"Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit!"

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Novo Patriarca de Lisboa

Fontes portuguesas dão conta de que amanhã será nomeado o novo Patriarca de Lisboa. Trata-se do Bispo do Porto, Dom Manuel Clemente, 64 anos. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Bento XVI volta ao Vaticano

O Papa Emérito está em seu novo lar, seu pequeno "mosteiro", no Vaticano. Foi recebido ontem pelo Papa Francisco e juntos rezaram na capela onde nosso amado Bento XVI rezará diariamente a Missa por nós. Rezemos também por ele.


O poder de atração da Missa (testemunhos de conversão)


O site espanhol Religión en Libertad traz, quase diariamente, testemunhos de conversão de ateus, agnósticos, pagãos e protestantes à fé católica. Os relatos me edificam sobremaneira e penso que nós os utilizamos pouco para fortalecer a fé dos demais católicos. Nem sempre posso traduzi-los, como gostaria, e difundir suas histórias de fé também em nossa língua portuguesa. Creio, entretanto, que se possa com algum esforço compreendê-las mesmo em espanhol. Recomendo a leitura diária do site e a perseverança; é possível vencer o espanhol com algum empenho.

Ele, protestante, e ela, hinduísta, chegaram juntos à fé a tempo de entender a morte de seu bebê.

Ryan e Anumeha se conheceram porque compartilhavam o desejo de ajudar aos mais necessitados com a criação de seus próprios negócios.



O pequeno Ezra morreu dois dias depois da data prevista para seu nascimento. Anumeha sabia que algo não estava bem porque o bebê deixou de mover-se. Logo souberam que ele fora estrangulado com o cordão umbilical. Ela e seu marido, Ryan Galloway, tiveram-no nos braços ao menos por um tempo quando os médicos provocaram o parto. Era a primeira grande prova para sua fé católica, poucas semanas antes de seu ingresso formal na Igreja, na Vigília Pascal da última Semana Santa. Mas a superaram: não receberam a tragédia com ira ou desespero, mas com uma certeza em meio à dor: “No mais fundo do nosso coração cremos na ressurreição. Um dia voltaremos a ver nosso filho”, confessam num vídeo em que dão a conhecer seu itinerário espiritual.


Dois itinerários distintos que se confluíram


Ele nasceu em Sioux City (Iowa, EUA) no seio de uma devota família batista. Seu avô havia sido missionário na África e seus pais o levavam à igreja às quartas e aos domingos, inscreviam-no em acampamentos de verão cristãos e, sempre que podiam, iam ouvir o célebre pregador evangélico Billy Graham. “Destilava-se veneno contra a fé católica”, recorda Ryan, que tem agora 30 anos, porque os católicos rezavam aos santos e praticavam rituais supostamente sem base bíblica.

Anumeha Jhunjhunwala, que tem agora 27 anos, vivia em Calcutá (Índia) e era, como todos os seus, de religião hinduísta, e rezava ao levantar-se e ao deitar-se a seus antepassados no pequeno templo doméstico. Proveniente de uma família de classe alta, frequentava o prestigioso colégio privado protestante, de modo que conhecia bem o Pai-Nosso, como também hinos clássicos como Amazing Grace. Em relação à Igreja, havia ouvido falar de Madre Teresa.

Os dois jovens se encontraram nos Estados Unidos, num café da cidade de Des Moines (Iowa), em 2009, em torno de um interesse comum. Ryan trabalhava para a empresa de auditoria Ernest & Young e estava fazendo pós-graduação na Universidade de Drake, onde ela queria aprender o mesmo que ele: como ajudar os mais necessitados a abrir seus próprios negócios mediante microcréditos.

Começaram a falar de sua fé e de sua comum vocação, e procuraram uma igreja cristã não-denominacional, onde ela começou a viver um sentido de comunidade de fé mais privado do que o que se praticava na sua terra natal.

“Pesadelos”... Vestida como Madre Teresa

Quando Anu disse a seus pais que estava para tornar-se cristã, foi para eles “devastador”. Os telefonemas da Índia se tornaram menos frequentes, as conversas mais curtas, criou-se uma distância entre ela e seus pais: “Tinham pesadelos vendo-me vestida como Madre Teresa”, recorda a jovem. Sua mãe confirma: “A verdade é que pensei que havia perdido minha filha para sempre”.


Por isso não lhes agradou ver aparecer aquele ruivo magro, Ryan, em sua porta, quando voltou com ele em 2009 para pôr em marcha um projeto de microcréditos em Calcutá. Mas logo gostaram da tranquilidade e da amabilidade do rapaz e, em 2010, em uma segunda estada, a mãe de Anu foi ao ponto: “Quando vão se casar?”.  


Era justamente o motivo desta viagem, de modo que com a exigida permissão, contraíram matrimônio em novembro de 2011 na catedral anglicana de São Paulo, em Calcutá, à qual compareceram também os pais de Ryan. Para os familiares de Anu era a primeira vez que punham os pés num templo cristão.

O lugar: a missa, “igual em todas as partes”.

Durante a lua de mel exploraram sua fé. Visitaram igrejas em Londres, Paris e Roma. Foi ali que começaram a ver com clareza. Foram escutar o Papa Bento XVI junto com uma multidão de pessoas de todos os países, da Índia inclusive. E algo chocou Anu, que havia visitado junto com seu marido igrejas católicas em Des Moines: “A missa era a mesma em todos os lugares do mundo. Isso te fazia sentir realmente em casa seja em Paris ou em Roma. O que se dizia em francês em Paris, havia sido ouvido em Des Moines algumas horas antes”. “Então compreendemos”, acrescenta Ryan, “que formávamos uma comunidade com o resto do mundo”.

Decidiram então fazer-se católicos... e cabia dizê-lo aos pais dele. Foi tão “devastador” como quando Anu fez o mesmo com os seus pais em sua primeira viagem em direção à fé. “Ryan havia escolhido ir contra ao que lhe havíamos ensinado”, lamenta o pai do jovem. Sua mãe explica seu mal-estar de forma mais teológica: os católicos creem que para ir ao céu devem realizar certos ritos, assim como boas obras, para ganhar uma graça que os protestantes creem que seja oferecida livremente a todos.

Ryan já tinha formação e lhes rebateu os argumentos com a história da Reforma nas mãos, mas não conseguiu convencê-los. Ele arguia poderosamente: as igrejas protestantes – alegava – amparam-se no carisma do pregador; as católicas, na Eucaristia.

O jovem casal, que então trabalhava no escritório do senador Jack Hatch, de Iowa (democrata e protestante), comoçou a formar-se na fé através de um catecismo de adultos a fim de se prepararem para o batismo, a comunhão e a confirmação. Foi então que Anu ficou grávida.

Surpresa em meio à tragédia.

Escolheram o nome, Ezra, e a data do batismo: a mesma que a do seu. Mas não eram os planos de Deus.

Quando os pais de Ryan e de Anu chegaram para o enterro do bebê, de seu neto, estavam destroçados e preparados para encontrar seus filhos no pior estado possível. Daí sua surpresa.

“Nós os havíamos subestimado”, admite a mãe de Anu, “recebeu-nos um casal muito tranquilo e inteiro. Eu estava preocupada com que notassem minha debilidade, minha ansiedade, meu coração destroçado. E ali estavam eles: acabavam de perder todo seu mundo, e se lhes via em paz. Perguntei-me: de onde vem esta paz?”.

Terminado o funeral, Ryan tomou o pequeno féretro e ele próprio o levou nos braços até o cemitério. Todos ficaram impressionados com a missa, durante a qual não puderam deixar de contemplar o grande crucifixo que a presidiu: “Era como se os olhos de Jesus os mirassem fixamente. Sentiram-no ali, assumindo a dor de todos eles”, conta Mike Kilen, ao relatar a história. E sentiram também que havia uma comunidade apoiando seus filhos neste terrível momento, e um amável sacerdote oficiando a missa por alguém que pouco havia vivido: “Tudo demonstrava”, explica Ryan, “que era um ser humano que merecia um enterro apropriado”. Os pais de Anu e de Ryan compreenderam então um pouco melhor o catolicismo.

