentum laboris de tal Assembléia Sinodal (II Assembléia Especial do Sínodo para a África, que se realizará em outubro de 2009 em Roma) e entregá-lo aos representantes das Conferências Episcopais da África. De lá prosseguirei, se Deus o permitir, para Angola a fim de celebrar solenemente o 500º aniversário de evangelização do País.”
O excelente site Giga Catholic Information nos dá as seguintes informações sobre os países:
CAMARÕES:
População: 16.064.000
Área: 469.440 km2 (equivale a pouco mais que os estados de São Paulo e Paraná)
Línguas Oficiais: Inglês e Francês (também foi colonizado pelos alemães)
Católicos: 35% Protestantes: 5% Muçulmanos: 20 % Animistas: 20%
A Igreja está organizada em 5 Arquidioceses e 19 Dioceses.
A mais importante figura eclesiástica é o Eminentíssimo Sr. Cardeal Christian Wyighan Tumi, Arcebispo Metropolitano de Douala, de 77 anos.

ANGOLA:
População: 10.979.000
Área; 1.246.700 km2 (quase exatamente o tamanho do estado do Pará)
Línguas: Português (Oficial), Bantu e outras línguas africanas
Católicos: 35 % Protestantes: 15 % Animistas: 47 % Outras: 3%
A Igreja está organizada em 3 Arquidioceses e 15 Dioceses.
A mais importante figura eclesiástica é o Eminentíssimo Sr. Cardeal Alexandre do Nascimento, Arcebispo Emérito de Luanda, de 83 anos.

Por ocasião da Viagem Apostólica do Santo Padre, a Secretaria de Imprensa da Santa Sé dará informações mais atualizadas sobre a situação eclesial nos dois países. Será a oportunidade de conhecermos mais a Igreja na África e darmos graças a Deus pela catolicidade de sua Igreja.
Ouviremos ainda o Santo Padre usar o idioma oficial do país: “a última flor do Lácio”, nas palavras de Olavo Bilac.

sábado, 25 de outubro de 2008

Convocação pelos Direitos e pela Dignidade da Pessoa Humana e da Família


Do site da CNBB


Convocação para o abaixo-assinado pela vida e contra o aborto na ONU

em 24/10/2008 19:50:00 (105 leituras)

Grupos pró-aborto estão promovendo um abaixo-assinado para que a ONU reconheça o aborto como um suposto direito universal, aproveitando a festa dos 60 anos da promulgação da Declaração Universal dos Diretos Humanos, no dia 10 de dezembro.


Nós, Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB, entidades e movimentos em defesa da vida,  estamos promovendo outro abaixo-assinado, ou seja, em favor da vida e contra o aborto. Precisamos de 50.000 assinaturas. Convocamos a todos para que divulguem esta nossa campanha a fim de neutralizar um flagrante desrespeito aos direitos humanos.


Faça sua assinatura, defenda a maternidade e a vida inocente votando a favor da dignidade do embrião, do feto e da criança no útero materno. Para isso, acesse: http://www.c-fam.org/publications/id.101/default.asp

Repasse esta mensagem à sua família, seus amigos, enfim, a todas as pessoas . “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).


Brasília, 24 de outubro de 2008.


Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB


Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina e Presidente da


Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mensagem Final dos Padres Sinodais

O Boletim do Sínodo dos Bispos publicou às 19h (hora de Roma) a Mensagem ao Povo de Deus (texto em espanhol). A versão portuguesa não deve demorar a aparecer. Convidei um colega sacerdote para apresentá-lo na conferência inicial da III Assembléia de minha Paróquia.

