Excepcional entrevista. Espero que os seminaristas aproveitem, mas não somente eles. O original em italiano (cuja tradução deu-me um bom trabalho) está aqui. Se alguém puder melhorar a tradução, que fiz um tanto às pressas, eu agradeceria. Sugiro as seguintes leituras complementares:
1. Artigo do Prof. Giorgio Israel no
L'Osservatore Romano, em
italiano.
2. Intervenção que o Papa Bento XVI faria na Universidade
La Sapienza, e que foi cancelada pelo Pontífice devido ao ambiente extremista e antiintelectual de parte da esquerda universitária, também em
italiano. Espero traduzir esta alocução assim que puder.
Giorgio Israel
Eu, matemático contra a religião da ciência
por Alberto Savorana
A defesa da “razão abrangente”. A luta contra o cientificismo. A necessidade de mestres. Um dos cientistas mais controvertidos da Itália explica porque na realidade só existe um modo de defender a sua disciplina (e salvar a educação): “não reduzir o homem a um dado”. E aceitar o desafio do infinito.
Titular de Matemáticas complementares na Universidade La Sapienza de Roma, Giorgio Israel é um dos mais ativos e precisos polemistas no panorama cultural italiano. Há anos se engajou na luta em defesa da razão – e para o seu “alargamento”, para usar um termo caro a Bento XVI – contra uma ideologia cientificista que pretende identificar o homem e a realidade com aquilo que é mensurável em nome de uma razão reduzida. E é significativo que seja um matemático a conduzir esta guerra sem fronteiras contra a religião dos números e da quantidade. Na sua última obra, Chi sono i nemici della scienza? (ed. Lindau), ele se interroga sobre os frutos amargos daquela mentalidade, imposta a todos, e por tantos assimilada acriticamente através das páginas dos jornais, da televisão e dos bancos escolares e universitários.
Partamos da pergunta provocativa que dá título ao seu último livro: quem são os inimigos da ciência?
É evidente que são inimigos da ciência aqueles que fazem divulgações mal-intencionadas, que apresentam os resultados científicos de maneira vulgar e até mesmo equivocada. No meu livro dediquei uma centena de páginas a documentos de “má ciência”, que são uma pequena coletânea do material que recolhi. Examinando estes documentos se constata que em muitos casos não se trata de meros erros, mas sim do fruto de uma visão ideológica, inspirada no desejo de provar que com a ciência não temos nada a fazer e o que responder, e de modo particular, com o propósito de “demonstrar cientificamente” o ateísmo e o materialismo. A confusão entre ciência e naturalismo é uma distorção ideológica muito difundida hodiernamente. Outras distorções ideológicas, em perfeita contradição entre si, são: a afirmação de que a ciência é relativista, ou ao invés, de que ela detém a verdade absoluta. Em geral, os piores inimigos da ciência são os cientistas, que afirmam tratar de ciência, quando na verdade tratam de suas idiossincrasias e de suas crenças. Portanto, os inimigos da ciência não são os que dela “falam mal”, mas aqueles que a utilizam mal ou com escopos perversos (no sentido literal da palavra).
A propósito de cientistas, voltemo-nos para o “caso Sapienza”. O senhor ensina no ateneu que, caso raro, levou o Papa a renunciar a falar numa conferência previamente agendada. Como entendeu o acontecimento e que juízo faz do mesmo?
Eu o vi como um grande desconforto. Poder-se-iam até compreender objeções inspiradas por princípios de laicismo, se estivesse em jogo uma preleção para o início do ano acadêmico (o que não estava). Pelo contrário se insistiu obstinadamente na idéia de que o Papa Ratzinger deveria refazer o processo de Galileu. Por detrás da carta dos professores de Física, mais conhecida, circularam mensagens inspiradas por sentimentos asperamente anti-religiosos: se apoiaram, não inspirados no laicismo, mas no ateísmo, ou ainda na idéia de que a ciência e o pensamento racional são intrinsecamente inimigos da religião. Em suma, aquilo que subjaz naquele acontecimento não é apenas uma postura intolerante e desinteressada pelo debate, mas uma maliciosa contraposição ideológica entre ciência e religião.
Na intervenção cancelada o Papa diria, entre outras coisas: “o perigo do mundo ocidental é que o homem hoje, diante da consideração da grandeza de seu saber e poder, desista da questão da verdade. E isto significa ao mesmo tempo que a razão, por fim, se dobra diante das pressões dos interesses e dos atrativos da utilidade, constrangida a reconhecê-la como critério último”. De que modo estas palavras o interpelam?
Estas palavras me impressionaram porque estão em completa consonância com aquilo que penso há pelo menos 15 anos, desde quando escrevi um livro intitulado Il giardino dei noci. Incubi postmoderni e tirannia della tecnoscienza, que foi recusado por muitas casas editoriais com motivações do tipo: “É a expressão de uma crise mística do autor”. Contentei-me em publicá-lo por uma pequena casa editorial, que não teve êxito em divulgá-lo. Eu sustentava que a prevalência de uma visão cientificista e utilitarista, obcecada pela tecnologia e insensível aos temas da consciência e da ética, conduziria ao esfacelamento do Ocidente e a prevalência de extremismos integralistas (totalitários). De fato, se a exigência moral e espiritual é frustrada por uma visão puramente utilitarística, ela se canaliza para outros caminhos, em direção a pousos desviantes e, não raro, criminosos.