Ao chegar ao cemitério, a mãe de Anu entendeu que um dia sua pequena e Ryan jazeriam sob a mesma terra que Ezra, sob a mesma cruz que agora adornava sua tumba. E entendeu melhor o “veremos o nosso filho” que consolava o casal.

“Toda a razão de ser de nossa fé”, afirma Ryan, “é que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou dos mortos”. Por isso sorria com seu filho morto nos braços, ciente de que um dia se reuniriam com ele.

O padre Zachary Kautzky, seu pároco, diria depois que ao vê-los no hospital com Ezra se recordou da Pietà de Michelangelo: “Disse-lhes que o Pai sabia o que é perder um Filho, e que a Santíssima Virgem Maria sabia o que é perder um Filho. Deus sabe o que significa”. O sacerdote ficou impressionado ao vê-los: “Sua ternura embalando o bebê, a fortaleza de Ryan, a amabilidade de Anu... eram impactantes”.

Quando traçou o sinal da Cruz na fronte do bebê morto, Anu compreendeu que essas mãos haviam sido consagradas pelas mãos dos sucessores dos apóstolos, e as deles pelas mãos do Redentor. De alguma forma Jesus havia tocado Ezra. Isto bastava para a esperança.

Tradução: OBLATVS

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Aos bispos o que é dos bispos, e a Deus o que é de Deus


“Pela primeira vez, bispos se hospedam em instalações de luxo”, é uma das manchetes do Estadão (leia aqui). Uma tal notícia jamais teria repercussão neste modesto blog, fosse outro o momento histórico em que vivemos.

Penso que os senhores bispos tenham direito a instalações dignas e confortáveis, sobretudo quando reunidos para o trabalho. Quando viajo, embora nunca me hospede num 5 estrelas, procuro um hotel limpo, bem localizado e com instalações dignas. Dispenso luxo ou atendimento privilegiado, e menos ainda sou dado a exigências excêntricas.

Ocorre que a mais nova toada é o regime austero a que se submeteu o novo papa e, ao que tudo indica, não se trata de uma imagem construída a propósito, mas de um modus vivendi do Papa Francisco desde antes do Sumo Pontificado.

Como não receber com satisfação o exemplo de despojamento e pobreza evangélica vindo do Papa? Discursos, homilias e, dentro em breve, teses de doutorado versando sobre uma “volta às origens” estão na ordem do dia. Não poderia faltar uma referência ao “Pacto das Catacumbas”, em que alguns bispos se comprometeram a viver “segundo o modo ordinário” do povo, a renunciar “à aparência ou à realidade da riqueza” nos trajes e nas insígnias, a abandonar os títulos e apelativos costumeiros.

Muito bem!

Concedamos que os bispos se instalem no melhor hotel de Aparecida. O que desejo a meu pai, desejo para os nossos bispos – sempre o melhor. Digo-o de coração, sem sombra de ironia.

Só não compreendo a razão de um par de sapatos (refiro-me aos múleos vermelhos de Bento XVI) enviar um sinal de opulência e ostentação, e a hospedagem dos bispos da CNBB no melhor hotel de Aparecida não. É bem provável que os sapatos de Bento XVI, usados por longo tempo, saiam mais baratos que um bocado de dias de hospedagem em hotéis de tal categoria.

Se trago o assunto à baila é somente com o intuito de servir de reflexão e não de me associar ao coro de demagogos que pretendem “desembelezar” a Igreja ou empobrecer a liturgia, ao mesmo tempo em que se locupletam com o sacrifício dos pobres e gastam fortunas com o supérfluo.

Aos bispos, enquanto nossos pais espirituais e mestres na fé, o melhor que pudermos oferecer, sem ostentação ou desperdício. E a Deus no culto, um tanto mais do que dermos a eles.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O primeiro golpe contra o Papa Francisco


Conforme o esperado, o jornal americano sedizente católico, National Catholic Reporter, desferiu um primeiro golpe contra o Papa Francisco em defesa das freiras dissidentes.

O artigo intitulado “Se anda como um pato”, em que o pato é o Papa Francisco, não merece o trabalho de uma tradução. Destaco, entretanto, algumas expressões que poderão ser conferidas no original (http://ncronline.org/blogs/ncr-today/if-it-walks-duck).

“Todo pão de boa-fé que as freiras americanas ofereceram a Francisco foi retribuído com uma pedra”.

“(...) a menos que as freiras adotem uma estratégia mais desafiadora, a discussão se limitará ao ‘como’ a disciplina será administrada e não ao ‘se’ o será.”

“O problema é a falsa esperança de que algo de substancial mudará da parte do Vaticano”.

“Mas Roma não fará mais que reiterar as acusações. Papas não se contradizem.”

Um leve golpe, vê-se, mas é somente o primeiro.

Estou pronto a concordar com a tese de fundo: um pato anda como um pato. O que esperar do Papa senão que confirme os irmãos na fé? O pato, com o máximo respeito à pessoa do Sumo Pontífice, deve andar e não mancar. E o Papa Francisco não mancou!


Diga-se contra o dogma relativista que não há afirmação sem a negação do seu contrário. Não dá para confirmar na fé, sem negar o que se opõe a ela. Penso que o próximo passo dos bispos americanos é partir para o ataque contra um jornal que se apresenta com o nome “católico” e, sob esta fantasia, promove o seu oposto. Os católicos precisam conhecer sob que vestes o diabo se apresenta, pois eles sabem atacar, e como! Quando alguma mínima reação é esboçada, apelam para a caridade fraterna, numa versão tão melíflua quanto antievangélica.

86º Aniversário de Bento XVI


Parabéns, querido Papa Emérito.

Ad multos annos!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Papa confirma reforma na vida religiosa feminina americana


Mais cedo ou mais tarde o dia haveria de chegar. E chegou. A lua de mel do Papa Francisco com o establishment católico termina hoje. Silenciosa e envergonhadamente küngs, boffs, bettos e outros bichos passarão a desconstruir a imagem do Papa e, num dado momento, passarão à aberta e escancarada oposição.

Sinceramente, não lamento; aliás, saúdo a aurora deste dia. Nada mais desconcertante para um Papa que um elogio desta súcia. O Papa Francisco lhes serviu enquanto último golpe contra Bento XVI, a quem odeiam ex imo corde, do lado esquerdo do peito. Ocorre que nunca morreram de amores por Bergoglio, nele procurando somente certos sinais que, vistos sob torta perspectiva, moldariam o anti-Ratzinger.

O início do fim chegou com o Comunicado da Congregação para a Doutrina da Fé acerca do encontro com a presidência da Leadership Conference of Women Religious in USA. Aos iniciantes, o resumo da ópera: a vida religiosa, sobretudo feminina, nos Estados Unidos passa pela maior crise de sua história. Ao lado de notáveis testemunhos de vitalidade e santidade, em geral vividos no silêncio da oração e das obras de caridade, freiras dissidentes são a cara da vida religiosa americana. Uma delas, a quem chamei de “noiva do Chucky”, chegou ao cúmulo de servir de voluntária numa clínica abortista, já que a promoção do aborto parece ser o quarto “voto” destas senhoras.

Estas senhoras têm um “magistério” próprio, o “magistério das freiras”, em oposição ao magistério do Papa e dos bispos americanos. O episcopado americano apelou à Santa Sé. A tal ponto chegou a perfídia destas senhoras que os bispos não puderam esperar a solução biológica, já que em poucos anos desaparecerão sem herdeiras e sem deixar saudades.