O texto se distribui da seguinte maneira:

SAUDAÇÃO
I - A Voz da Palavra: A Revelação
II - O Rosto da Palavra: Jesus Cristo
III - A Casa da Palavra: A Igreja
Os números 8 e 9 tocam na relação da Palavra com a Liturgia. Menciona "celebrações comunitárias da Palavra", sem precisar o sentido que lhes dá. Espero indicações mais concretas na Exortação pós-sinodal.
IV - Os Caminhos da Palavra: A Missão
CONCLUSÃO

Rito de Paz

Papa e Patriarca trocam o "ósculo santo" 

Na exortação pós-sinodal Sacramentum Caritatis, o Papa Bento XVI alude à possibilidade de transferir o Rito da Paz para outro lugar:

"Tendo em consideração antigos e veneráveis costumes e votos expressos pelos padres sinodais, pedi aos Dicastérios competentes que estudassem a possibilidade de se colocar a saudação da paz noutro momento, por exemplo antes da apresentação das oferendas ao altar. Aliás, tal escolha não deixaria de suscitar uma significativa evocação da advertência feita pelo Senhor a propósito da necessidade de reconciliação antes de qualquer oferta a Deus (Mt 5, 23s)." SC 49, nota 150

Enquanto nenhuma decisão pontifícia vem à lume, desejo fazer algumas considerações sobre a importância e o lugar deste gesto no Rito Romano. Seja qual for a decisão do Papa, todos devemos nos conformar a ela.

O "Ósculo de Paz" é parte constitutiva da Liturgia desde tempos remotíssimos, como testemunha São Justino Mártir (Apologia I, 65). Ali encontramos o "beijo da paz" sendo trocado antes do ofertório, a posição primitiva segundo alguns estudiosos. Esta posição é mantida nos Ritos Orientais e nos Ritos Ocidentais não-romanos (Ambrosiano, por exemplo).

O Rito Romano situa a saudação de paz após o Pai-nosso e antes da Fração e Comunhão, pelo menos desde o século V. Uma carta do Papa Inocêncio I (401-417) insiste nesta prática característica do Rito Romano, e devemos supor que ela lhe fosse anterior.

Há estudiosos que defendem outra teoria, segundo a qual houve, desde o início, dois gestos distintos de paz - um antes do Ofertório e outro antes da Comunhão. Segundo eles, um caiu em desuso; aquele anterior ao Ofertório, no Rito Romano; e o anterior à Comunhão, nos demais ritos. Seja como for, a atual posição da saudação da paz no Rito Romano goza de 1600 anos de uso, pelo menos. Isto certamente será levado em consideração pelo Papa Bento, que não é dado a experimentações litúrgicas.

O Rito de Paz não deve ser reduzido ao cumprimento entre os presentes. Podemos distinguir nele três elementos:
  1. A Oração dirigida a Nosso Senhor Jesus Cristo (Senhor Jesus Cristo que dissestes a vossos apóstolos): tem especial significado quando feita após a Consagração e imediatamente antes da Comunhão.  Nela o Sacerdote pede a paz a Jesus, único portador da paz verdadeira, pois que vem do alto. O sacerdote é o primeiro a recebê-la.
  2. A saudação sacerdotal (A Paz do Senhor esteja sempre convosco) e a resposta dos fiéis (e com o teu espírito): O sacerdote distribui, como dispensador dos mistérios de Deus, a paz que recebera de Cristo. Desnecessário dizer que a tradução vigente não poderia ser mais infeliz, uma vez que nem mesmo é resposta a uma saudação, além de uma infidelidade gratuita ao texto original.
  3. O cumprimento entre os fiéis (opcional): os fiéis, tendo recebido a paz de Cristo pelo sacerdote, trocam-na entre si como expressão litúrgica da paz e unidade do Corpo de Cristo, a Igreja. Embora opcional, o gesto tem uma força simbólica que não se deveria menosprezar.

Tal como se encontra, está claro que a paz que almejamos é a paz que vem do alto, que desce ao mundo na pessoa do próprio Cristo, pois "Ele é nossa Paz" (Ef 2,14). A paz se encarnou e estamos para recebê-la em comunhão. É a paz que desce do altar, que nasce do Sacrifício da Cruz que restabeleceu a paz com Deus. Mergulhamos no sentido mais profundo do rito, lendo o capítulo 2º da Carta aos Efésios. Em sentido estrito deveria ser restrita aos que estão em comunhão com Cristo e entre si. Esta paz é concreta, já dada.