O senhor sustenta que um novo cientificismo pretende estender o método das ciências físico-matemáticas ao campo das ciências humanas e em um polêmico artigo no L’Osservatore Romano escreveu que “o homem não é um dado”. Que queria dizer?
Pretendia dizer que o conhecimento é múltiplo e a experiência humana está longe de ser apenas científica. A presunção de querer submeter todo conhecimento sob a bandeira de uma disciplina científica – quer seja a física matemática ou a neurociência – tão somente leva, como observou o filósofo Paul Ricoeur, a mutilar a fenomenologia da vida humana porque não é possível reduzi-la a qualquer coisa material que se acredita lhe seja equivalente. O homem não é nem um dado, nem uma máquina a vapor ou elétrica, nem uma calculadora, nem uma máquina qualquer a qual nos empenhamos a reduzir para “explicá-la” em termos “científicos”.
Historicamente a ciência moderna nasceu no âmbito da cultura judaico-cristã. Segundo o senhor, se trata de uma coincidência ou existem razões de fundo?
De fato não é uma coincidência. Tanto o judaísmo como o cristianismo têm sustentado a idéia de que um conhecimento racional do mundo é possível e que a natureza, na sua esfera, é governada pelas regularidades, as quais têm um caráter objetivo e que fundamentam o conhecimento e a previsão. O processo contra Galileu envolvia uma outra problemática que não posso aqui aprofundar. Ao contrário, o processo contra Averróis dizia respeito propriamente àquele ponto e a derrota do pensamento averroístico por parte da concepção de Al-Ghazali, segundo o qual não existem regularidades objetivas na natureza, conduziu à auto-exclusão do islam da revolução científica, para cujo surgimento havia dado contribuições bastante importantes.
Razão e fé são termos que a cultura moderna distanciou, num primeiro momento, e depois rigorosamente separou como duas redes que não se encontrariam mais. O senhor, ao contrário, apresentando recentemente o livro de Mons. Giussani, Si può vivere così?, declarou compartilhar a afirmação segundo a qual o conhecimento pela fé é um método próprio da razão. Em que medida este método é importante também para o trabalho científico? Poderia dar algum exemplo de sua aplicação?
Quando eu era estudante universitário, um professor me aconselhou a estudar matemática supondo que todo teorema que eu lesse nos livros fosse falso e procurasse refutá-lo. este certamente não é um método de conhecimento pela fé… A matemática é uma ciência da qual é útil e possível duvidar. Mas já em física não se pode pretender refazer todo experimento. É necessário “crer” em quem diz que a experiência de Michelson-Morley já foi feita e conduziu a um determinado resultado. Se estudo história, devo “crer” que Júlio César realizou certas ações em cartas datas, pois de outra forma seria obrigado a verificações penosas ou impossíveis. O conhecimento baseado sobre a confiança no testemunho credível é inevitável, ainda que dentro de certos limites. Mons. Giussani afirmou com justiça que, eliminado o “conhecimento por mediação” (isto é, transmitido por outros), se elimina toda a cultura humana, que se baseia no fato de que “tudo provém daquilo que outro descobriu”: se assim não fosse, “mover-se-ia sobre um metro quadrado”. É um golpe fatal à pedagogia do autodidatismo... Quem adere ao ponto de vista de Mons. Giussani não pode aderir um só instante às visões pedagógicas que substituem o mestre pelo “facilitador”.
Estas suas últimas palavras nos introduzem num tema que lhe cala particularmente ao coração, como também a nós. No livro o senhor fala de “desastre educativo”. Quais são os fatores deste desastre que levou até o Papa a dizer que estamos em face de uma “emergência educativa”?
O fator principal é a idéia aberrante que a educação seja um fato técnico e não a aquisição de conhecimento numa relação entre pessoas. Ao contrário, a educação deve nascer da colaboração entre a família, que deve formar a pessoa do ponto de vista ético e moral, e a escola, que deve transmitir conhecimento e capacidade de conhecer (detesto o termo “competência”). O ensinamento envolve a plenitude da pessoa e não pode reduzir-se a tecnologias didáticas, nem pode substituir o papel da família pretendendo reduzir a dimensão moral a uma questão de “regras de cidadania”, transmitidas por “especialistas” mediante disciplinas como, por exemplo, “educação para afetividade”.
Mas se não pode confiar-se a especialistas, em quem a escola deve apostar para repartir a responsabilidade?