Bento XVI ordenou uma visitação apostólica, ou seja, um estudo cuidadoso da situação a fim de apoiar a autêntica vida religiosa e corrigir os desvios que nela se introduziram. Não foram poucas as resistências: de algumas freiras, de certos grupos de pressão ainda existentes nos EUA e, creiam, de alguns na Cúria Romana. O próprio secretário da Congregação para os Religiosos, o arcebispo Joseph Tobin, tomou o partido das freiras dissidentes e foi despachado para Indianápolis por Bento XVI em 2012. E o prefeito, Cardeal Bráz de Aviz? Bem, só fala grosso contra a Cúria Romana, afinal, nada mais confortável do que “chutar cachorro morto”.

Muitos esperavam que o Papa Francisco adotasse uma posição paternalista e transigisse com o império das freiras. Elas são articuladas, têm amigos importantes na política, nas corporações, nas instituições e sobretudo na mídia – esta terrível demolidora de reputações. Não é à toa que poucos têm peito para enfrentá-las.

Mas o Papa Francisco reafirmou o resultado do trabalho, chamado “Doctrinal Assessment” (Avaliação Doutrinária), e o programa de reformas desta mesma conferência de religiosas. E ao que parece, a Congregação para os Religiosos ficou à margem do processo. Quando e como as tão esperadas reformas virão é difícil prever. Mas, como bom reformistas, sabemos esperar.  


sábado, 13 de abril de 2013

Os "conselheiros" do Papa Francisco


A Secretaria de Estado comunicou que o Papa Francisco criou um grupo de cardeais “conselheiros” a fim de: 
a) auxiliá-lo no governo da Igreja universal; 
b) estudar um projeto de reforma da Cúria Romana. 

A criação de tal grupo teria sido sugerida durante as congregações gerais anteriores ao Conclave. Os oito escolhidos foram:

Da América Central: Cardeal Maradiaga de Tegucigalpa (Honduras), coordenador do grupo;
Da América do Norte: Cardeal O’Malley de Boston (EUA);
Da América do Sul: Cardeal Errázuriz Ossa de Santiago (Chile);
Da Europa: Cardeal Bertello, Presidente do Governadorato do Vaticano (Itália); e Cardeal Marx de München (Alemanha);
Da Ásia: Cardeal Gracias de Bombay (Índia);
Da África: Cardeal Pasinya de Kinshasa (Congo);
Da Oceania: Cardeal Pell de Sydney (Austrália).

Nomeou secretário o Bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro. O grupo se reunirá somente em outubro, mas os integrantes já estão em contato com o Santo Padre.

Da notícia acima se notam:

1) A ausência do Secretário de Estado. Obviamente será substituído dentro de pouco tempo.

2) Três hipóteses se impõem: o futuro secretário de Estado é um dos integrantes (Bertello?); o futuro secretário de Estado será incorporado ao grupo após a nomeação; ou o futuro secretário de Estado ficará de fora do grupo, o que é bastante implausível.

3) Obedeceu-se ao critério geográfico. O continente americano mereceu 3 representantes e o europeu 2, os demais tiveram um representante cada.

4) A ausência de um cardeal brasileiro, o que não deixa de ser revelador. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Novo Arcebispo de Buenos Aires

Papa Francisco nomeou seu sucessor na Sé de Buenos Aires. Trata-se do bispo de Santa Rosa, Dom Mario Aurelio Poli, de 65 anos.



quinta-feira, 21 de março de 2013

Francisco, um dom da Providência




Muitas e discrepantes têm sido as reações à eleição do Cardeal Jorge Mario Bergoglio ao Sólio Pontifício. Criou-se, desde o primeiro instante, um papa virtual ao lado do Papa real – para usar uma expressão de Bento XVI, forjada originalmente em relação ao Concílio Vaticano II.

Também eu tenho algo a dizer sobre o Papa Francisco e, sinceramente, espero não estar a produzir mais uma falsa imagem do Sumo Pontífice. Ademais, devo acrescentar que minha visão está necessariamente condicionada pela fé e informada pela razão. É, portanto, o modo como um católico, sobretudo, vê o novo Papa.

A verdade é que eu temia não nutrir o mesmo afeto que tenho por Bento XVI pelo novo papa, fosse quem fosse. Os que me conhecem sabem da minha profunda devoção a Bento XVI. Por ele tenho um amor de filho a um pai espiritual. Não se trata de pura obediência ou reverência devidas a todo e qualquer papa, mas de profunda gratidão por ter me ajudado a progredir na fé de um modo que não saberia traduzir em palavras. Por mais que três quadras da minha existência tenham transcorrido sob João Paulo II, é Bento XVI o papa da minha vida!

Como imaginar que qualquer cardeal pudesse estar à altura do “meu” papa?

Destas sensações tão humanas – não obstante suas conotações espirituais – eu sabia que devia passar a uma atitude de fé católica – da pessoa à função, de Bento XVI a Pedro. Um católico não está ligado a este ou àquele papa, mas a Cristo e a seu Vigário. Como bom aluno salesiano, eu devia ir de “Viva Bento XVI!” a “Viva o Papa!”.

Duvido que haja algum leitor habitual do blog que duvide da surpresa e perplexidade com que recebi o anúncio da eleição do cardeal argentino. Eu esperava, como tantos, um cardeal mais jovem. Eu não esperava um cardeal que fora apontado, com ou sem razão, como o anti-Ratzinger no conclave de 2005.

Ocorre que muito pouco eu conhecia do Cardeal Bergoglio. As escassas referências eram um tanto negativas. Nada grave, é verdade, que o tornasse indigno da Cátedra de Pedro, mas suficientemente fortes para que eu o considerasse menos apto a prosseguir com a obra de restauração de Bento XVI.

Então esperei alguns dias para escrever este texto. Se o faço somente agora é porque minha insatisfação inicial foi radicalmente transformada em júbilo. Do contrário, este blog estaria fechado para balanço, porque eu jamais faria juízo de valor negativo sobre o “doce Cristo na terra”. Eu me calaria até a eleição de seu sucessor. Sobre uma ou outra decisão pastoral sua talvez – não o fiz a respeito de Bento XVI? –, sobre seu pontificado definitivamente não!

A razão da espera é que eu gostaria que as palavras brotassem do funda da alma e com a convicção que costumo ter, mesmo quando me equivoco. Não palavras protocolares e hipócritas que escondessem um pensar e um sentir opostos.

Considero o Papa Francisco como sendo o papa da Providência Divina, embora não me seja dado perscrutar seus insondáveis desígnios. Percebam que não se trata de mera conformação, como se dissesse: “bem, se é o papa que temos, aceitemos o papa”.  Estou a dizer que tinha de ser ele o papa!

Por que cheguei a tal conclusão não é fácil dizer. Creio que a graça de Deus me antecedeu e me acompanhou neste processo ao longo dos últimos dias e, num dado momento, percebi uma verdadeira alegria com o novo Papa.

Mas alguns elementos certamente contribuíram para este meu ato de fé e, como tal, razoável; não me deixo convencer por fáceis consensos, lugares-comuns e emocionalismos baratos. Nem estou a afirmar que o Sumo Pontífice seja perfeito e que satisfará em tudo às nossas expectativas. Mas, novamente citando Bento XVI, estou convencido que Deus sabe trabalhar com instrumentos limitados.

O Papa Francisco é um homem de fé. Seus primeiros atos e palavras já deram mostras de ser ele profundamente espiritual. Seu incipiente magistério, e soma-se aqui o anterior como Arcebispo de Buenos Aires, centra-se na pessoa de Cristo, na ação do seu Espírito, na compreensão do que seja sua obra, a Igreja. Mesmo que não esteja entre os grandes teólogos de nosso tempo – o que definitivamente não é defeito – tem traduzido em linguagem simples e direta as verdades basilares do cristianismo. Que se conformem aqueles que esperam – por absurdo – que o Papa Francisco ensine uma doutrina nova, sua ou destes lobbies anticatólicos acastelados no corpo eclesial.