Uma alteração para o início da Liturgia Eucarística não se daria sem prejuízo de significado. Situá-lo ali, levando em consideração apenas Mt 5,23s, reduziria seu sentido a um mero gesto de reconciliação (de todo modo desejável) entre os homens, sem uma ligação imediata e ritual com o Sacrifício de Reconciliação. Seria uma paz desejada, liturgicamente ainda não realizada.

Mas o que fazer com o problema que motivou os bispos no Sínodo sobre a Eucaristia a propor uma mudança tão radical ao Papa? O que fazer com a balbúrdia criada diante do Santíssimo Sacramento e pouco antes da recepção do Sagrado Corpo e Sangue do Senhor (uma espécie de anti-preparação ou preparação às avessa para a Comunhão)?

Sinceramente não creio que a solução esteja em transferir o rito de um lugar para o outro. Confusão, barulho e dispersão não são bem-vindos em nenhum momento da missa. Só com uma paciente e permanente educação litúrgica se chegará à forma ideal de cumprimento entre os fiéis, livre dos conhecidos abusos. Nada se alcançará às pressas e artificialmente. 

Alguns remédios já existem, como por exemplo:
  • O sacerdote educa com seus gestos durante a liturgia; é em geral o mais disperso e barulhento dos presentes. Cabe a ele ser o primeiro a "dar a paz" de modo sóbrio e reverente, pois está diante do santíssimo Sacramento. Alguns simplesmente se esquecem disso e dão as costas ao Senhor.
  • Após uma catequese bem feita (principalmente no fim das missas) eliminar completamente o canto que se inseriu abusivamente nesta hora. Não existe canto de paz! Nosso povo tem uma sensibilidade eucarística pronunciada, de modo que compreende em honra de Quem devemos manter sobriedade e reverência. Em minha paróquia, não houve resistência à eliminação do canto de paz, porque expliquei claramente que não o eliminávamos por preferências pessoais, mas por obediência à liturgia e, sobretudo, por reverência ao Santíssimo Sacramento. Foram unânimes em acatar a disposição.
  • Como lembra o Papa na exortação citada (SC 49), dever-se-ia restringir a troca de cumprimentos entre os que estão mais próximos; cumprimentos em massa geram uma movimentação e uma demora incompatíveis com a atenção devida ao Senhor presente no altar.

Aguardo o resultado do estudo que o Papa confiou aos seus colaboradores, peritos em matéria bíblica, teológica, litúrgica e pastoral (o que definitivamente não sou). Mas a decisão cabe unicamente a ele, supremo legislador; decisão a qual todos devemos nos submeter. 

Se me permitem um voto e um palpite: espero que o Rito fique onde está e creio que esta será a decisão do papa. 

Comunismo

Com uma decepam, com o outro esmagam

Um paroquiano, após nosso estudo bíblico semanal, comentava a versão que os livros de história dão à doutrina do purgatório. Os doutrinadores marxistas, embora odeiem toda e qualquer religião, se travestem de pregadores protestantes quando está em jogo a destruição da Igreja Católica. "Esmagai a infame", como diria Voltaire, é o propósito urdido silenciosamente nas redações de muitos jornais e editoras de livros didáticos. 

No comentário à minha última publicação, uma ex-paroquiana fez referência a certa candidata comunista à prefeitura de Campos. Assim, vejo-me forçado a enfrentar a questão e recordar o ensino do magistério da Igreja sobre o comunismo. 

Como a "antiga serpente", os comunistas sabem muito bem camuflar suas reais intenções e oferecer sua doutrina como filantrópica. Nada mais falso. E a história provou que nenhum sistema foi maior inimigo da civilização que o "Socialismo Democrático". Os partidos ditos "populares", "democráticos", "socialistas", "trabalhistas" ou simplesmente "comunistas" que proliferaram em toda parte e chegaram ao poder no leste europeu, e ainda sobrevivem na China, no Vietnã, na Coréia do Norte e na jurássica Cuba, só produziram opressão, miséria, violência e morte.