Descende do que vem antes. A educação tem necessidade de mestres que, para dizê-lo com Hannah Arendt, sejam para o jovem os representantes do mundo em que foi chamado a viver, o apresentem a ele – o que significa transmitir cultura e conteúdo – e assim forneçam instrumentos para transformá-lo. Somente conhecendo o mundo se pode transformá-lo. Para dar aos jovens instrumentos para evoluírem é necessário que a instrução seja conservadora. A escola sem tradição não transmite nada e abandona os jovens ao nada, tornando-os ainda incapazes de transformação. Até mesmo (ou sobretudo!) para ser revolucionário é preciso partir da tradição. Não tenho a presunção de explicar isto a quem tem como referência os Evangelhos.
O ’68 (ano das revoltas estudantis) visou ao igualitarismo na universidade e na escola, com o êxito de nivelar por baixo e cujos frutos estão diante dos olhos de todos. Tanto que se recomeça a falar de “mérito”. Por sua experiência de magistério, que é possível fazer para reverter a tendência ?
Está implícito no que disse antes. É necessário o papel de “mestre” como figura autorizada; o seu papel de transmissão do conhecimento e da tradição; o reconhecimento do conhecimento e das tradições como fundamentais na formação da pessoa; a valorização do estudo, do trabalho, do empenho responsável. Deve-se banir a idéia de que o estudo possa ser concebido como mero divertimento e não como empenho duro e cansativo. Deve-se mostrar que as maiores recompensas vêm da superação das dificuldades e não da fuga das mesmas, caso contrário se educa tão somente para a irresponsabilidade.
Um outro pilar da educação demolido pelo ’68 é a tradição, com o conseqüente princípio da autoridade. Gostaria de saber do senhor quanto pesou neste processo aquilo que o senhor chama o mundo dos pedagogos, cujo ícone é Marcello Bernardi que em 1979 escreveu a “Oração por uma criança” para o Ano Internacional da Criança promovido pela ONU, que inicia com estas palavras: “Faze que ela seja diferentes de nós. Faze com que não haja pais nem filhos, nem família, nem mestres nem discípulos, nem casa nem refúgio. Faze com que não encontre Conquistadores nem Líderes e nem mesmo Santos. Faze que não conheça Lei nem Ordem, nem Pátria nem Religião...”
É uma visão que considero aberrante, horrível mesmo. É a síntese perversa da pedagogia do autodidatismo introduzido por Dewey e pelo marxismo “débil” da sociedade opulenta, o marxismo pós-moderno. Esta combinação transmitiu a herança do comunismo agonizante e, portanto, uma visão totalitária e anti-humana. Não é por acaso que dela descende a recusa da família, dos pais, dos mestres. Meu filho, que fez uma longa pesquisa de campo antropológica na África, me explicou que se sentiu obrigado a deixar crescer a barba para parecer menos jovem e portanto mais responsável, porque os anciãos são considerados a fonte da sabedoria. O “juvenilismo” é um dos efeitos degenerados daquela visão. Seria o caso em que as sociedades dominadas por velhos propagadores do “juvenilismo” são exatamente aquelas nas quais os jovens têm menos oportunidades.
Durante um recente encontro com cinqüenta mil professores, Dom Carrón disse que: “ensinar, educar, é introduzir à totalidade, ao real na sua totalidade. Se explico qualquer coisa sem o ligame com a totalidade, eu não estou educando”. Que tem a dizer? Quais as implicações para a didática desta renúncia à totalidade?
As implicações são a perda da conexão entre as disciplinas em um único quadro cultural. Por exemplo, no que tange à ciência, significa pensá-la como um saber técnico particular que não tem relação com a filosofia, a história e o processo global do conhecimento. Isto ocorre porque se perde uma visão humanística. Se o homem, visto na sua totalidade, não é mais o centro do processo do conhecimento, este se reduz a um somatório de saberes particulares, ou melhor, de “habilidades” fragmentadas.
Muitos professores documentam a dificuldade de suscitar o interesse dos rapazes. Por outro lado, exatamente ensinando Mons. Giussani agregou tantíssimos jovens, sustentado pela consciência que educar é “uma comunicação de si, isto é, do próprio modo de relacionar-se com o real”. Queira comentar esta afirmação.
Ter um encontro com um verdadeiro mestre significa aproximar-se de um conjunto de noções, um conjunto de conhecimentos que são também “vividos”. Ademais, um verdadeiro mestre se arrisca a fascinar porque não é débil e inseguro a ponto de recorrer ao expediente de ludibriar os jovens com truques de feira, não banaliza o que é difícil e empenhativo sob a forma de jogo e divertimento, mas fala daquilo que toca realmente as exigências e os sentimentos mais profundos. Isto pode ser feito também quando se ensinam disciplinas aparentemente distantes da vida e da concretude, como a matemática. Quando procuro despertar o interesse pela matemática evito sempre o recurso aos aspectos lúdicos e, por exemplo, falo do dificílimo desafio de manipular o infinito e me dou conta de que o interesse vem de imediato. De fato, um tema aparentemente obscuro como o infinito toca o coração mais profundamente, a questão mesma do sentido da existência humana e de sua relação com a transcendência.
© Copyright Tracce luglio/agosto 2008