Uma preocupação recorrente entre aqueles que frequento se dá no campo da Sagrada Liturgia. Para nós, a Liturgia da Igreja é mais que cerimônias e rituais. É canal de fé e salvação, é mistério divino, diz respeito ao primeiro mandamento da Lei de Deus. Assim se compreende quão sensíveis somos a qualquer variação no trabalho de restauração iniciado por Bento XVI.

Mas o que temos visto? Um papa piedoso, sóbrio e, o mais importante, que se diminui para que Cristo cresça. Eu receava muito a eleição de alguém que, no afã de se fazer acessível, atraísse para si a atenção dos fiéis no culto divino. Eu temia um “pop star” da Missa, à semelhança do que tão bem conhecemos no Brasil.

Senti, sem dúvida, algumas perdas em relação a Bento XVI, sobretudo no tocante à beleza dos variados símbolos litúrgicos e para-litúrgicos. Mas convenhamos, o Papa Francisco preservou intacto o essencial. Os graus, os estilos, as formas, os materiais são todos elementos acidentais do culto e que se adéquam mais ou menos perfeitamente à beleza divina que se quer comunicar ou à beleza humana que se quer oferecer. É certo que não veremos as belas capas barrocas de nosso patrimônio litúrgico, mas também não veremos as capas de “Halloween” envergadas em outros tempos.

Também sentirei a ausência da Missa “versus Deum”, rara, mas praticada por Bento XVI e que fazia uma conexão com o passado e apontava para o futuro da liturgia romana. Mas também isto podemos esperar.

O papa não usa múleos, mozeta; seu anel não é de ouro, sua cruz é de ferro; nada de alvas rendadas; o papa não canta – e chi se ne frega! Ora, podemos suportar isto. Acaso foi este o magistério litúrgico de Bento XVI? Tenho outras preocupações neste campo.

Importa mesmo que o novo Papa mantenha a disposição do motu proprio Summorum Pontificum, porque aí está mais do que uma concessão aos tradicionalistas. É uma compreensão de Tradição e autoridade, sem mencionar o efeito benéfico que já produz e haverá de produzir nas futuras gerações de padres. Uma reviravolta neste campo seria desastroso, não para a FSSPX, mas para a Igreja.

Importa mesmo que o novo Papa seja firme no propósito de corrigir os abusos e exigir fidelidade ao Missal de Paulo VI. Não veremos, creio, uma reforma da reforma no presente pontificado, mas é possível progredir com os elementos que já temos. Alguém se surpreenderia se a CNBB apresentasse, com toda pressa, uma tradução esculhambada do Missal Romano com um atraso de 11 anos, julgando ser de fácil aprovação sob Francisco o que não teria sido com Bento XVI? Não estou afirmando, senhores, estou apenas considerando hipóteses.  

Importa mesmo que o novo Papa nos dê uma catequese permanente do Sacrifício Eucarístico através de seu modo de celebrar a Santa Missa, o que até agora tem feito. Não peçamos mais de um jesuíta. Meu velho diretor espiritual dizia jocosamente que “jesuíta” e “liturgia” são palavras que não se conjugam bem. A “devotio moderna”, que tanto caracterizou a Companhia de Jesus, põe o acento sobre outros aspectos, o que não a impediu de dar grandes santos e místicos à Igreja.

Uma virtude humana do Papa assaz importante e providencial é, no meu sentir, seu espírito de pobreza evangélica. Não me refiro aos arreios litúrgicos, que tributo a uma questão de gosto e estilo pessoal. Refiro-me ao desprezo pelo luxo e o supérfluo. Não nos esqueçamos que o Papa viverá numa corte em que há santos e dandies. A estes últimos o Santo Padre dará o exemplo, tão necessário em nosso tempo, em que os espertos filhos das trevas – como outrora Lutero – sabem se utilizar das fraquezas humanas para ferir a Igreja. A Cúria precisa ser reformada, é inegável, mas só alguém com autoridade moral provinda do exemplo pode fazê-lo no sentido autêntico.

E a todos nós clérigos, sua simplicidade no trato com todos nos recorda que o ministério sacerdotal não nos torna “príncipes” à moda do mundo, na busca de poder, riqueza ou status social. Aquela imagem de “principezinho” que às vezes transmitimos com nossas manias, exigências, tons de voz – tipicamente autoritária e contrária à pobreza evangélica – precisa desaparecer do horizonte de nossas paróquias e dioceses. O papa dá-nos o exemplo e seu exemplo certamente nos desestabilizará a muitos de nós.

Uma parcela essencial no seu magistério será certamente o amor ao pobres e à criação. Nós permitimos que os inimigos da humanidade sequestrassem e manipulassem a seus propósitos vis estes elementos integrantes do patrimônio cristão. Quantas pessoas bem intencionadas seguiram estas bandeiras, desprovidas de seu fundamento espiritual, por incompetência nossa. Um papa que os proponha com novo vigor e com sua base espiritual poderá encabeçar uma verdadeira “reconquista”. Quem deu dignidade ao homem, amou e serviu os pobres e viu a bondade na criação mais que a Igreja de Cristo ao longo dos últimos 2000 anos? Os que o negam são filhos do pai da mentira. Nada de ideologia libertacionista ou ecologista, mas a doutrina cristã genuína que nossos santos praticaram e praticam. Creio que o Papa porá isto sob nova luz – “para que vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai”(Mt 5,16).

E chegando aos finalmentes, imagino que meu amor ao novo Papa cresça na medida em que passarem os encômios iniciais, vindos de todos os lados e dos mais escabrosos, e chegarem finalmente as perseguições. São elas que dão autenticidade ao ministério do Papa. Ele o afirmou inequivocamente diante dos cardeais na Sistina:

Este Evangelho continua com uma situação especial. O próprio Pedro que confessou Jesus Cristo com estas palavras: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo, diz-lhe: Eu sigo-Te, mas de Cruz não se fala. Isso não vem a propósito. Sigo-Te com outras possibilidades, sem a Cruz. Quando caminhamos sem a Cruz, edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor.

Eu queria que, depois destes dias de graça, todos nós tivéssemos a coragem, sim a coragem, de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor; de edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor, que é derramado na Cruz; e de confessar como nossa única glória Cristo Crucificado. E assim a Igreja vai para diante.

Viva o Papa!

quarta-feira, 13 de março de 2013

Com amor ao Santo Padre

Santidade,

Amo-vos desde já!

Não rezo muito, mas o pouco sempre incluirá o nome de Vossa Santidade!

Viva o Papa!


Bergoglio é Papa Francisco

Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam!

Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum,
Dominum Georgium Marium,
Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem Bergoglio,
Qui sibi nomen imposuit Francisci.

Anuncio-vos uma grande alegria: temos o Papa!
Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor,
Senhor Jorge Mario
Cardeal Bergoglio, da Santa Igreja Romana,
O qual se impôs o nome de Francisco.

Habemus Papam

terça-feira, 12 de março de 2013

Fumaça Preta (1º Escrutínio)

Como esperado, a primeira fumaça foi preta. Ainda não temos o Papa.

O 1º Escrutínio é conhecido como "primeiríssimo turno", porque dele surgem os nomes que recolhem mais consensos.


Se virem a fumaça acima, é sinal de que foi eleito o "meu" candidato.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Qual o futuro da reforma da reforma litúrgica?


Um dos mitos cultivados no ambiente eclesial pós-conciliar é o da “des-legislação”. A isto chamo a ideologia segundo a qual não deve haver espaço para leis na Igreja. As leis seriam contrárias ao espírito cristão e, como tais, deveriam ser banidas.