Com absoluta desfaçatez ainda há quem apregoe o comunismo como possível solução aos inegáveis males do capitalismo. E se engana quem os toma por mortos, quando na verdade estão se refazendo. O comunismo seduz ainda muitos jovens (seduziu a mim, na minha juventude desajuizada, e a outros bem mais inteligentes do que eu). Fui testemunha ocular, quando estudava na UERJ (já "liberto"), de um encontro da Juventude Socialista ligada ao PCdoB que reuniu centenas de jovens estudantes. Para isso contribuem a UBES e a UNE, os professores, livros didáticos e até "teólogos"... também na UERJ assisti a uma palestra de um bispo aposentado (graças a Deus) em que se declarava socialista e amante da revolução cubana (lá ele é amigo do rei...).

Sugiro a todo católico desejoso de conhecer a absoluta incompatibilidade entre a sua fé e a doutrina comunista que leia a estupenda encíclica  Divini Redemptoris do Papa Pio XI. Para deixá-los a todos ansiosos transcrevo umas poucas linhas:

"A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos. Proclamam com orgulho e exaltam até esse pseudo-ideal, como se dele se tivesse originado o progresso econômico, o qual, quando em alguma parte é real, tem explicação em causas muito diversas, como, por exemplo, a intensificação da produção industrial, introduzida em regiões que antes nada disso possuíam, a valorização de enormes riquezas naturais, exploradas com imensos lucros, sem o menor respeito dos direitos humanos, o emprego enfim da coação brutal que dura e cruelmente força os operários a pesadíssimos trabalhos com um salário de miséria." DR 8

Observem que a condenação do comunismo não é sinônimo de aceitação daquilo que há de desumano no capitalismo. O papa defende os direitos humanos e os trabalhadores, e eleva a voz contra a acumulação injusta, os lucros abusivos, o excesso de trabalho e a miséria dos salários. E isso em 1937! Houve intelectuais que só enxergaram a malícia do comunismo após os crimes de Stalin e de Mao virem à tona, houve os que só o abandonaram após a queda do muro vergonhoso e outros só muito recentemente, "decepcionados" com a pouca tolerência de Fidel com os jornalistas.

Se tivessem ouvido o Papa quantas vidas poderiam ter sido poupadas!!!

É só clicar no link abaixo. Se salvarem no Word serão apenas 17 páginas (fonte Times 12) para impressão ou para leitura off-line.

de Sua Santidade o Papa Pio XI
19 de março de 1937
Dia de São José - Padroeiro da Igreja e dos Trabalhadores

 


quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Diga não ao aborto e aos abortistas!


Estou acompanhando a repercussão do apoio dado por alguns padres e agentes de pastorais da Arquidiocese de São Paulo à candidatura de Marta Suplicy  à prefeitura da maior cidade do país. Sites e blogs, católicos ou não, nacionais ou estrangeiros, confirmam que cerca de 40 sacerdotes estão envolvidos na tentativa desesperada de eleger a petista. A Arquidiocese se distanciou da iniciativa ( aqui ) mas está a dever uma ação mais conforme à gravidade da situação. 

Sabemos existir um conluio entre setores do clero e a máquina partidária do PT, que nos últimos 6 anos se materializou em recursos ilimitados a ONGs presididas por certos religiosos. Existe grande preocupação entre os "beneficiados"  (não necessariamente os mais pobres) de que o PT perca uma eleição que consideravam ganha, não consiga reconquistar o estado em 2010 e ainda, o que seria apocalíptico, entregue a Presidência em 2011. 

Contudo, Marta é defensora "incansável" do aborto, nas palavras de seu atual marido Luis Favre, e nenhuma outra virtude que a candidata possuísse justificaria o apoio destes religiosos, aos quais caberia a defesa intransigente da vida humana.  Como falar em justiça, condenar a ditadura, defender os mais pobres quando se têm as "mãos sujas" de sangue inocente?