Não gastarei mais do umas poucas linhas para dizer preliminarmente que não é a tais leis que se refere o Apóstolo São Paulo – que aliás deu várias às comunidades por ele fundadas –, quando proclamou a liberdade cristã e a caducidade da lei mosaica. Quem desejar se aprofunde no estudo da teologia paulina e das igrejas primitivas.

Não obstante a mentalidade antilegislativa, o pós-concílio viu a produção do novo Código de Direito Canônico de 1983. Celebrado por uns, ignorado por outros e, por muitos, admitido como um mal necessário para ser usado raramente.

Não resta dúvida, porém, que tenha se verificado no âmbito litúrgico um verdadeiro caos legal, em razão do enxugamento das rubricas (deveras excessivas nalguns casos), das ambiguidades das novas e da perigosa concessão à criatividade do celebrante.

Atribuir, portanto, os abusos litúrgicos somente à malícia de alguns me parece injusto. Misture uma dose de deficiente formação teológica; uma porção de estímulo à participação dos fiéis; duas colheres de boa intenção em tornar a liturgia mais atraente; um litro de desoneração, lacunas e ambiguidade das rubricas; bata no liquidificador. O sumo não poderia ser outro senão dessacralização do mais precioso tesouro da Igreja.

É verdade que as coisas evoluíram positivamente, sobretudo no pontificado de Bento XVI. O de João Paulo foi desastroso, neste aspecto, apesar das tentativas feitas através de algum ensinamento magisterial bem intencionado. Mas é claro que aquilo não poderia “pegar”, pois as liturgias pontifícias não davam o bom exemplo. É claro que o papa era piedoso, devoto, santo até. Sei que atraio a antipatia de alguns ao dizer o que digo mas, como sabem, não me importo! Foi João Paulo II quem inaugurou a era das "missas show"; mesmo o pai da Missa nova, Paulo VI, era mais sóbrio, talvez por temperamento. 

Atenção, precipitados, aqui não há qualquer juízo sobre a santidade pessoal do Beato João Paulo II, de quem não sou digno sequer de desamarrar as sandálias. O fato é que muitos o imitamos, indo bem além das criatividades que o pontífice se permitiu, e protagonizamos todo tipo de espetáculo e assistimos a verdadeiras aberrações.

Bento XVI preferiu o caminho do exemplo pessoal de “ars celebrandi”, somado a seu magistério litúrgico, seja anterior, seja posterior ao sumo pontificado. Mas o fato é que isto não basta. Faltou – digo isto em total reverência ao meu amado papa emérito – uma legislação integrativa, corretiva que tornasse a reforma da reforma um caminho sem volta. A missa nova precisa de um melhoramento significativo – e isto Bento XVI reconheceu mais de uma vez – tanto nos textos como nas rubricas, e sobretudo nestas.

A lei litúrgica, aliás, toda lei na Igreja tem como fito a salvação das almas. A lei protege os fiéis, sobretudo os mais indefesos e simples, da arbitrariedade de celebrantes autocentrados que atribuem a si, mais do que à força espiritual da oração da Igreja, a eficácia do culto. Bento XVI teria nos protegido de eventuais tentações populistas e dessacralizantes se tivesse atuado uma profunda reforma dos ritos, das formas, dos textos produzidos no pós-concílio e sob inegável influência da mais profana e protestantizada escola litúrgica do século passado. Um reforma à luz da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, da Mediator Dei e de tantas produções teológico-litúrgicas de qualidade era urgente.

Mas não fez!

Corremos sério risco de retroceder. Pense na eleição de alguns purpurados dados como papáveis. Podemos voltar às missas papais “show”, em que o centro da atenção é o papa, seus gestos largos, calculados ou não, seus excessos de comunicação assembleística, muito eficientes em encher praças e comover multidões, mas pouco tradutores do mistério, do sacro comércio de bens entre o céu e a terra.

Nem o papa está acima da liturgia – outro claríssimo ensinamento de Bento XVI. Ser papa não lhe dá qualquer direito “sobre” o culto. Ele é promotor e guardião e deve ser, se necessário, seu bravo defensor.

Não, a liturgia não é uma aspecto acidental ou meramente estético. Ela está umbilicalmente ligada a fé, sem a qual não se pode salvar. Quisera estar enganado e serei o primeiro a publicar um “erramos”, e com muita alegria.

Rezemos pelo novo Papa!

sábado, 9 de março de 2013

Divulgados horários relativos ao Conclave


Pe. Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, anunciou os horários que serão observados a partir do dia 12, início do conclave.

Em parênteses, o horário de Brasília. São eles:

Traslado dos Cardeais para a Santa Marta – terça, 12 a partir das 7:00 (3:00).
Missa “Pro eligendo Romano Pontifice” – terça, 12 às 10:00 (6:00).
Ingresso na Capela Sistina – terça, 12 às 16:30 (12:30)
Primeiro Escrutínio – terça, 12 às 19:00 (15:00).

Durante o desenrolar do Conclave

Santa Missa Diária às 8:15 (4:15).
Ingresso na Sistina (parte da manhã) às 9:30 (5:30).
Ingresso na Sistina (parte da tarde) às 16:00 (12:30).

“Fumaças”

Se eleito, no fim do primeiro escrutínio entre às 10:30 e 11:00 (6:30 e 7:00).
Ou no fim do segundo escrutínio às 12:00 (8:00).
Se eleito, no fim do terceiro escrutínio entre 17:30 e 18:00 (13:30 e 14:00).
Ou no fim do quarto escrutínio às 19:00 (15:00).

Anúncio da Eleição

Entre a eleição e o anúncio do nome do eleito se deverá esperar cerca de 40min.

O sisteme televisivo do Vaticano transmitirá os eventos públicos ao vivo, pela internet: (http://www.vatican.va/video/index.html).  

Fonte: Papas, Cardeais e Conclaves

sexta-feira, 8 de março de 2013

A providencial data inicial do Conclave


Não creio que tenha sido intencional e, por isso, julgo providencial a escolha do dia para o início do Conclave: 12 de março, dia do Papa São Gregório Magno no Calendário Romano tradicional.

A Epístola da Missa é de São Pedro (1Pd 5, 1-4.10-11). O texto poderia ser um "bilhete" do Pontífice Romano emérito aos cardeais conclavistas. O Evangelho é o do Primado (Mt 16, 3-19).

Se a Epístola aponta para as qualidades humanas e espirituais do eleito, o Evangelho incita à confiança nas promessas de Nosso Senhor.

Julgar que bastam as qualidades humanas e mesmo espirituais de um cardeal é heresia; desprezar as mesmas, com apelo às promessas, é pecado contra Deus. Rezemos a Deus, pela intercessão do grande pontífice, a fim de que seja eleito um cardeal repleto de virtudes e cuja fé em Deus venha antes de quaisquer considerações humanas.

terça-feira, 5 de março de 2013

Sarebbe un bel Papa


O Cardeal O’Malley de Boston ou, como ele prefere, Cardeal Seán, bem que poderia ser nosso próximo papa. Não, ele não é meu candidato. Como escrevi anteriormente, não revelarei o nome do meu predileto.

Tenho, entretanto, pelo Cardeal Seán uma admiração que vem de longe. Pela sua trajetória episcopal marcada pelo zelo missionário e restaurador. Devolveu à Igreja em Boston – entre as mais gloriosas na história do catolicismo americano – a credibilidade que perdera. Não sem razão. É uma homem piedoso, santo, simples – um genuíno filho de São Francisco.

Escrevi-lhe recentemente que rezo por ele. Rezo porque sei que ele tem mais chances de que meu candidato. Rezo para que, uma vez eleito, olhe pelo Brasil como João Paulo II e Bento XVI olharam pelos EUA. A Igreja nos EUA já é outra em relação a dos anos 80 e 90, outros são os bispos. Mais fiéis (creiam-me, os números que apontam para um declínio são enganadores), mais conversos, mais seminaristas, mais sacerdotes. Não voltaram aos números estratosféricos dos anos anteriores ao Vaticano II, mas chegarão lá.

O Cardeal Seán tem 68 anos. Nasceu em 29 de junho de 1944, dia de São Pedro (hehehe, Petrus Romanus). Oriundo de Lakewood, estado de Ohio, foi batizado como Patrick, em homenagem a São Patrício. Ingressando na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos tomou o nome de Seán, em honra de São João Batista.

Na ordem franciscana fez os estudos seminarísticos e foi ordenado em 29 de agosto de 1970, dia do martírio do Precursor. Na Universidade Católica da America tornou-se mestre em Educação Religiosa e doutor em literaturas espanhola e portuguesa. O cardeal fala português fluentemente.

Seu ministério sacerdotal é marcado pela dedicação às comunidades espanholas e portuguesas nos EUA, tendo sido diretor do Centro Católico Hispano da arquidiocese de Washington.

Foi nomeado bispo coadjutor de Saint Thomas, nas Ilhas Virgens, pelo Papa João Paulo II em 1984. Em 1992 foi transferido para a Sé de Fall River, onde teve de enfrentar sério problemas de abuso sexual por parte de clérigos. Foi transferido em setembro de 2002 para Palm Beach, em razão de sua notória capacidade de enfrentar casos de abuso sexual. Pelo mesmo motivo foi promovido a Arcebispo de Boston em julho de 2003, de todas a mais afetada pelos escândalos.

Desde então se notabilizou pela seriedade, sensibilidade, coragem e proximidade com os fiéis, sobretudo os mais vulneráveis.

Foi criado cardeal pelo Papa Bento XVI em 24 de março de 2006. O papa atribuiu-lhe a Igreja titular de Nossa Senhora da Vitória. Título providencial mais do que merecido pelo filho de São Francisco, devoto da Imaculada, e que obteve extraordinária vitória sobre os que – de dentro e de fora – feriam a Igreja nos Estados Unidos.

A desfavor dos Cardeal Seán pesa a nacionalidade. O antiamericanismo é um dos poucos preconceitos tolerados hodiernamente – ao lado do anticatolicismo. Espero que os cardeais não se deixem conduzir por uma categoria de pensamento tão antievangélica e elejam, ou meu predileto, ou o Cardeal Seán, a despeito de seu lugar de nascimento.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Dalai Lama "reza" por Bento XVI


O Dalai Lama dos tibetanos é um líder bastante admirado no Ocidente. É difícil, entretanto, precisar as razões de uma tal veneração. De todo modo, quando perguntados, seus admiradores dirão que se trata de sua luta em defesa de um Tibete livre (Free Tibet). Ocorre que a posição em favor de um Tibete livre é necessariamente uma posição contrária – uma oposição – à política de opressão religiosa da China, que persegue sobretudo os cristãos.

Onde estão os admiradores do Dalai Lama quando os direitos dos cristãos (católicos e protestantes) são violados na China? Ou a causa só é válida em se tratando do Tibete e dos monges budistas?

Não se trata de quaquer paradoxo, mas de hipocrisia e de ódio ao cristinanismo. Por isso quando vejo um destes atores holywoodianos saírem em defesa do Dalai Lama, fico à espera de uma investida contra o Santo Padre, à Igreja Católica ou ao cristianismo em geral.

Bem, o Dalai Lama aparece aqui pelas recentes declarações que deu sobre a renúncia de Bento XVI. Numa clara demonstração de apreço, em que não é seguido pelos seus admiradores, disse sentir uma certa tristeza, que Bento XVI é um homem inteligente e que sua decisão “realística” teria sido tomada em benefício dos cristãos. Disse ainda que reza “a fim de que a parte restante de sua vida seja muito útil e rica de benefício para todos”.

Obrigado, Dalai Lama, de coração. Sobretudo quando na Igreja há quem não tenha os mesmos sentimentos, suas palavras dão alegria aos católicos que amam seu papa emérito.

Mas não posso calar uma pergunta: a quem reza o Dalai Lama?

Aprendi que o budismo é uma religião não-teísta ou materialista, embora alguns estudiosos considerem esta concepção um tanto simplista. O fato é que o budismo não admite a existência de um deus pessoal ou de vários deuses, como o hinduísmo.

Então, a quem reza o Dalai Lama?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

SÉ VACANTE


Desde as 16h de hoje, 28 de fevereiro de 2013, a Santa Sé Apostólica está vacante.

Sua Santidade o Papa Bento XVI, Romano Pontífice Emérito, se encontra na residência pontifícia de Castel Gandolfo.

Com a Cátedra de Pedro vazia, o governo da Igreja está interinamente confiado ao Sacro Colégio dos Cardeais. O Decano fará a formal comunicação aos cardeais e os convocará para as Congregações Gerais que precedem o conclave.

Na próxima segunda-feira, primeira Congregação Geral, ou no mais tardar, no dia seguinte, será definida pelo conjunto dos Cardeais Eleitores a data de início do Conclave.

Os padres deverão pedir aos seus bispos a autorização para usar o formulário da Missa "pro eligendo Romano Pontifice", com paramentos brancos, nos dias de semana da quaresma. Também, com licença episcopal, pode-se utilizar o formulário da Missa Votiva do Espírito Santo, com paramentos vermelhos. Podem incluir, num mesmo pedido, a autorização para usar o formulário da Missa "pelo Papa", com paramentos brancos, após a eleição do Sucessor de São Pedro (sempre nos dias de semana, e nunca nos domingos da Quaresma ou nos dias da Semana Santa).

Orações pelo Papa Bento XVI poderão ser incluídas nas preces dos fiéis, mas de forma alguma no Cânon da Missa.

Adote um Cardeal

Iniciativa interessantíssima:

Clicando em Adote um Cardeal você será levado a uma página inicial; nela clique em "adopt", você será redirecionado a uma outra onde completará seu nome, e-mail e um código alfanumérico; clique em "register and adopt a cardinal".

Aparecerão a foto e o nome do cardeal pelo qual você rezará nos próximos dias, durante o conclave e, segundo recomendam, nos três dias seguintes à eleição.

Nada impede que você reze por ele ao longo de sua vida.

Aos curiosos: fui sorteado com o Arcebispo de Praga, o Cardeal Dominik Duka.

Carta dos católicos chineses ao Papa Bento XVI


A carta abaixo foi recentemente entregue ao Santo Padre e, segundo fontes que lhe são próximas, teria lhe dado grande contentamento.


Caro Santo Padre,

Como sabeis, há muito tempo nós, clero e fiéis na China, nutrimos um particular afeto por Vossa pessoa. Queremos-vos bem e oferecemos todos os dias por Vós as nossas orações e Missas. Todavia, na tarde de 11 de fevereiro, chegou-nos a perturbadora e triste notícia: em razão da idade avançada e da fraqueza física, Vossa Santidade decidiu renunciar, no final deste mês, ao vosso ministério.

Embora muitos de nós não tenhamos tido a possibilidade de visitar-vos pessoalmente e Vós não tivestes tido qualquer possibilidade de visitar a terra da China no Extremo Oriente, a Vossa renúncia nos fez pensar no afeto e no amor mostrado por Vossa Santidade ao Povo chinês e aos Católicos chineses. “Neste mundo, todos os cristãos estão sofrendo por Cristo, mas somente os católicos na China sofrem, ao mesmo tempo, por causa de Sua Santidade, o nosso Papa, Bispo de Roma”: são as palavras de um ex-Delegado Apostólico na China, enquanto Vos apresentava a Igreja na China, alguns meses depois de Vossa eleição ao Sólio Pontifício. Depois, Vossa Santidade pareceu entrar num longo, profundo silêncio.