O Catecismo da Igreja Católica resume a doutrina cristã sobre o aborto nos números 2270-2275, e diz explicitamente que "toda colaboração formal num aborto constitui falta grave" (2272). E ainda que não ponham suas mãozinhas delicadas num instrumento mortal e arranquem o bebê do ventre materno, os políticos que defendem o aborto são cúmplices formais de assassinato.  A depender do grau de consciência, devem ser considerados igualmente colaboradores aqueles eleitores que os elegem.  Evidentemente a mesma presunção de ignorância não pode ser aplicada aos infelizes sacerdotes, conhecedores da doutrina da Igreja e da posição da candidata.

Nas últimas eleições, os católicos demonstraram mais determinação em se opor a candidatos abortistas. A mobilização tem dado resultados satisfatórios, o que só estimula uma ação cada vez mais planejada e coordenada, conforme o direito constitucionalmente garantido aos cidadãos e na observância da legislação eleitoral. Os católicos devem sair de uma posição tímida de apenas enunciar princípios e partir para a aplicação concreta, dando nome às vacas e aos bois. Chegará a eleição em que ouviremos os bons Bispos dizerem: "Católico não vota em fulaninho porque é defensor do aborto!". 

Estes poucos padres (considerando o clero paulista) são cada dia menos numerosos. Bispos e padres "libertadores" estão saindo do proscênio para o gozo de sua aposentadoria; é uma questão de tempo. Bem menos trabalho teriam se fossem para Cuba, afinal lá só existe um partido e nenhum adversário inconveniente para atrapalhar seus projetos e convênios.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sacerdote não é o protagonista da Missa!

As obras completas do Papa Bento XVI (de 1953 a 2005) começam a ser publicadas na Alemanha. Já está prevista para o início de 2009 a tradução italiana, e nós ficaremos aqui a esperar notícias alvissareiras sobre uma edição portuguesa - especialmente agora que existe um acordo ortográfico com Portugal.

O próprio Pontífice fez a introdução ao primeiro volume publicado. Na introdução fez a declaração que dá título à notícia do site Petrus que apresento abaixo, traduzida do original italiano.

 Liturgia, a confissão de Bento XVI: “A melhor maneira de celebrar a Missa é com o sacerdote de costas para os fiéis, mas em 2000 estive a ponto de me autocensurar”.

CIDADE DO VATICANO – Bento XVI foi tentado a eliminar as nove páginas (de seu livro 'Introdução ao Espírito da Liturgia' Ed. Paulinas) nas quais explicava no ano 2000, quando ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger, porque voltar o celebrante para os fiéis, como aconteceu depois do Concílio, representa uma escolha discutível, que contribuiu em muitos casos para tornar menos autênticas as liturgias. O próprio Pontífice confessa-o na apresentação ao primeiro volume que recolhe sua ‘Opera Omnia’, publicada na Alemanha por iniciativa da Conferência Episcopal Alemã.

As causas que o levaram a considerar o corte do texto (hipótese todavia descartada), explica o Papa, foram as polêmicas suscitadas por um capítulo de seu livro ‘O espírito da liturgia. Uma introdução’, publicado precisamente no ano 2000, no qual era recordado o motivo teológico da orientação tradicional dos altares (com o sacerdote voltado para o Oriente litúrgico). Nove páginas apenas que catalisaram a atenção da mídia, por terem sido assinadas pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. E que hoje resultam assinadas pelo Papa. Se bem que alguém pudesse ler tais páginas como um convite a devolver aos altares sua antiga disposição, a proposta concreta que emergia há oito anos (que o Ofício de Celebrações Litúrgicas do Pontífice está pondo em prática) era, explica Bento XVI, “não fazer novas transformações, mas simplesmente pôr no centro do altar a cruz para a qual sacerdotes e fiéis se voltam conjuntamente, para se deixar conduzir pelo Senhor a quem todos rezam conjuntamente”. “Infelizmente – prossegue o Pontífice na introdução – quase todas as recensões se concentraram em alguns capítulos: o altar e a direção da oração da liturgia. Os leitores das recensões devem ter se convencido que todo o livro tratava da direção nas celebrações e que seu conteúdo visava a reintroduzir a Missa ‘de costas para o povo’. Considerando estas representações – confessa o Papa – por um tempo pensei em eliminar aquele capítulo – nove páginas em cerca de duzentas- de modo que pudesse finalmente emergir aquilo que no livro efetivamente me interessava”. 