Todavia, sabemos que Vossa Santidade dedicou uma atenção particular à China e reservou um lugar especial no Vosso coração à Igreja Católica na China. Procurou promover o diálogo e aliviar a cruz que portamos mostrando preocupação e abençoando a China e o povo chinês. Durante os oito anos de Vosso Pontificado, estivestes sempre preocupado com o clero e os fiéis chineses com profundos sentimentos de amizade ao povo chinês.

Não esqueceremos que, por ocasião da Festa anual da primavera, não somente saudastes os povos de todas as Nações que celebram o Ano Novo Lunar, mas também enviastes bênção especiais às centenas de milhões de nossos compatriotas chineses.

Não esqueceremos jamais que, enquanto o revezamento da tocha da 28º edição dos Jogos Olímpicos de Pequim era obstaculizada por uma forte oposição, Vós generosa e justamente enviastes os melhores augúrios à China e ao Povo chinês que se preparava para aqueles Jogos.

Não esqueceremos que quando graves tempestades de neve atingiram o Sul da China; quando em 2008 um terremoto abalou Wenchuan em Sichuan; quando ocorreu o terremoto em Yushu, em Qinghai e deslizamentos de terra e inundações devastaram Zhouqu nem Gansu, em 2010, Vossa Santidade não somente expressou dor e chorou a morte de nossos compatriotas, mas dirigiu também um apelo à Igreja universal para que rezasse pelas vítimas, pelo pessoal de vários governos e pessoas de bom coração empenhadas na primeira linha de socorro nas zonas atingidas. E ainda dirigistes um apelo aos outros Países a fim de estenderem a mão à China e ao Povo chinês naqueles tempos difíceis. Vossa Santidade ofereceu por bem quatro vezes doações generosas da “Jinde Charities” através do “Cor Unum”.

Não esqueceremos ainda Vossas bênçãos e os Vossos cumprimentos pela publicação dos Missais em chinês simplificado. Nem esqueceremos que Vossa Santidade expressou publicamente tocantes congratulações aos novos líderes de nosso país e invocou uma generosa bênção sobre o povo chinês na recente Mensagem de Natal do último 25 de dezembro.

Não esqueceremos jamais a longa, histórica, carta ao clero e aos fiéis chineses e a oração que escrevestes pela China pouco depois de serdes elevado ao Sólio Pontifício. Não esqueceremos jamais que, nos últimos oito anos, só houve augúrios, saudações amigáveis e grandes esperanças expressas nas mensagens por Vós enviadas à China. Não obstante os conflitos e as dificuldades; não obstante as tristezas e as desilusões que pudéssemos Vos ter causado, sempre haveis abraçado a China e a a Igreja Católica na China com amor paterno, haveis respeitado e demonstrado compaixão e solicitude pelo povo chinês e pelos católicos. Sempre nos recordaremos disto com afeto nos nossos corações.

Nos últimos oito anos, quando tivestes de enfrentar situações internacionais complexas e incertas, Vossa Santidade fez todos os esforços para salvaguardar a dignidade humana, buscar a verdade, defender os valores da fé e promover ativamente a nova evangelização. Em 28 de fevereiro, Vossa Santidade deixará a Cátedra de Pedro com serenidade. A atitude livre e aberta que demonstrastes face ao poder, à honra e ao status, e a Vossa resposta forte, perseverante e humana aos vários desafios, conquistaram o respeito de todos. Estas coisas não somente comoveram o mundo, mas também tornaram difícil para nós – clero e católicos chineses – dizer-Vos adeus.

Perdoai as nossas fraquezas e limites! Santidade, desejamos que na Vossa futura vida recolhida continueis a cuidar da pequena grei chinesa e que permaneceis em contato com o povo chinês na oração. Também nós rezaremos por Vós e pelo Vosso sucessor!

Obrigado, caro Santo Padre! Nós, clero e fiéis chineses, não vos esqueceremos jamais. Para sempre Vos amaremos!

Fonte: Rádio Vaticana, via Papa Ratzinger Blog.
Tradução:: OBLATVS

Nosso Padre Santo



O Santo Padre acaba de concluir seu último encontro com os Cardeais e outros integrantes da Cúria Romana.

Na breve alocução que lhes dirigiu, o Papa termina fazendo referência a seu sucessor, o futuro papa, ao que acrescentou fugindo ao texto:

"Ao qual, desde já, prometo minha incondicional reverência e obediência"!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Obrigado, Santo Padre!


Eis que, em menos de 24 horas, a Santa Igreja estará sem papa. Não sem senhor, sem papa! Um papa não é senhor, mas servo; servo dos servos, na expressão de meu papa predileto, São Gregório Magno.

No lugar de Bento XVI, Nosso Senhor porá outro, seu escolhido, não necessariamente o melhor, mas o que Ele quer nos dar no presente momento. Que nos dê um servo, não um senhor!

O papa não é senhor da fé. Ele não pode mudá-la, acrescentar-lhe algo, adocicá-la, adaptá-la aos padrões contemporâneos – em suma, é servo da fé da Igreja. Deve anunciá-la, promovê-la, defendê-la, sacrificar-se por ela, até a efusão do sangue, se necessário.

O papa não é senhor do culto. Ele não pode criá-lo ex nihilo, adulterá-lo, extingui-lo – em suma, é servo da liturgia da Igreja. Deve guardá-la, promovê-la, incrementá-la.

O papa não é senhor dos cristãos. Ele não pode anunciar-se a si mesmo, promover-se a si mesmo, buscar o bem próprio, viver para si mesmo – em suma, é servo de Cristo e dos servos de Cristo. Deve amá-los, ensinar-lhes com a palavra e o exemplo, perdoá-los, corrigi-los.

O papa não é senhor do mundo. Ele não se deve deixar guiar pelos critérios mundanos, do business, dos mass media, do sufrágio universal, do politicamente correto, dos consensos universais, dos gestos teatrais e das palavras fáceis. Ele deve denunciá-los no que têm de perverso, antievangélico, desumano – em suma, é servo do Reino de Deus, da justiça e da paz, do amor e da verdade.

O mundo pede um papa moderno, eu peço um à moda antiga, tanto quanto as palavras de Nosso Senhor: “entre vós, não seja assim; quem quiser tornar-se grande, seja vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo”.

De um papa assim o mundo precisa, ainda que o rejeite. Nosso Senhor foi rejeitado pelo mundo que veio servir, salvando-o. Para que serviria um papa aplaudido pelo mundo, perdendo-o?


Minha oração e meu coração estão com o Papa Bento XVI nestas últimas horas de seu luminoso pontificado. Meus olhos, entretanto, estão fitos nas mãos do meu Senhor, Senhor dos Exércitos, Pastor Universal, Rei dos Reis.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Título e Veste de Bento XVI após 28 de fevereiro

Bento XVI terá o título de Papa emérito ou Romano Pontífice emérito. Também o pronome de tratamento Sua Santidade continuará a ser usado mesmo depois de efetivada a renúncia.


Ele usará a batina branca simples (que se vê na foto), sem mantelinha ou peregrineta. Não usará mais o anel do pescador e o selo que usava será destruído.


São estes os esclarecimentos dados hoje, em conferência na Sala de Imprensa do Vaticano, pelo porta-voz, Pe. Federico Lombardi.

Creio que, dados os esclarecimentos acima, também se aplicariam analogamente o título Bispo emérito de Roma e o apelativo Santo Padre.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sugestão de Blog


Um novo blog (Papas, Cardeais e Conclaves) traz informações em português sobre os cardeais e o próximo conclave.