Serviram para convencer o Pontífice a não se autocensurar os livros publicados em seguida pelos teólogos U. M. Lang (com prefácio do próprio Ratzinger) e S. Heid, que “tornaram mais clara a matéria”, aprofundando aquilo que nas nove páginas era apenas mencionado, ou seja, que o celebrante não é o protagonista da liturgia para o qual os olhares devem se dirigir. Ele, assim como os fiéis, deve ao invés orar e olhar para o Senhor que se faz presente na Missa. “A idéia de que sacerdotes e fiéis na oração olham um para o outro foi introduzida somente nos tempos modernos e era completamente alheia aos antigos cristãos”, recorda a propósito o Papa. Os volumes de sua ‘Opera Omnia’ serão 16 ao todo. O primeiro a ser publicado é numerado como 11º porque o Pontífice sugeriu que iniciassem com o tema da liturgia, seguindo a ordem dos documentos do Concílio. O volume que será numerado como primeiro irá conter a tese de láurea e de doutorado de Joseph Ratzinger.

 

 




domingo, 19 de outubro de 2008

Museu em Israel

Um judeu lendo sobre Pio XII no Yad Vashem

Ontem, Padre Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, emitiu uma nota sobre o Museu Yad Vashem e a causa de beatificação do Papa Pio XII.

O museu está em Jerusalém e foi fundado em 1953 para ser a memória do holocausto. Lá se pode ler uma série de informações falsas ou distorcidas sobre a atuação de Pio XII na II Guerra.

A nota, publicada hoje no site do Vaticano, declara que "já no passado um Representante da Santa Sé já manifestou objeções, é desejável que seja objeto de uma nova, objetiva e profunda consideração da parte dos responsáveis pelo museu."

Sobre a beatificação de Pio XII reafirmou que "o Papa até o presente não assinou o decreto sobre as virtudes heróicas do servo de Deus Pio XII (...). Isto é objeto de aprofundamento e reflexão de sua parte (do papa)". Pe. Lombarti desaconselha qualquer pressão sobre o pontífice, de uma parte ou de outra.

Eu estou convencido de que o Santo Padre não se deixará intimidar por certos grupos ao tomar uma decisão que empenha sua infalibilidade no serviço a toda a Igreja. Sem a hipocrisia dos fariseus, poderíamos usar para Bento XVI as palavras que aqueles judeus dirigiram a Jesus: "sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas os caminhos de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros". (Mt 22,16)

Em breve veremos reconhecida a santidade deste grande pontífice que, nas palavras de um destacado jornalista judeu italiano, foi um dos maiores pontífices do século passado.



sábado, 18 de outubro de 2008

Mais Católicos no Mundo ou Da Matemática da Fé

Os dados estatísticos refletem o ano de 2007, mas foram apresentados pela agência Fides por ocasião do Dia Mundia das Missões, que será celebrado no próximo domingo.
 
A população mundial:6 bilhões, 542 milhões e 824 mil.

Católicos no mundo: 1 bilhão, 130 milhões e 750 mil (17,28 % da população mundial).

Os novos católicos no mundo são:

América    = 7 milhões e 451 mil

África       = 4 milhões 843 mil

Ásia          = 1 milhão 894 mil

Europa      = 1 milhão 466 mil

Oceania     = 130 mil

Um crescimento de 15 milhões de novos católicos (0,03 %).

Os sacerdotes são 407.262 (em todo o mundo, o número de ordenações superou o de óbitos, exceto na Europa). Destes 271.091 são do clero secular e 136.171 do clero regular. Os missionários leigos são 216.768.

Infelizmente, parte dos números se referem a crianças batizadas, das quais muito pouca esperança existe de que serão iniciados plenamente na fé católica.

"MESSIS QVIDEM MVLTA"  

Fé e Razão e os Limites da Ciência

Anteontem o Papa Bento XVI concedeu audiência aos participantes de um congresso internacional promovido pela Universidade Lateranense no 10º aniversário da Encíclica Fides et Ratio, do Papa João Paulo II (14.IX.1998).

Não traduzi a saudação e a despedida habituais nos discursos do pontífice, mas o texto integral está disponível na página da Santa Sé, em italiano. Quero ainda observar que minhas traduções, feitas às pressas, são eivadas de deficiências; esta imperfeição preocupa-me ainda mais quando se trata de um texto pontifício, não é demais recordar que o texto abaixo não é oficial. Os que recebem a edição em português do L’Osservatore Romano,  em breve, terão à sua disposição uma tradução bem melhor.

Em atenção aos que se dignam ler meu blog, apressei-me a traduzir este discurso excepcional do Papa sobre as relações entre fé e razão. O texto é fundamental para os que se dedicam à filosofia e à teologia, mas é sobremaneira importante para os que se dedicam às ciências naturais e matemáticas. Estes últimos são os mais atingidos por um conceito de razão e de ciência danificado pelo iluminismo que diminui radicalmente a capacidade humana de conhecer a verdade, sobretudo aquela Verdade que transcende as experiências sensíveis. Um texto excelente para meus amigos biólogos, doutores da UENF e da UFRJ, e para os que travam o debate ético e jurídico em torno das pesquisas genéticas.

O texto exige estudo paciente, razão pela qual não tecerei qualquer comentário. Meu amigo Pe. Costa, doutor em Teologia Fundamental e que dedicou anos à Fides et Ratio, poderia contribuir com comentários seus.


 Há dez anos de distância, um olhar atento à Encíclica Fides et ratio permite recolher com admiração sua permanente atualidade: nela se revela a presciente profundidade de meu inesquecível Predecessor. A Encíclica, com efeito, se caracteriza por sua grande abertura às batalhas da razão, sobretudo em um período no qual sua debilidade vem sendo teorizada. João Paulo II sublinha, ao invés, a importância de conjugar fé e razão na sua relação recíproca, ainda que respeitando a esfera de autonomia própria de cada uma. Com este magistério, a Igreja tornou-se intérprete de uma exigência emergente no atual contexto cultural. Desejou defender a força da razão e a sua capacidade de alcançar a verdade, apresentando uma vez mais a fé como uma peculiar forma de conhecimento, graças à qual nos abrimos à verdade da Revelação (cf. Fides et ratio, 13).

Lemos na Encíclica que é necessário ter confiança na capacidade da razão humana e não se lançar a metas muito modestas: “É a fé que provoca a razão a sair de todo isolamento e a arriscar-se de bom grado por tudo aquilo que é belo, bom e verdadeiro. Assim a fé se faz advogada convicta e convincente da razão” (n. 56).

O transcorrer do tempo, de resto, manifestará quais objetivos a razão, movida pela paixão pela verdade, terá sabido alcançar. Quem poderia negar a contribuição que os grandes sistemas filosóficos deram para o desenvolvimento da autoconsciência do homem e para o desenvolvimento das várias culturas? Estas, contudo, tornam-se fecundas quando se abrem à verdade, permitindo a quantos delas participam alcançar objetivos que tornem sempre mais humano o viver social. A busca da verdade dá seus frutos sobretudo quando é sustentada pelo amor à verdade. Escreveu Agostinho: “Aquilo que se possui com a mente se conhece, mas nenhum bem é conhecido perfeitamente se não se ama perfeitamente” (De diversis quaestionibus 35,2).

Não podemos ocultar, todavia, que se verificou uma debandada de um pensamento prevalentemente especulativo para um principalmente experimental. A pesquisa se voltou sobretudo para a observação da natureza na tentativa de descobrir-lhe os segredos. O desejo de conhecer a natureza depois se transformou na vontade de reproduzi-la. Esta mudança não foi indolor: a evolução dos conceitos cortou a relação entre a fides e a ratio com a conseqüência de levar uma e outra a seguir estradas diversas.