Homenagem da Igreja Ortodoxa Russa


O Papa da Coerência

Metropolita Hilarion de Volokolamsk
Presidente do Departamento para as relações exteriores do Patriarca de Moscou




Em 11 de fevereiro passado, o inesperado anúncio da renúncia ao ministério do Papa Bento XVI surpreendeu profundamente não somente a Igreja Católica, mas toda a cristandade e a opinião pública mundial. Na sua condição de progressivo declínio de forças, da qual ele próprio falou, a decisão de deixar o pontificado deve ser considerada um ato de grande coragem e exemplar humildade.

Neste nosso mundo em que tantos que não detêm o poder procuram doentiamente alcançá-lo, e tantos que o detêm procuram, a qualquer custo, não o perder, a voz humilde do primaz da Igreja cristã mais numerosa do mundo, que diz renunciar livremente ao exercício da autoridade, por causa da fraqueza física e para o bem da Igreja, se põe em flagrante contraste com a mentalidade corrente. Uma vez mais o Papa Bento XVI mostrou-se coerente com a própria linha de integridade moral e de rejeição de compromisso.

Estamos certamente ainda muito próximos do anúncio da renúncia de Bento XVI para tentar um balanço de seu pontificado. Diria, porém, que uma das chaves interpretativas da figura deste Papa e de seu pontificado talvez seja exatamente esta sua coerência consigo mesmo e com a tradição da Igreja, o seu não ceder às fáceis modas passageiras, às fortes pressões da cultura dominante.

Papa Ratzinger é um teólogo de grande inteligência, sem dúvida um dos mais notáveis teólogos católicos contemporâneos. A sua obra de teólogo, antes e depois de sua ascensão à cátedra pontifícia – de seus livros sobre a figura de Jesus às suas encíclicas e exortações apostólicas, da declaração Dominus Iesus ao Catecismo da Igreja Católica – representa uma contribuição de notável importância à teologia católica moderna. Um dos argumentos mais tratados por ele, o da relação entre fé e razão, se põe em continuidade com quanto já dito pelo seu predecessor, Papa João Paulo II.

Outro tema caro ao Papa Bento XVI, desde o início do pontificado, é o da reafirmação dos valores morais cristãos, seu firme não à “ditadura do relativismo”. É uma posição com a qual nós ortodoxos estamos plenamente de acordo. Hoje no mundo inteiro, mas sobretudo na sociedade ocidental, assiste-se a uma perigosa perda de qualquer orientação moral. A mentalidade corrente desejaria cancelar toda distinção ente o bem e o mal. O liberalismo moral extremista e militante impôs o “politicamente correto” como uma nova ideologia de massa, tão absolutista quanto os maximalismos políticos que afligiram o século XX. Se lemos atentamente os evangelhos, vemos que a misericórdia do Senhor Jesus na relação com os pecadores jamais significou condescender com o pecado, nem confundir o mal com o bem. Pessoalmente estou convencido de que a Igreja, hoje talvez mais do que nunca, embora permanecendo aberta a relação com qualquer um e propondo o caminho da salvação a todo homem, deva oferecer aos fiéis as linhas de comportamento muito claras. Diria que o atual Pontífice mostrou claramente como a abertura ao diálogo não deva jamais significar traição aos mandamentos de Cristo.

Ele foi frequentemente considerado um conservador ou um tradicionalista, e tal fama lhe rendeu críticas e uma certa impopularidade. Creio que seja importante refletir detidamente sobre que coisa significa a tradição para nós cristãos. O cristianismo é a religião do “já” e do “ainda não”, a religião em que transcendência e imanência, vida terrena e vida eterna se encontram. Cristo, de fato, já ressuscitou, uma vez por todas e como primícias de nossa geral ressurreição; mas a "divinização" de cada um de nós é um processo em curso. Por isto a Igreja tem uma relação particular com o tempo. A Igreja, e com isto quero dizer as igrejas apostólicas, se põem sempre naquele contínuo que é a tradição. Esta palavra, seja em latim (traditio), seja em eslavo (predanie), indica a transmissão da fé. O testemunho que havíamos recebido dos apóstolos e de quantos nos precederam no caminho para Deus devemos entregá-lo, todo inteiro, às gerações vindouras. Temos pois uma responsabilidade de fidelidade.

Sem dúvida Bento XVI enquanto Papa, exatamente como Joseph Ratzinger enquanto teólogo, é o homem da continuidade, da fidelidade àquela entrega que é a tradição. Teólogo da continuidade o foi também na sua leitura do Concílio Vaticano II. Também do ponto de vista da teologia ortodoxa, o último concílio da Igreja Católica é apreciado não como momento de ruptura com o passado, mas exatamente o contrário: enquanto e na medida em que se refere à tradição, e mais, eu diria, retorna a esta.

O pontificado de Bento XVI significou um notável melhoramento de relações entre ortodoxos e católicos e, em particular, entre Roma e a Igreja ortodoxa russa. O Papa conhece bem a ortodoxia; o seu amor pela tradição o torna próximo dela. É necessário dizer que também o conhecimento pessoal influi positivamente nas relações intereclesiais. O Patriarca Kirill, antes de ser eleito primaz da Igreja ortodoxa russa, por bem quatro vezes se encontrou primeiro com o Cardeal Ratzinger e depois com o Papa Bento XVI. Também eu, depois de haver sucedido o atual patriarca como presidente do Departamento para as relações externas de nossa Igreja, por três vezes fui recebido em audiência privada pelo Papa. Conservarei sempre uma excelente recordação de nossas conversações e de sua pessoa. Não creio que se possa dizer que o seu ser teólogo, homem de pensamento de posições conhecidas, frequentemente opostas à cultura dominante, tenha prejudicado o seu ser pastor. Bento XVI é um homem simples, compreensivo, de grande humildade e sabedoria.

Entre ortodoxos e católicos, ainda hoje, restam certos nós teológicos a serem desfeitos e certas feridas a serem sanadas. Tive ocasião de ilustrar a minha visão pessoal do estado de nossas relações e das perspectivas do diálogo teológico ortodoxo-católico diretamente ao Papa, nas conversações pessoais havidas com ele. Devo dizer que nutro certa perplexidade no que tange ao diálogo levado avante pela Comissão teológica mista: creio que no imediato devir não podemos esperar progressos significativos. No entanto, nossas posições em outros campos coincidem perfeitamente, ou quase. Por exemplo, as posições éticas. Devemos pois investir nestes campos, agir desde já conjuntamente para reafirmar os valores éticos do cristianismo. Disse-o ao Papa e e encontrei de sua parte plena compreensão.

Outro campo em que podemos e devemos agir juntos é o da defesa dos cristãos perseguidos. A aqui não me refiro somente à África, ao Oriente Médio ou a alguns países asiáticos, mas também na própria Europa, onde frequentemente os cristãos são vítimas de marginalização cultural, reduzidos ao silêncio do secularismo dominante, para o qual a religião é algo que diz respeito somente à esfera da vida pessoal do indivíduo e que não deve ter qualquer reflexo na vida social. O Papa Bento XVI disse e fez muito, seja em defesa dos cristãos perseguidos, seja em defesa dos valores cristãos esquecidos ou pisoteados. Nele tivemos um bom aliado.

Agora, com sua renúncia ao exercício do ministério, o Papa ofereceu ao mundo uma lição de humildade e sabedoria. Faz alguns dias, na Igreja russa, festejamos a Apresentação de Cristo no templo. Como não recordar aqui o cântico do sábio Simeão, que a nossa tradição define “aquele que recebeu Deus” (Simeon Bogopriimec): «Deixai agora, Senhor, vosso servo ir em paz, segundo vossa palavra». Ao pastor e ao cristão Bento XVI desejamos uma longa, fecunda e pacífica última idade da vida. Quanto a nós, desejamos que a dinâmica positiva nas relações entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Igreja Católica Romana continue sob seu sucessor.

Fonte: (©L'Osservatore Romano 23 de fevereiro de 2013), via Papa Ratzinger Blog.
Tradução: OBLATVS

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