A conquista científica e tecnológica, com a qual a fides é sempre mais obrigada a confrontar-se, modificou o antigo conceito de ratio; de qualquer modo, marginalizou a razão que procurava a verdade última das coisas para dar espaço a uma razão limitada a descobrir a verdade contingente das leis da natureza. A pesquisa científica tem certamente o seu valor positivo. A descoberta e o incremento das ciências matemáticas, físicas, químicas e das ciências aplicadas são fruto da razão e exprimem a inteligência com a qual o homem consegue penetrar na profundidade da criação. A fé, de sua parte, não teme o progresso da ciência e os avanços aos quais conduzem as suas conquistas quando estas têm por finalidade o homem, o seu bem-estar e o progresso de toda a humanidade. Como recordava o autor anônimo da Carta a Diogneto: “Não é a árvore do da ciência que mata, mas a desobediência. Não há vida sem ciência, nem ciência segura sem vida verdadeira” (XII, 2.4).

Acontece, todavia, que nem sempre os cientistas endereçam suas pesquisas para estes fins. O lucro fácil ou, pior ainda, a arrogância de substituir o Criador desenvolvem, de tempos em tempos, um papel determinante. Esta é uma forma de hybris da razão, que pode assumir características perigosas para a própria humanidade. A ciência, por outro lado, não tem condições de elaborar princípios éticos; ela pode apenas assumi-los e reconhecê-los como necessários para debelar as suas eventuais patologias. A filosofia e a teologia tornam-se, neste contexto, auxílios indispensáveis com os quais a ciência deve confrontar-se para evitar caminhar sozinha por uma trilha tortuosa, cheio de imprevistos e riscos. Isto não significa de fato limitar a pesquisa científica ou impedir a técnica de produzir instrumentos de desenvolvimento; consiste, mais precisamente, em manter vigilante o sentido de responsabilidade que a razão e a fé possuem no que diz respeito à ciência, para que permaneça no sulco de seu serviço ao homem.

A lição de Santo Agostinho é sempre carregada de significado também no atual contexto: “A que chega – pergunta-se o santo Bispo de Hipona – quem sabe usar bem a razão, se não à verdade? Não é a verdade que chega a si mesma com o raciocínio, mas é a ela que procuram quando usam a razão... Confessa não seres tu a verdade, pois que ela não busca a si mesma; tu, ao invés, estás junto dela, não passando de um lugar ao outro, mas buscando-a com a disposição da mente” (De vera religione, 39,72). 

É como dizer: de que parte provenha a busca da verdade, esta permanece como dado oferecido e que pode ser reconhecido já presente na natureza. A inteligibilidade da criação, de fato, não é fruto do esforço do cientista, mas condição oferecida a ele para consentir-lhe descobrir a verdade nela presente. “O raciocínio não cria estas verdades – continua na sua reflexão Santo Agostinho – mas o descobre. Elas subsistem em si mesmas antes que sejam descobertas e uma vez descobertas nos renovam” (Ibid., 39,73). A razão, em suma, deve cumprir plenamente seu percurso, marcado pela autonomia e pela sua rica tradição de pensamento.

A razão, por outro lado, pressente e descobre que, além daquilo que já alcançou e conquistou, existe uma verdade que não poderá jamais descobrir partindo de si mesma, mas apenas receber como dom gratuito. A verdade da Revelação não se sobrepõe àquela alcançada pela razão; mais precisamente, purifica a razão e a eleva, permitindo-lhe assim dilatar os próprios espaços para inserir-se num campo de pesquisa insondável como o próprio mistério. A verdade revelada, na “plenitude dos tempos” (Gal 4,4), assumiu o vulto de uma pessoa, Jesus de Nazaré, que detém a resposta última e definitiva à busca de sentido de todo homem. A verdade de Cristo, enquanto toca toda pessoa em busca de alegria, de felicidade e de sentido, supera em muito toda outra verdade que a razão pode encontrar. É em torno do mistério, portanto, que a fides e a ratio encontram a possibilidade real de um percurso comum.”
Benedictus p.p. XVI
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